A propagação do novo coronavírus em Itália continua a dar sinais de descontrolo: as mortes registam-se, todos os dias, às centenas, o número de novas infeções, aos milhares. No entanto, entre o caos, há uma comunidade que se destaca por permanecer, aparentemente, imune à pandemia. Trata-se, para espanto de muitos, de um grupo de 50 mil chineses, que vivem na cidade de Prato, na região da Toscana.

A comunidade chinesa em causa representa um quarto da população da localidade, e fez com que a taxa de infeção em Prato fosse metade da média italiana: 62 casos contra os 115 a nível nacional, por cada 100.000 habitantes. Isto acontece por não se registar qualquer caso de infeção entre os elementos da comunidade asiática.

No final de janeiro, muitos dos chineses que vivem naquela zona da Toscana, estavam a regressar da China, a propósito das comemorações do ano novo e, por preverem o que poderia acontecer, uma vez que o surto já estava muito ativo no país da Ásia, espalharam a palavra de que todos deveriam ficar em casa. Praticamente a comunidade inteira entrou em quarentena, o que fez com que as ruas de Prato ficassem semi-desertas e grande parte das lojas encerradas. A medida de prevenção teve início três semanas antes de Itália registar o primeiro caso de infeção.

Luca Zhou, um chinês de 56 anos que exporta vinho italiano para a China, conta à Reuters que regressou, sozinho, do país asiático no dia 4 de fevereiro. Assim que chegou a Itália, colocou-se em quarentena, separado da mulher e do filho.

Eu vi o que estava a acontecer na China e tínhamos medo por nós, pelas nossas famílias e pelos nossos amigos".

Depois de terminar os 14 dias de isolamento profilático, o homem passou a sair à rua de máscara e luvas, mas a cautela foi vista como aberração.

Os meus amigos italianos olhavam para mim com estranheza. Eu tentei várias vezes explicar-lhes que deveriam fazer o mesmo, mas eles não quiseram acreditar".

Aliás, também à custa desta prudência, a Amnistia Internacional denuncia que, não só os habitantes de Prato, mas grande parte dos residentes chineses em Itália foram alvo de uma "discriminação vergonhosa", ouviram insultos e foram atacados por pessoas que receavam que eles próprios pudessem espalhar o vírus no país.

Em Milão, um chinês proprietário de um restaurante também relata à Reuters que, em fevereiro, fechou o negócio e disse aos colegas de profissão para fazerem o mesmo: "Muitos deles olharam para mim com desconfiança. Ninguém poderia acreditar que isto viria a acontecer aqui. Agora, Tróia está a arder e estamos todos trancados lá dentro".

O facto é que, de bode expiatório para a pandemia, a comunidade chinesa de Prato tornou-se num modelo de boas práticas no que à adoção de medidas para controlo da infeção diz respeito. Neste momento, o grupo de 50 mil chineses continua a não registar qualquer caso de contágio com o novo coronavírus.

Ao invés, segundo dados da universidade Johns Hopkins, em toda a Itália já foram registados mais de 105.000 casos de infeção, dos quais resultaram 12.428 mortes.

Emanuel Monteiro