O fosso entre homens e mulheres continua a aumentar entre os vencedores dos prémios Nobel. A edição de 2021 premiou dez personalidades e entre elas está apenas uma mulher, reacendendo o debate em torno da desigualdade. 

Os vencedores do sexo masculino levaram para casa os prémios da Medicina, Química, Física e Literatura. Maria Ressa, a jornalista filipina, foi distinguida este ano com o prémio Nobel da Paz, juntamente com Dmitry Muratov, pelos seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão. Foi a única mulher a receber o prémio em 2021. 

Em 2020, fez-se história quando o prémio Nobel da Química foi entregue, pela primeira vez, a uma equipa de duas mulheres, Emmanuelle Charpentir e Jennifer Doudna, pelo “desenvolvimento de um método que permite editar o genoma”.

Porém, a diferença entre géneros não para de aumentar desde que Marie Curie fez história ao ganhar dois prémios Nobel, primeiro em 1903, ao vencer o da Física, pelas suas pesquisas acerca da radiação, e em 1911, pela descoberta dos elementos químicos rádio e polónio.

Ao todo, as mulheres foram distinguidas com o prestigiado prémio 59 vezes desde a sua criação, em 1901, muito abaixo dos 885 prémios atribuídos a homens.

Os vencedores do Nobel da Economia foram conhecidos na segunda-feira, mas o historial desta categoria não joga a favor das mulheres. Esta é a área em que as mulheres menos venceram. Dos 88 distinguidos, apenas duas foram mulheres.

A cientista portuguesa Elvira Fortunato confessa à TVI24 estar triste com “o domínio muito grande dos homens em relação às mulheres” que ainda existe na ciência e com o contínuo aumento “da quota masculina em detrimento da feminina”.

 

Se no passado isso ainda se aceitava porque as mulheres estiveram proibidas de ir para as universidades, hoje em dia essa questão já não se coloca. Houve um percurso que já foi feito e com muito sucesso por parte das mulheres na ciência”, defendeu. 

Para a professora catedrática, não faz sentido que as mulheres não sejam consideradas tão boas como os homens na área da ciência, num mundo onde representam 50% da população.

A crescente disparidade contrasta com o número cada vez maior de mulheres em posições de destaque do ensino superior. Portugal, por exemplo, é o segundo país da UE com mais investigadores a trabalhar para o Estado e onde o número de mulheres diplomadas todos os anos já é superior ao número de homens.

Comités essencialmente masculinos

Elvira Fortunato acredita que a causa desta diferença pode estar na composição dos Comités que escolhem os candidatos para estes prémios. 

O problema pode estar em quem faz as nomeações. Eu acredito que os conselhos que nomeiam ou propõem os nomes têm muitos homens, o que pode aumentar a tendência de que uma parte significativa dos nomeados sejam homens”, explicou.

Analisadas as formações dos comités das seis categorias do Nobel, apenas dois comités são presididos por mulheres: o Comité Nobel Norueguês, que atribui o Nobel da Paz, e o comité da Medicina. No entanto, o comité norueguês é o único que tem mais mulheres do que homens no júri que escolhe os candidatos ao prémio.

O Nobel da Paz é aquele que apresenta a menor disparidade entre géneros, ainda assim, a percentagem de mulheres galardoadas não vai além dos 16,5%. Desde 1901, apenas 18 mulheres foram premiadas com o Nobel da Paz, contrastando com os 91 homens vencedores. 

Do lado oposto, na área da Medicina, onde o fosso entre géneros é maior, as mulheres representam apenas 5,4% dos laureados. Dos 222 premiados, apenas 12 são mulheres. 

Já os comités do Nobel para a Física, Medicina, Química e da Economia são todos presididos por homens e têm apenas uma mulher entre os seus membros.

No comité da Literatura a situação não é muito diferente. O conselho presidido por Anders Olsson conta com duas mulheres no seu quadro. 

Inverter a situação

Questionada sobre se acredita que a disparidade entre homens e mulheres vai encurtar nos próximos anos, Elvira Fortunato mostra-se frustrada com o pequeno progresso feito nos últimos anos e insiste que é preciso “lutar para inverter a situação”

Eu tento convencer-me de que essa disparidade vai encurtar, mas ao longo destes anos tem sido difícil, porque, ano após ano, apesar de haver cada vez mais mulheres, a tendência é muito pequena”, frisou. 

Ainda assim, a cientista portuguesa, considerada a “mãe” do transístor de papel, acredita que cabe à sociedade, aos políticos e à comunicação social “alertar para estes problemas” de forma a estimular a mudança.