Foi há sete meses que os austríacos foram pela última vez às urnas, na tentativa de elegerem o presidente. Uma (segunda) tentativa que terminou com uma Áustria abananada com suspeitas de fraude eleitoral.

Primeiro, a 24 de abril, a falta de maioria obrigou à realização de uma segunda volta, a 22 de maio. E foi aqui que uma vitória se transformou numa derrota e as duas resultaram num berbicacho de mais de meio ano.

Primeiro ganhou Norbert Hofer, do FPÖ, de extrema-direita, com 51,9%. Mas depois veio o independente e ex-Verdes Alexander Van der Bellen, os votos postais que ainda não tinham sido contabilizados e uma reviravolta de 30.000 votos.

Foi então que a "Bananen-Republik" (república das bananas, na tradução) começou a ganhar forma.

O FPÖ apresentou queixa alegando irregularidades, que, por sinal, foram encontradas, como, por exemplo, funcionários sem acreditação para contar votos.

Por ordem do tribunal, foi determinada a repetição da segunda volta a 2 de outubro, mas foram detetados novos problemas ainda antes do ato eleitoral, desta feita com os votos postais. Os envelopes autocolantes onde seguiriam os votos não colavam, um problema que veio da vizinha Alemanha, onde foram produzidos.

A repetição da segunda volta acabou por ser novamente adiada, desta feita para 4 de dezembro, este domingo. O Parlamento, em todo o caso, agendou para o final de janeiro o juramento do presidente eleito, para que as autoridades tenham tempo suficiente para investigar potenciais "situações".

Até 4 de dezembro, as presidenciais terão custado cerca de 15 milhões de euros aos cofres austríacos, de acordo com a agência France Presse (AFP).

No domingo haverá, também, novos eleitores. Desde 24 de abril, morreram 45 mil, enquanto cerca de 46 mil fizeram 16 anos e tornaram-se, por isso, elegíveis.

Empate continua técnico

Sete meses decorridos, Norbert Hofer e Alexander Van der Bellen continuam praticamente como começaram, ou seja, empatados, de acordo com as sondagens.

O primeiro, um engenheiro aeronáutico de 45 anos, e que tem o apoio do “povo”, como gosta de dizer, pode tornar-se no primeiro chefe de Estado de extrema-direita caso vença as eleições deste domingo.

O segundo, um economista de 72 anos, tem o apoio das celebridades, da classe política e dos mais instruídos.

Uma espécie de versões de Donald Trump e Hillary Clinton, portanto, e que encontra semelhanças para além das diferença de opinião dos candidatos em temas como a imigração e o Brexit.

A determinado momento da campanha, Van der Bellen, um fumador muito ativo, foi obrigado a divulgar os seus registos médicos, para abafar os rumores de cancro com uns “pulmões maravilhosos”.

Nestes meses que decorreram desde a segunda volta, os dois candidatos também perderam o respeito um pelo outro, como puderam assistir os espectadores do último debate televisivo, que se realizou na noite de quinta-feira. Os temas centrais de governação ficaram de lado, apesar da insistência da moderadora da televisão pública ORF, para se focarem na roupa suja.

Hofer, do FPÖ, acusou Van der Bellen de tudo: de ser nazi, ou melhor, que o pai, um aristocrata russo, era nazi; de ter sido espião durante a Guerra Fria e de ser comunista.

Em direto, Van der Bellen tirou da pasta uma composição de imagens divulgada nas redes sociais, inclusive por um porta-voz do FPÖ, em que é associado a Hitler, ao posar com o seu cão, tal como fez o Führer em duas fotografias emblemáticas. Esse post tinha sido apagado, mas o candidato independente guardou-o para se vitimizar na derradeira oportunidade de conquistar eleitorado.

“Acha isto correto?”, questionou Van der Bellen a um Hofer que, por sinal, também tem passado muitas vezes pelo mesmo.

Os cartazes de Hofer são frequentemente vandalizados com bigodes e suásticas.

No debate, Hofer também acusou Van der Bellen de ter sido um espião da União Soviética durante a Guerra Fria. O independente respondeu que tais considerações não poderiam ser mais “ridículas”.

O coxo moderado e o senhor professor

Hofer e Van der Bellen não poderiam ser mais diferentes.

O candidato do FPÖ (Partido da Liberdade da Áustria) tem 45 anos, é engenheiro aeronáutico, um nacionalista convicto e um fervoroso apoiante das armas – ele próprio anda com uma Glock “não vá o diabo tecê-las”, como justificou.

Visto pelos analistas como um “lobo em pele de cordeiro”, conseguiu através de um discurso mais moderado, isto é, menos xenófobo que o polémico líder do partido, Heinz-Christian Strache, cativar simpatizantes e eleitores. Mas está debaixo de olho de meia Europa, por ser apologista da saída da Áustria da União Europeia, cenário para o qual ameaçou com a realização de um referendo caso fosse eleito.

Usa bengala depois de um acidente de parapente, mas não precisou de ajuda para uma primeira volta presidencial com 35% de votos, uma popularidade histórica para o seu partido.

Hofer sabe que não pode ser demasiado agressivo para ter sucesso, particularmente quando do outro lado está um Van der Bellen que surge como o candidato simpático, um "senhor" da política.

O independente que já liderou os Verdes é um professor de Economia de 72 anos, pró-União Europeia.

Filho de um aristocrata russo e de uma mãe estónia, tem o apoio das celebridades, dos políticos e dos mais instruídos.

Enquanto esteve à frente dos Verdes, o partido obteve resultados de popularidade recorde.

Catarina Machado