As forças especiais da Guiné-Conacri afirmaram hoje ter capturado o Presidente Alpha Conde e “dissolvido” as instituições, num vídeo enviado à AFP, enquanto o Ministério da Defesa garante ter repelido a tentativa de golpe.

Decidimos, depois de retirar o Presidente, que atualmente está connosco (...), dissolver a Constituição em vigor e dissolver as instituições; decidimos também dissolver o Governo e fechar as fronteiras terrestres e aéreas”, disse um dos membros do grupo envolvido no alegado golpe de Estado e que se apresentou de uniforme e armado numa declaração divulgada nas redes sociais, mas não transmitida pela televisão nacional.

Os golpistas, que confirmaram à AFP a origem do vídeo, divulgaram imagens do Presidente, nas quais lhe perguntam se foi maltratado, tendo Alpha Condé, vestido com calças de ganga e camisa e sentado num sofá, recusado responder.

Por seu lado, o Ministério da Defesa afirmou, em comunicado, que “os insurgentes (tinham) semeado o medo” em Conacri antes de tomarem o palácio presidencial, mas que “a guarda presidencial, apoiada pelas forças de defesa e segurança leais e republicanas, conteve a ameaça e repeliu o grupo de atacantes”.

Hoje de manhã foram ouvidos tiros de armas automáticas no centro de Conacri, capital da Guiné-Conacri, e muitos soldados eram visíveis nas ruas, segundo relataram várias testemunhas à agência AFP.

Nenhuma explicação foi inicialmente disponibilizada sobre as razões para esta tensão na península de Kaloum, no centro de Conacri, onde estão localizadas a presidência, as instituições e os escritórios comerciais.

No entanto, moradores em Kaloum, contactados por telefone, relataram um tiroteio prolongado e disseram ter visto muitos soldados a ordenar às pessoas que voltassem para as suas casas e que não saíssem à rua.

Um diplomata ocidental adiantou à agência de notícias francesa considerar “sem qualquer dúvida” que estava em curso uma tentativa de golpe, liderada por forças especiais guineenses.

Segundo o mesmo diplomata, a tensão poderá estar relacionada com a demissão ou tentativa de deter o comandante das forças especiais, uma unidade com mais recursos e privilégios do que outras forças de segurança.

Nos últimos meses, a Guiné-Conacri, país da África Ocidental que faz fronteira com a Guiné-Bissau e é um dos mais pobres do mundo, apesar dos consideráveis recursos minerais e hidrológicos, enfrenta uma profunda crise política e económica, agravada pela pandemia de covid-19.

A candidatura do Presidente Alpha Condé a um terceiro mandato, considerado inconstitucional pela oposição, em 18 de outubro de 2020, gerou meses de tensão que resultou em dezenas de mortes num país acostumado a confrontos políticos sangrentos.

A eleição foi precedida e seguida da detenção de dezenas de opositores.

Condé, atualmente com 83 anos, foi proclamado Presidente - num terceiro mandato - em 07 de novembro, apesar da contestação do seu principal adversário, Cellou Dalein Diallo, e de três outros candidatos que denunciaram ter havido “enchimento de votos” e irregularidades de todos os tipos.

Vários defensores dos direitos humanos criticam a tendência autoritária observada durante os últimos anos na presidência de Condé e questionam as conquistas do início da sua governação.

Condé, um ex-opositor histórico, preso e até condenado à morte, tornou-se, em 2010, no primeiro Presidente eleito democraticamente no país, após décadas de regimes autoritários.

Aos olhos de seus opositores e de muitos defensores da democracia, Condé acabou por se juntar às fileiras de líderes africanos que permanecem no poder além do prazo, usando, cada vez com mais frequência, argumentos jurídicos.

Conde tinha adotado, em março de 2020, uma nova Constituição para, segundo alegou na altura, “modernizar (as) instituições” e, por exemplo, dar mais importância às mulheres e aos jovens.

A oposição denunciou a medida considerando-a “um golpe constitucional”, mas o protesto foi severamente reprimido em várias ocasiões.

Em 19 de julho de 2011, Alpha Condé, tinha já sido alvo de um ataque perpetrado por soldados na sua própria residência, do qual saiu ileso, e acusou várias personalidades do golpe, tendo mesmo implicado o Senegal e a Gâmbia, que negaram qualquer envolvimento.

/ HCL