Um homem preso há 20 anos, na Coreia do Sul, foi considerado inocente esta quinta-feira. Em causa estava a violação e homicídio de uma adolescente de 13 anos.

No final da década de 80 e início da de 90, numa zona rural do país, 10 raparigas foram assassinadas, naqueles que ficaram conhecidos como os “Homicídios de Hwaseong”. Yoon Seong-yeo, atualmente com cerca de 50 anos, foi o único condenado, depois de ter sido responsabilizado pela morte de uma delas. Estava a cumprir pena de prisão perpétua.

O processo voltou agora a ser julgado, num tribunal especial, depois de terem sido descobertas mais provas. Em setembro de 2019, a polícia anunciou que novas análises de ADN faziam acreditar que o culpado poderia ser um outro homem, que estava preso pelo assassinato da cunhada. Viria depois a confirmar-se ser este o homicida de todas as jovens.

Ficou também provado que, na época, a polícia agrediu e torturou Yoon Seong-yeo para que este confessasse a autoria do crime. Para o efeito, as autoridades detiveram o homem ilegalmente e usaram métodos como a privação do sono, durante três dias consecutivos.

Como membro do sistema judicial, peço desculpa ao arguido, que sofreu grande dor física e mental, pelo facto de o tribunal ter falhado na sua função de proteger os direitos humanos”, disse o juiz.

O verdadeiro autor dos homicídios não poderá ser condenado pelos crimes, que já prescreveram. Durante o julgamento que reanalisou o processo, Lee Chun-jae disse estranhar que a polícia nunca tivesse suspeitado dele. “Eu não pensava que os crimes fossem ficar enterrados para sempre. Eu venho aqui testemunhar e descrever os crimes com a esperança de trazer algum conforto às vítimas e às famílias. Vou viver a minha vida com arrependimento”.

Yoon Seong-yeo vai agora pedir uma indemnização de cerca de um milhão de dólares (cerca de 800 mil euros), embora sublinhe que nunca poderá ser devidamente recompensado por tudo o que sofreu.

As autoridades sul-coreanas ponderam elaborar um documento sobre o processo, no qual expõem todas as falhas cometidas.

Foi uma investigação ilegal e vergonhosa. Eu acredito que isto nunca deverá voltar a acontecer. Estamos a trabalhar para que estes erros não se repitam”, garantiu Kim Chang-yong, comissário-geral da polícia nacional sul-coreana.

João Faria