Quatro norte-coreanos e uma japonesa exigem à Coreia do Norte uma indeminização pelos danos que lhes foram causados. Garantem que lhes foi prometido “o paraíso na terra” e foram privados dos direitos mais básicos. O caso deu entrada num tribunal japonês e se ganharem, podem conseguir mais de 700 mil euros cada um. Como chefe de estado, Kim Jong-un, vai ser notificado a ir a tribunal. A primeira audiência foi dia 14 de outubro e foram ouvidos os cinco requerentes do processo.

Esta não é uma história simples e a Coreia do Norte não será o único país com responsabilidades. Entre 1959 e 1984 mais de 90 mil norte-coreanos abandonaram o Japão e rumaram à Coreia do Norte, devido a uma “campanha enganosa”, escreve a BBC.

Os requerentes não acreditam que Kim Jong-un, que não era nascido na altura, compareça em tribunal ou sequer pague qualquer valor se ganharem, mas esperam que se o resultado lhes for favorável, possa haver uma negociação entre o Japão e a Coreia do Norte. No processo descrevem o sucedido como um “sequestro de Estado”.

Milhares de coreanos, muitos contra sua vontade, mudaram-se para o Japão durante o domínio colonial na península coreana entre 1910 e 1945. Mas nos anos 50, a Coreia do Norte, precisava reerguer-se após a II Guerra Mundial e a Guerra da Coreia. Por isso, organizou uma campanha para fazer regressar ao país milhares de norte-coreanos. O programa foi apoiado pelo governo japonês, à época, que não via com bons olhos os imigrantes desta nacionalidade.

A Coreia do Norte convidou os seus cidadãos nacionais a regressarem, “vendendo” uma imagem idílica do país. Prometeu o regresso “à pátria mãe”, “o paraíso” com educação, um sistema de saúde universal e muitos empregos.

II Guerra Mundial

Entre a discriminação que sentiam no Japão e as promessas de uma vida melhor, milhares de norte-coreanos, muitos já casados com mulheres japonesas, regressaram ao país. Mas a realidade que encontraram estava longe, muito longe do prometido. Foram obrigados a trabalhar na agricultura, em minas e em fábricas. Sofreram com a violação dos direitos humanos e nunca lhes foi permitido sair do país. Segundo o jornal Korea Times, muitos ficaram sem o direito à sua cidadania japonesa.

Apesar do processo em tribunal, os requerentes admitem que este caso é sobretudo simbólico. Do grupo de cinco fazem parte, quatro norte-coreanos e a mulher, de nacionalidade japonesa, de um outro coreano que participou no programa. Os cinco conseguiram desertar e regressar ao Japão.

Kenji Fukuda, advogado dos cinco, explica à BBC: “Não esperamos que a Coreia do Norte tome nenhuma decisão ou sequer pague pelos danos”. No entanto, admite: “Se ganharmos, o governo japonês podia negociar com a Coreia do Norte”. Todavia, os dois países não têm relações diplomáticas oficiais.

No processo pode ler-se que a Coreia do Norte atraiu as pessoas “com publicidade enganosa para os realocar no país” e, aí, “era impossível disfrutar dos direitos humanos”.

Um dos requerentes, Eiko Kawasaki, de 79 anos, afirmou à Associated Press que ninguém teria regressado se soubessem o que os esperava. Kawasaki conseguiu fugir, em 2003, mas deixou os filhos, já adultos, para trás. "Não sei o que aconteceu à minha família. Talvez o coronavírus os tenha apanhado, ou talvez alguns tenham morrido de fome", disse ainda à AFP.

Já Lee Tae-kyung, outro dos requerentes, tinha oito anos quando foi para a Coreia do Norte, em 1960, falou ao New York Times“Disseram-nos que íamos para ‘o paraíso na terra’, mas levaram-nos para o inferno. Privaram-nos do nosso direito humano mais básico: a liberdade de partir”, afirmou. Lee Tae-kyung só conseguiu fugir para o Japão 46 anos depois.

Patrícia Pires