O professor húngaro que, na sexta-feira, arriscou a própria vida para salvar outras no acidente de autocarro perto de Verona, em Itália, perdeu os próprios filhos, na viagem em que 16 pessoas morreram carbonizadas e 26 ficaram feridas. A maioria das vítimas eram adolescentes húngaros que regressavam a casa depois de uma viagem escolar a França.

A cônsul geral da Hungria em Milão, Judith Timaffy, contou no domingo que György Vigh, um professor de Educação Física de um instituto de Budapeste, depois de se salvar, chegou a entrar várias vezes no veículo acidentado e em chamas para resgatar alunos e docentes que estavam presos no interior.

“Salvou vários estudantes entrando e saindo do autocarro em chamas, mas não conseguiu resgatar os dois filhos, Laura e Balazs, que morreram carbonizados.”

O testemunho dramático de Judith Timaffy, em relação ao professor de 50 anos, que apelida de herói, faz eco da história que está a emocionar a Itália e a Hungria, onde, afirma a cônsul, se está a viver "uma tragédia nacional".

Citada pelo jornal italiano Corriere Della Serra, Judith Timaffy explica que a mulher do professor, Erika Vigh, que também estava no autocarro, conseguiu escapar ilesa e já está ciente da morte dos dois filhos.

"Ela viu a filha morrer, mas ainda tinha uma réstia de esperança no caso do filho, que no fim perdeu, já que ele não figurava entre os sobreviventes", afirma a diplomata.

O filho, Balazs Vigh, era um ex-guarda-redes da equipa de hóquei no gelo Ferencvarosi TC em Budapeste.

Selfie de György Vigh com os alunos nos Alpes

Também ao Corriere Della Serra, György Vigh conta que, enquanto entrava e saía várias vezes do autocarro para empurrar os alunos para fora, gritava sempre o nome dos filhos Laura, de 18 anos, e Balazs, de 30. O professor, que sofreu queimaduras de terceiro grau nas costas, braços, mãos e cara, viu-se obrigado a desistir quando as chamas tomaram conta de todo o autocarro, que ficou reduzido a uma carcaça.

György Vigh refere que só se salvou porque ia na parte traseira do autocarro. Os que viajavam nas primeiras filas morreram de imediato devido ao impacto do veículo contra o pilar de cimento, enquanto outros morreram carbonizados. O reconhecimento dos corpos foi muito difícil para os familiares das vítimas e, em alguns casos, foi mesmo impossível.

“Muitos de nós iam a dormir. É incompreensível como tudo pôde acontecer tão rapidamente”, afirmam ao mesmo jornal alguns rapazes que sobreviveram. “O fogo começou na frente do autocarro e propagou-se a uma velocidade impressionante”, acrescentam.

György Vigh, enaltecido como herói pela coragem de voltar a entrar no autocarro em chamas para salvar os alunos, todos rapazes, sem pensar apenas nos filhos, regressou no domingo à Hungria de avião com a mulher, depois de ter recebido alta.

O professor conta que, ainda no hospital, perguntou pelos dois colegas que o acompanhavam: um morreu no acidente, o outro, Robert Papp, está internado no serviço de Neurologia, da Policlínica di Borgo, em Roma, e não corre perigo de vida. 

Mas o pensamento de György Vigh, enquanto lá estava, ia para "um adulto não identificado", internado no mesmo hospital, que lutava para sair do coma. O professor tinha esperança que fosse Balazs, o filho que, nessa altura, ele ainda não sabia se tinha sobrevivido ou não.

Com o martelo na mão

Além do professor Vigh, houve um outro herói na tragédia: um estudante que a polícia encontrou junto a uma das janelas do autocarro. O jovem ainda tinha nas mãos o martelo com que partiu o vidro, que permitiu a outros jovens salvarem-se. O estudante morreu devido a um traumatismo, mas o seu gesto foi considerado heroico e é recordado pelos colegas com emoção e lágrimas, noticia o diário espanhol ABC.

O acidente aconteceu antes da meia-noite de sexta-feira quando os adolescentes regressavam a Budapeste, na Hungria, a bordo de um autocarro após umas férias de esqui nos Alpes franceses. O autocarro em que viajavam despistou-se e colidiu contra um pilar na autoestrada A4, no município de San Martino Buon Albergo, perto de Verona, tendo-se incendiado de seguida.

As autoridades húngaras confirmaram que, a bordo, viajavam 56 pessoas de nacionalidade húngara, dois motoristas e 54 passageiros, sobretudo jovens alunos com idades entre 14 e 18 anos acompanhados por alguns professores.

Além dos 16 mortos, que só poderão ser identificados através de testes de ADN, o acidente provocou 26 feridos.

“Duas pessoas estão em condições muito sérias e temos alguns problemas para as identificar, é uma situação delicada e devemos esperar para ter mais certezas”, explica um responsável da polícia em Itália, citado pela Euronews.

Quatro passageiros permaneceram hospitalizados com lesões graves. As autoridades confirmam que o processo para identificar oficialmente os 16 mortos no acidente vai ser demorado, já que os corpos estão completamente carbonizados.

As autoridades italianas estão a investigar as causas do acidente, que poderá ter tido origem num problema numa das rodas. De acordo com o jornal italiano L' Arena, o motorista está desaparecido e poderá ser uma das vítimas ainda irreconhecíveis. 

A cônsul da Hungria avança que a hipótese mais provável é que o "motorista sofreu um acidente vascular cerebral ou tenha adormecido momentaneamente". Judith Timaffy acrescenta que a hipótese de avaria mecânica também não está excluída.

Para esta segunda-feira, o governo da Hungria declarou dia de luto nacional em memória das vítimas.