O Papa Francisco pediu esta segunda-feira que fossem libertados de imediato os líderes políticos de Myanmar, depois do golpe de Estado ocorrido a 1 de fevereiro.

O Sumo Pontífice fez o apelo no discurso anual que faz para os corpos diplomáticos, que foi ouvido por representantes de mais de 180 países.

O caminho para a democracia restabelecida nos anos recentes foi interrompido de forma brusca", afirmou Francisco.

Também esta segunda-feira, e pelo terceiro dia consecutivo, milhares de pessoas estão a manifestar-se nas ruas de Rangum contra o golpe de Estado no início deste mês, no qual a líder Aung San Suu Kyi foi afastada do poder.

Estou a participar neste movimento porque não quero a ditadura", disse à agência de notícias France-Presse o trabalhador de uma fábrica de confeção Hnin Thazin, durante o protesto na capital económica do país, iniciado às 10:00 locais (03:30 em Lisboa).

Entre os manifestantes estão monges e profissionais de saúde, segundo noticia a agência Reuters.

Ao mesmo tempo, os manifestantes apelavam para a realização de uma greve geral, tal como haviam feito durante o fim de semana, um pouco por todo o país.

Não vamos trabalhar mesmo que o nosso salário baixe", acrescentou, desfilando ao lado de outros trabalhadores, monges e estudantes, que agitavam bandeiras vermelhas nas quais se podia ler: "Libertem os nossos dirigentes", "Respeitem os nossos votos" ou "Rejeitem o golpe de Estado".

Em várias cidades do país decorriam protestos idênticos, tal como no fim de semana, com os manifestantes a gritarem: "Não queremos ditadura militar", "Libertem 'Mãe Suu'". Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, foi detida, em local não conhecido, na segunda-feira.

As manifestações, as mais importantes desde a revolta popular de 2007, violentamente reprimida pelos militares, decorreram sem grandes incidentes.

Numa mensagem enviada aos órgãos de comunicação social, os organizadores dos protestos exigiram uma "revolução em todo o país contra a ditadura" e apelaram para uma greve geral, com um pedido aos funcionários públicos e trabalhadores das empresas privadas para se juntarem ao movimento.

Dezenas de funcionários públicos de vários ministérios tinham já deixado de trabalhar na semana passada, em sinal de protesto.

Os militares puseram fim, em 1 de fevereiro, a uma frágil transição democrática, ao instaurarem o estado de emergência por um ano e detiveram Suu Kyi e outros dirigentes da Liga Nacional para a Democracia (LND).

Mais de 150 pessoas, entre deputados, responsáveis locais e ativistas, foram interpelados e continuam detidos, indicou a AAPP.

As ligações à internet foram parcialmente reestabelecidas no domingo, depois de uma perturbação no serviço de 24 horas, mas o acesso à rede social Facebook, principal ferramenta de comunicação para milhões de birmaneses, continua a ser restrito.

O país viveu sob um regime militar durante cerca de 50 anos, desde a independência em 1948.

Uma liberalização progressiva começou em 2010, e cinco anos depois, com a vitória da LND nas eleições, chegou ao poder um governo civil, dirigido de facto por Suu Kyi.

Muito criticada até há pouco pela comunidade internacional pela alegada passividade na crise dos muçulmanos rohingyas, Aung San Suu Kyi, que viveu sob residência vigiada durante 15 anos pela oposição à junta, continua a ser extremamente popular no país.

De acordo com fontes partidárias, a ex-dirigente estará de "boa saúde", confinada a uma residência em Naypyidaw, a capital construída pelos militares.

A LND venceu novamente as legislativas de novembro, num escrutínio cuja regularidade foi contestada pelos militares, apesar de observadores internacionais não terem constatado quaisquer problemas graves.

Os militares prometeram eleições livres depois do fim do estado de emergência.

/ Publicado por António Guimarães-Atualizada às 11:37