Um novo presidente em Washington, eleições numa Europa em crise de valores, o esperado fim de uma das investigações judiciais mais mediáticas em Portugal... Não é necessário recorrer a uma bola de cristal para prever que 2017 será um ano de várias mudanças. Tanto no plano nacional, como a nível internacional.

Em 2016, o Reino Unido disse "não" à União Europeia, Donald Trump venceu as presidenciais norte-americanas e Portugal sagrou-se Campeão Europeu de Futebol. Agora, é tempo de virar a página e espreitar o que aí vem. Reunimos os dez acontecimentos que vão marcar o próximo ano.

 

1. Autárquicas

No próximo ano haverá eleições autárquicas em outubro e as máquinas partidárias já começaram a ser oleadas, sobretudo nas câmaras mais desejadas.

O Partido Socialista já assumiu como “prioridade absoluta” o combate político nas autárquicas. Depois de nas legislativas ter recorrido ao apoio parlamentar do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista Português e dos Verdes para formar Governo, os socialistas querem pelo menos repetir os resultados de 2013, ano em que obtiveram uma vitória clara nas câmaras.

Já para o maior partido da oposição, o PSD, o objetivo é precisamente conseguir melhorar o resultado das últimas autárquicas. A sentir alguma pressão estará Pedro Passos Coelho, que pode ver a sua liderança questionada. Há quem já tenha apontado Rui Rio como o próximo presidente do partido e o antigo presidente da Câmara do Porto já assumiu que pode ser uma alternativa à liderança de Passos.

Quem se antecipou ao PSD foi Assunção Cristas, que é candidata à principal câmara do país, Lisboa. A candidatura da líder do CDS é interpretada como uma forma de Cristas reforçar a sua posição dentro do CDS e, ao mesmo tempo, medir forças, que é como quem diz votos, com o PSD.

Mais à esquerda, será interessante perceber se a correlação de forças entre BE, que nunca foi um partido autárquico, e o PCP, que tradicionalmente disputa câmaras com o PS, se mantém. Uma ascensão dos bloquistas poderá criar tensões na denominada “geringonça”.

 

2. Tomada de posse de Donald Trump

O milionário Donald Trump, que foi eleito presidente dos Estados Unidos a 8 de novembro, vai tomar posse a 20 de janeiro. A data oficializa o fim de um ciclo - os dois mandatos de Barack Obama na Casa Branca - e o início de um novo, o mandato de Trump.

O republicano, que venceu as presidenciais de forma inesperada, conquistou os eleitores com um discurso populista, anti-imigração, isolacionista, contra os tratados de comércio internacionais, contra o acordo sobre as alterações climáticas.

É certo que continua polémico, mas, à medida que se prepara para assumir funções, Trump parece mais comedido em relação a alguns temas controversos. Irá o novo presidente norte-americano cumprir tudo o que prometeu? Como a construção de um muro na fronteira com o México? Ou a deportação de milhares de imigrantes? O mundo aguarda em suspenso para saber mais sobre o mandato de Trump. As suas decisões podem mudar os Estados Unidos e o mundo como o conhecemos.

 

3. Uma solução para a Síria

A 15 de março do próximo ano farão seis anos desde que a Síria se tornou num sangrento palco de combates, com milhares de mortos e milhões de refugiados.

A guerra civil, que opõe o regime de Bashar Al-Assad aos vários grupos de rebeldes, tem marcado a agenda dos líderes internacionais, mas uma solução de paz tarda em aparecer.

O papel da Rússia, que apoia o regime de Damasco, e o dos Estados Unidos, que apoiam os rebeldes, são fundamentais. Uma solução de paz passa por um consenso entre os dois países, mas, nos últimos tempos, as tensões entre Moscovo e Washington têm-se agravado. De tal modo que os media internacionais chegaram mesmo a falar numa nova Guerra Fria.

No entanto, em 2017 haverá um novo presidente na Casa Branca. Com Donald Trump, que defende uma aproximação à Rússia, espera-se que as relações entre os dois países melhorem e um acordo para a Síria poderá ficar mais próximo.

 

4. Fim da investigação da Operação Marquês

A investigação da Operação Marquês, que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates, vai durar pelo menos até março de 2017, altura em que poderá ser conhecido o despacho de encerramento de inquérito.

O encerramento do inquérito estava fixado para o dia 15 de setembro, mas a Procuradoria-geral da República decidiu prolongar o prazo por mais seis meses.

O caso, que tem 18 arguidos, investiga suspeitas da prática de crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais e levou à prisão preventiva de José Sócrates.

 

5. Eleições na Alemanha

A Alemanha vai ter eleições federais no próximo ano e, sendo este país a maior economia da Europa, os resultados acabam por ter implicações para todo o continente.

Angela Merkel, da União Democrata Cristã (CDU), é candidata à liderança da Alemanha pela quarta vez consecutiva, mas, depois de 11 anos a comandar os destinos dos alemães, a popularidade da chanceler tem estado em declínio.

As políticas tolerantes de Berlim em relação ao acolhimento de refugiados são um dos fatores que mais tem contribuído para a imagem negativa de Merkel. E é este mesmo motivo que, por outro lado, explica a ascensão dos movimentos de extrema-direita.

Enquanto a CDU tem somado derrotas pesadas nas eleições regionais, a direita populista, representada pela Alternativa para a Alemanha (AfD), tem ganho força até em bastiões históricos da CDU.

Depois do “Brexit”, da vitória inesperada de Donald Trump, do referendo que levou à demissão de Matteo Renzi em Itália, os analistas temem que esta onda populista se estenda às eleições que vão ocorrer na Alemanha e em França.   

Quando anunciou a sua candidatura, Merkel mediu bem a escolha das palavras, afirmando que é preciso trabalhar para “evitar alimentar o ódio”. Mas não será a única a lutar pela defesa da Europa. Martin Schulz anunciou que vai trocar o Parlamento Europeu pela política alemã. Vai ser o candidato dos sociais-democratas (SPD) pela região de North Rhine-Westphalia, mas há quem especule que poderá mesmo tentar suceder a Merkel.

 

6. Eleições em França

No próximo ano haverá presidenciais em França, com duas voltas: a primeira em abril de 2017 e a segunda em maio. O crescimento da direita tem causado ansiedade não só no Eliseu como no resto da Europa. Um bom resultado do partido de extrema-direita Frente Nacional pode significar um golpe duro para o projeto de integração europeia.

A Frente Nacional de Marine Le Pen serviu-se da crise de refugiados e dos atos terroristas que perfuraram uma nação inteira para subir nas intenções de voto. Nas regionais do ano passado, o partido eurocético e anti-imigração conseguiu uma votação recorde, mais de seis milhões de votos.

Agora, as sondagens de opinião dão os socialistas, atualmente no poder, atrás do partido Les Républicains (centro-direita) e da Frente Nacional, apontando para que Le Pen passe facilmente à segunda volta. Dito de outra forma, as projeções apontam para que nestas presidenciais a discussão seja entre direita e extrema-direita.

E foi o próprio Manuel Valls que, antes de anunciar que era candidato à presidência, admitiu que a extrema-direita pode mesmo ganhar as eleições, embalada pelo Brexit e pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.

Valls anunciou que entrava na corrida pelos socialistas – que vão confirmar o seu candidato nas primárias de janeiro - depois de François Hollande, cuja popularidade entre os franceses é muito baixa, ter confirmado que não ia concorrer a um segundo mandato. 

Francois Fillon, ex-primeiro-ministro de 62 anos, é o candidato presidencial do centro-direita do partido Les Républicains.

 

7. Recuperação da CGD

A recuperação da Caixa Geral de Depósitos é um dos assuntos que vai certamente marcar o próximo ano.

O processo de recapitalização vai avançar em 2017, ainda que não se saiba exatamente quando, uma vez que o Governo não se comprometeu com datas. A injeção de capital no banco público foi aprovada pela Comissão Europeia em agosto, mas acabou por ser adiada. 

Este adiamento evitou o impacto nas contas públicas de 2016. O Governo tinha como meta tirar o país do Procedimento por Défices Excessivos (PDE) este ano e, para isso acontecer, precisava de fechar o ano com um défice abaixo de 3%. É possível que o processo tenha efeitos no défice do próximo ano mas, se nessa altura Portugal já tiver saído do PDE, a pressão será menor.

A recuperação da Caixa inclui ainda um plano de reestruturação do banco que prevê um corte de cerca de 2.500 postos de trabalho e a reestruturação de balcões. Para isso acontecer, será necessário esperar pelo financiamento do Estado.

O banco público esteve envolto em polémica em 2016, depois de a administração nomeada pelo Governo de António Costa só ter aguentado três meses. António Domingues, que se demitiu da liderança, passou a pasta ao antigo ministro da Saúde Paulo Macedo, que já admitiu estar a trabalhar num processo que é "complexo".

 

8. Venda do Novo Banco

O Novo Banco tem de passar para as mãos de privados até agosto de 2017. Assim foi determinado pela lei que resultou na resolução do BES - que se dividiu em bad bank (banco mau) e Novo Banco.

O Banco de Portugal estava a trabalhar para anunciar o nome do próximo dono do banco antes do Natal, mas isto acabou por não acontecer e esta é uma questão que transita para 2017. 

Não há venda nem sequer recomendação de venda até ao final de 2016. O Fundo de Resolução ainda está em negociações com os candidatos à reta final do processo de venda.

Das cinco propostas que foram entregues, há agora duas possibilidades de escolha: a do norte-americano Lone Star e a do China Minsheng Financial Group.

O processo é conduzido por Sérgio Monteiro, antigo membro do governo de Pedro Passos Coelho, que tem por missão tentar, pela segunda vez, colocar o banco no mercado.

Depois de a primeira tentativa de venda em 2015 ter falhado, espera-se que neste segundo concurso haja mesmo luz ao fundo do túnel, apesar de haver o risco de o Estado poder perder muito dinheiro. 

O Novo Banco foi capitalizado em 4.900 milhões de euros pelo Fundo de Resolução, criado pelo Estado juntamente com o setor financeiro após o colapso do BES. Com a venda do banco, a perda que o Fundo de Resolução pode sofrer poderá ser de mais de 90% do valor aplicado.

 

9. Angola: a sucessão de José Eduardo dos Santos

Angola também vai ter eleições no próximo ano e tudo indica que, depois de mais de três décadas no poder, José Eduardo dos Santos vai deixar de ser presidente do país. Uma imagem gasta, a crescente contestação à sua figura e as notícias sobre o seu débil estado de saúde parecem estar na origem desta decisão.

Em março, o chefe de Estado angolano e líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) desde 1979 anunciou que pretendia abandonar a vida política em 2018, ano em que completa 76 anos.

E em dezembro, deu um passo importante em direção a esse afastamento, segundo avançou a rádio pública angolana: indicou oficialmente o atual ministro da Defesa, João Lourenço, para ser o candidato do partido a Presidente da República.

O MPLA já aprovou uma resolução com o cabeça de lista do partido às eleições gerais de 2017, mas não oficializou o nome de João Lourenço. Recorde-se que a Constituição angolana prevê que o cabeça de lista do partido mais votado em eleições gerais seja automaticamente nomeado Presidente da República.

Há ainda a hipótese de João Lourenço ser candidato a presidente e José Eduardo dos Santos se manter como líder do partido até 2018.

Analistas consideram que esta será uma forma de manter a influência dos filhos – Isabel dos Santos é presidente executiva da petrolífera estatal Sonangol, José Filomeno de Sousa Santos é presidente do Conselho de Administração do Fundo do Soberano de Angola e Welwistchia “Tchizé” dos Santos é. além de empresária, deputada.

 

10. Visita do Papa a Portugal

O Papa Francisco vai visitar Portugal, pela primeira vez, no próximo ano, por ocasião do centenário das Aparições de Fátima, em maio.

A visita do Papa só deverá passar por Fátima, estando previsto que o líder da Igreja Católica aterre na base aérea de Monte Real, em Leiria.

Francisco será o quarto Papa a visitar Portugal, depois de Paulo VI – 50 anos das aparições -, João Paulo II (12-15 de maio de 1982, 10-13 de maio de 1991 e 12-13 de maio de 2000) e Bento XVI (11-14 de maio de 2010).

O Papa João Paulo II cumpriu ainda uma escala técnica no aeroporto de Lisboa, em 1982, a caminho da América Central.