Tornou-se o símbolo da insurreição ao entrar no Capitólio norte-americano com um chapéu de peles com chifres, cara pintada com as cores da bandeira americana e sem camisa. Mas quem é Q Shaman, o homem que protagonizou um dos momentos mais caricatos daquilo que muitos descrevem como um dos eventos “mais sombrios” da democracia norte-americana?

Jake Angeli, de 32 anos, mora no estado do Arizona, onde, nos últimos anos, tem ganho notoriedade em vários protestos pro-Trump. Dá a si próprio o nome de Q Shaman, em referência ao movimento das teorias da conspiração “QAnon”, que subscreve e promove ativamente.  

A sua presença no capitólio tornou famoso o homem que se descreve como um ser “multidimensional escolhido a dedo por QAnon”.

O movimento Q Anon tem como base das suas teorias uma sequência de publicações enigmáticas feitas por um alegado membro do governo de Trump num fórum conhecido como 8kun, antigamente conhecido como 8chan. As publicações, amplamente disseminadas entre apoiantes do presidente americano, afirmam que Donald Trump trava uma luta solitária contra uma complexa “cabala”, que mistura elites económicas e políticas, redes de pedofilia, de tráfico humano e algumas das maiores organizações mundiais.

Os seus seguidores acreditam pertencer a um grupo com acesso informação privilegiada, que lhes é comunicada pelo suposto membro do governo próximo do presidente, através de mensagens indiretas e, aparentemente, codificadas.

O grupo de extrema-direita tem ganho uma dimensão significativa nos últimos dois anos e passou a ter uma expressão muito grande dentro do movimento de Donald Trump. Em particular na vaga de protestos que se seguiu à eleição de Joe Biden, apelidada de “Stop the Steal”, ou “parem o roubo”.

Acusado de pertencer aos Antifa

Ainda os apoiantes de Donald Trump estavam dentro do edifício do Capitólio e já as redes sociais tinham publicações com milhares de partilhas a afirmar que “Q Shaman” e outros eram membros do Black Lives Matter (BLM) e do movimento anti-fascista Antifa e que estariam infiltrados no protesto com o objetivo de destabilizar.

Numa publicação em particular, que conta com quase quatro mil retweets, sugere que os apoiantes de Donald Trump “não costumam participar em ativismo pelo clima”, sublinhando que “este tipo é um ator”.

A publicação é, no entanto, facilmente desmentida com uso das mesmas redes sociais. Num vídeo publicado em 2019, durante um outro protesto, Jake Angeli foi entrevistado e falou abertamente do “Q” – trazia, inclusive, um cartaz onde se pode ler “Q mandou-me vir aqui” –, sublinhando a forma como as elites se “querem infiltrar no Governo americano” com o objetivo de “o mandar abaixo” e instaurar “uma Nova Ordem Mundial”.

“Q Shaman” tem uma presença assídua nas redes sociais, em particular o Parler, uma rede social ligada à extrema-direita, criada depois de milhares de utilizadores terem sido banidos de plataformas como o Twitter ou o Facebook por publicar conteúdos que desrespeitam as normas dos sites.

Na plataforma, dissemina teorias da conspiração e vídeos obscuros, como a suposta ligação entre “o comunismo e a magia negra” e como os líderes comunistas agem como “lordes Sith”, em referência aos inimigos da saga “Star Wars”.