A narrativa apocalítica QAnon apresenta desde o início a mesma técnica de comunicação: disseminar nas redes sociais um conjunto de informações especulativas sem recurso a factos ou fontes nem citações verificáveis.

Sob o comando de um utilizador anónimo, apelidado de “Q”, foi alimentada a possibilidade de existir uma rede de pedófilos e satânicos canibais, encabeçada por Barack Obama, Hillary Clinton e uma elite de atores de Hollywood. De fantasia a culto político, o movimento QAnon prometia montar uma grande operação e salvar o mundo da cabala, do Estado Profundo. O messias, o herói? Donald Trump.

A invasão ao Capitólio, a 6 de Janeiro de 2021 em Washington DC, para além de motivada por forças de extrema-direita, ficou igualmente associada ao legado QAnon. Jacob Chansley, o autodominado Xamã QAnon” amplamente fotografado na sala do Senado com uma lança e a bandeira americana, declarou-se culpado no ataque ao maior símbolo democrático dos Estados Unidos.

Depois do FBI ter classificado o movimento QAnon como potencial ameaça terrorista, as plataformas de redes sociais tomaram medidas para travar a sua disseminação. O Twitter cancelou a maioria das contas com mais seguidores e o Facebook e o Instagram eliminaram recentemente vários grupos e páginas relacionados com temáticas QAnon , nomeadamente conteúdos associados ao hashtag #savethechildren. No entanto, as teorias da conspiração proliferam na plataforma Telegram, bastante ancoradas na pandemia, que tem servido de catalisador para o movimento.

A retórica negacionista e profética também cresce em espelho na Europa, através do movimento Querdenken, o apelidado “pensamento lateral”. Manifesta-se em dezenas de protestos na Alemanha e também na tentativa de invasão ao Parlamento alemão, evento que marcou Berlim em Agosto de 2020. O grupo está a ser monitorizado nas plataformas digitais e foi posto sob vigilância pela sua proximidade a grupos neonazis e promotores de teorias da conspiração sobre vacinas contra a covid-19.

O “Destino: Europa” viajou até aos Estados Unidos, Alemanha, Bélgica e Estónia, à procura de recolher testemunhos de especialistas em cibersegurança e investigadores na área do terrorismo digital, e onde encontrou múltiplos contrastes, desde protestos motivados por campanhas de desinformação a sociedades totalmente orientadas para a literacia digital.

#viral é uma reportagem de Filipe Caetano e Inês Tavares Gonçalves, com imagem de Hugo Neves, Nuno Quá e Miguel Bretiano e edição de imagem de João Pedro Ferreira e João Ferreira. Está também disponível o podcast associado ao projeto, onde os jornalistas Filipe Caetano e Inês Tavares Gonçalves partilham os desafios identificados no terreno e detalhes sobre o processo de produção e concretização deste tema. Poderá subscrever e ouvi-lo aqui:

Esta reportagem foi cofinanciada pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu para a área da comunicação. O Parlamento Europeu não esteve envolvido na sua preparação e não deverá ser, em momento nenhum, responsável ou vinculado pelas informações ou opiniões expressas. De acordo com a legislação aplicável, os autores, entrevistados, editores ou emissores do Destino: Europa, são os únicos responsáveis pela reportagem. O Parlamento Europeu também não poderá ser responsabilizado por danos diretos ou indiretos que possam resultar da sua execução.