As imagens que, nos últimos dias, chegam das prisões brasileiras mostram caos total. A sobrelotação e a fala de condições são um problema antigo que não explica os recentes “banhos de sangue”. Quem conhece de perto esta realidade, fala numa guerra organizada entre os principais gangues pelo controlo das principais rotas do tráfico de droga.

Desde o início do ano, a luta pelo controlo do tráfico de droga já vitimou mais de 120 pessoas nas cadeias brasileiras. A maioria das vítimas mortais eram membros ativos de gangues.

Quem são os grupos de criminosos que parecem estar por detrás destes motins organizados?

O PCC – Primeiro Comando Capital – é o maior grupo de crime organizado do Brasil. A sua base estará em São Paulo, mas tem membros espalhados por todo o país e, além-fronteiras, na Bolívia e no Paraguai.

O maior rival do PCC, a segunda maior organização criminosa do país, chama-se Comando Vermelho (CV), com origem no Rio de Janeiro.

Na terceira posição surge, entretanto, a Família do Norte (FDN), criada no Amazonas.

Há muito que os criminosos lutam nas ruas das cidades para conquistarem os mercados de tráfico de droga, mas, já há vários anos, a guerra saltou muros e entrou nas prisões brasileiras.

A expansão violenta e a conquista de novas rotas de tráfico por parte do PCC parece ter incomodado os rivais que, entretanto, se uniram para impedir a tomada de controlo total do do país por parte do Primeiro Comando Capital.

No ano passado, o PCC assassinou um poderoso narcotraficante chamado Jorge Rafaat. A partir daí, passou a controlar as rotas no sul do país, com destaque para uma rota “chave” na fronteira com o Paraguai. Depois voltou a focar a sua atenção nas regiões do norte.

Marcio Sergio Christino, um procurador do Ministério Público brasileiro, explicou à AFP que “o PCC quer controlar o crime em todo o país”.

“O Comando Vermelho, que controlava essa área, foi obrigado a procurar alternativa a norte”, acrescenta Marcio Sergio Christino. Acabou por se juntar à Família do Norte “em busca de uma rota diferente da usada pelo PCC”.

O motim que vitimou 60 reclusos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, conhecido por COMPAJ, próximo da cidade de Manaus, capital do Estado federal do Amazonas, teve como alvo os membros do PCC ali detidos. As mortes terão sido responsabilidade de membros da Família do Norte.

Logo depois, a 6 de janeiro, 33 reclusos são encontrados sem vida, desmembrados e decapitados na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, no estado de Roraima. As mortes serão responsabilidade de presos do Primeiro Comando da Capital, que estavam concentrados neste centro de detenção.

Entretanto, a 14 de janeiro, começa uma nova rebelião. Desta vez, tudo acontece na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Os primeiros números apontavam para 10 mortos. Neste caso, tudo teria acontecido em dois pavilhões. O pavilhão 1, controlado pelo Sindicato do Crime do RN, outra grande organização criminosa brasileira, e o pavilhão 5, uma unidade separada e que faz parte do Complexo de Alcaçuz e onde estão os reclusos com ligação ao PCC. As autoridades brasileiras já assumiram que o número de mortos podia chegar aos 30, mas ainda não avançaram dados oficiais.

Ninguém sabe ao certo, mas suspeita-se que o Primeiro Comando Capital tenha cerca de 20 mil membros ativos. Apesar do líder, Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como ‘Marcola’, estar preso desde 1999, o gangue continuou a crescer em tamanho, alcance e influência.

Além do domínio do tráfico de droga, os investigadores que trabalham nesta área dizem que também têm outro tipo de negócios como, por exemplo, companhias de autocarros, clubes pequenos de futebol ou refinarias petrolíferas ilegais.

Sérgio Adorno, um perito em crime violento da Universidade de São Paulo, explicou à AFP que “o PCC é uma organização muito sólida e hierarquizada. Tem regras muito bem definidas e divisões claras de tarefas e funções”.

O Comando Vermelho, o grande rival do PCC, é considerado o grupo de crime organizado mais antigo do país e terá nascido na década de 1970. Prosperaram com a cocaína a partir de 1980 e expandiram os negócios além dos assaltos a bancos e sequestros. Passaram a dominar o tráfico do Rio de Janeiro.

Alexander Araujo, um procurador do Rio, considera que o poder do gangue tem diminuído e os motivos são simples: “É menos organizado que o rival e menos ambicioso”.

Na realidade, este especialista acredita que o conflito começou mas ruas daquela que é conhecida como a “cidade maravilhosa”, já que o PCC, com a ajuda de pequenos gangues locais, tem tentado ocupar o território do CV.

Patrícia Pires