O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, classificou hoje como um “momento inacreditável” a saída do Reino Unido do mercado único europeu, garantindo que o país será “aberto, generoso e voltado para o exterior”, adiantou a AFP.

É um momento inacreditável. Temos a nossa liberdade nas nossas mãos e cabe-nos a nós aproveitá-la ao máximo”, disse Boris Johnson, no seu discurso de Ano Novo.

Depois de meio século de integração europeia, o Brexit tornou-se realidade para o Reino Unido, que saiu oficialmente da União Europeia a 31 de janeiro, mas beneficiando de um período transitório para amortecer o choque.

Boris Johnson espera também voltar a unir os britânicos, que se dividiram na questão do Brexit, tendo a Irlanda do Norte e a Escócia votado maioritariamente contra a saída da União Europeia.

Penso que o instinto esmagador do povo deste país será o de se unir num Reino Unido onde a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte trabalharão em conjunto para exprimir os nossos valores por todo o mundo”, disse o chefe do governo britânico, um dos grandes responsáveis pelo Brexit.

“Um Reino Unido aberto, generoso, virado para o exterior, internacionalista e praticante do comércio livre”, acrescentou.

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Brexit tornou-se hoje realidade após anos de impasse

O Brexit tornou-se uma realidade hoje às 23:00, quase um ano depois de o Reino Unido ter oficialmente deixado a União Europeia, na sequência de um referendo popular em 2016. 

Um novo Acordo de Comércio e Cooperação, concluído em 24 de dezembro, entrou em vigor às 23:00 (a mesma hora em Londres e meia-noite em Bruxelas), para suceder ao período de transição pós-Brexit, durante o qual o Reino Unido manteve acesso ao mercado único e o respeito pelas regras europeias.

Rompidos os últimos laços de uma relação de quase 50 anos, o acordo garante o acesso mútuo dos produtos aos dois mercados sem quotas nem taxas aduaneiras, mas passam a existir uma série de barreiras comerciais, como mais controlos aduaneiros e burocracia nas transações económicas.

O Reino Unido deixa de estar sujeito ao Tribunal Europeu de Justiça e passa a determinar a política nacional de imigração, que agora vai tratar os europeus como qualquer cidadão estrangeiro. Os britânicos perdem a liberdade de circulação na UE e o acesso a vários programas comunitários. 

O acordo também prevê uma parceria em questões como a segurança e a continuidade do acesso do Reino Unido a várias bases de dados para o combate ao terrorismo e criminalidade. 

Mas prestadores de serviços financeiros britânicos, importante setor económico, perdem o direito automático de operar em toda a UE e as universidades britânicas deixam de ser elegíveis para o programa de intercâmbio de estudantes Erasmus.  

Na Irlanda do Norte, entram em prática novos procedimentos de inspeção de mercadorias para manter aberta a fronteira com a República da Irlanda, o único vizinho terrestre europeu do Reino Unido.

Londres e Bruxelas chegaram a um entendimento após dez meses de intensas e complicadas negociações, que culminaram um processo difícil a nível nacional. 

Desde 2016, demitiram-se dois primeiros-ministros, David Cameron e Theresa May, realizaram-se duas eleições legislativas, o parlamento assistiu a centenas de horas de debate sobre um tema que dividiu partidos políticos, famílias e a sociedade em geral no Reino Unido. 

Porém, o momento de hoje passou quase despercebido, com a agenda política e mediática focada na pandemia de covid-19 devido ao agravamento da situação epidémica, que impede grandes celebrações por causa do confinamento em Londres e na maior parte do país. 

Os sinos do emblemático relógio do parlamento, conhecido por Big Ben, soaram, mas apenas como ensaio para as doze badaladas do Ano Novo, pois o edifício e o mecanismo estão em obras de manutenção.

/ CM - notícia atualizada às 23:03