O Brexit tem sido responsável por várias alterações na dinâmica social do Reino Unido, mas há uma questão que está a preocupar as autoridades britânicas: a segurança das mulheres deputadas, que em vários casos se têm sentido ameaças e em perigo.

Heidi Allen, política, foi, num domingo de manhã, confrontada à porta de sua casa com um homem que andava a assediá-la. Era um ex-soldado, que a mulher havia conhecido numa cerimónia militar em Inglaterra e que começou a persegui-la insistentemente.

Enviava e-mails numa quantidade exagerada e interagia nas redes sociais na mesma medida, obrigando a Allen a bloqueá-lo, conta a CNN.

Ele tentou colocar as suas medalhas de guerra nas minhas mãos, dizendo «leve-as de volta, dê-as ao primeiro ministro, eu não as quero»”, terá dito o homem, num discurso que escalou para a agressividade quando chegou o tema Brexit, refere a mulher.

Allen era deputada pelos conservadores, antes de se demitir do partido em fevereiro para se juntar ao Change UK, um partido anti-Brexit. Esta semana, a imprensa britânica escreve que a política se juntou ao partido Democratas Liberais, também contra a saída do Reino Unido da União Europeia.

A mulher acredita que a perseguição e ameaças surgiram por causa “da ligação à direita” e ao "Brexit”. O homem, mesmo depois de avisado para não se aproximar da deputada, continuou a partilhar imagens da vida privada de Allen e da sua casa.

O homem, entretanto, detido na sequência das ameaças, chegou mesmo a fazer referência à intenção de comprar uma corda, o que perturbou Allen. “Foi absolutamente assustador. Eu estava mesmo, mesmo, cheia de medo”.

Mesmo atrás das grades, a influência do homem não desapareceu da vida de Allen. Acompanham-na sempre botões de pânico e em casa instalou cadeados industriais e luzes de segurança.

Não devia ter de se viver assim, mas agora já normal”, sublinhou a mulher.

Este problema torna-se mais grave porque não afeta apenas Heidi Allen. Outras legisladoras, e também homens, estão a receber inúmeras mensagens com ameaças desde que o Reino Unido votou a favor da saída da UE, em 2016.

Os deputados são obrigados a recorrer a medidas de segurança extra, entre elas viagens de táxi para casa e botões de pânico, para se sentirem seguros no trabalho, e fora dele.

Desde o referendo, os deputados têm visto as críticas, ameaças e assédios nas redes sociais subirem de tom, e quantidade, mas também pessoalmente.

As mulheres que dão a cara pela política britânica nunca haviam experienciado um nível de abuso, assédio e ameaças de morte ou violação tão grande como desde que o Brexit está em cima da mesa.

As ameaças são levadas a sério e com o cuidado que exigem pois ainda é recente a morte da deputada Jo Cox, que em 2016 foi esfaqueada e baleada por um extremista de direita num encontro público.

No início deste ano, a chefe da polícia de Londres, Cressida Dick, declarou perante um comité parlamentar que os agentes constaram “um muito considerável crescimento” no número de ameaças recebidas pelos deputados.

As estatísticas mostram que os crimes cometidos contra os deputados mais do que duplicaram de 2017 para 2018: passaram de 151 para 341.

Uma investigação da Universidade de Sheffield, que analisou oito milhões de tweets de e para deputados no primeiro semestre deste ano, concluiu que os temas mais presentes são Brexit, democracia e Europa.

Os resultados do estudo mostram ainda que Brexit é o tópico que atrai mais respostas de conteúdo abusivo.