A Rússia enviou “várias centenas” de soldados para a República Centro-Africana, anunciou hoje Bangui, três dias depois de uma ofensiva de três grupos armados descrita pelo Governo como “tentativa de golpe de Estado”, a dias das presidenciais e legislativas.

A Rússia enviou várias centenas de homens das forças regulares e equipamento pesado” como parte de um acordo de cooperação bilateral, disse Ange Maxime Kazagui, porta-voz do Governo da República Centro-Africana (RCA), sem especificar o número exato ou data de chegada.

Apesar de não confirmar o envio de militares, o Kremlin admitiu hoje estar “seriamente preocupado” com a crise na República Centro-Africana.

As informações vindas deste país suscitam sérias preocupações”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas, escusando-se, no entanto, a comentar a presença na República Centro-Africana de centenas de soldados russos.

De acordo com o porta-voz da RCA, “os ruandeses também enviaram várias centenas de homens que já estão no terreno e já começaram a lutar” e o Presidente, Faustin Archange Touadera, está a ser protegido por guardas particulares contratados por empresas de segurança russas, enquanto instrutores treinam as forças armadas centro-africanas.

Os líderes dos três principais grupos armados, que ocupam grande parte do território da RCA e conduzem uma ofensiva no norte e oeste do país, anunciaram na sexta-feira à noite a sua fusão e criação de uma coligação.

Os três grupos ameaçaram atacar se detetarem que o Presidente está a organizar fraudes, como já o acusam, para conseguir um segundo mandato.

Segundo fontes humanitárias e da ONU, os grupos armados apoderaram-se de várias localidades situadas nos eixos que servem a capital e ameaçaram bloquear a cidade.

No sábado, o Governo centro-africano acusou o ex-Presidente François Bozizé de uma “tentativa de golpe de Estado que o Governo tem de denunciar neste período eleitoral”, disse o porta-voz, adiantando que “François Bozizé se encontrava nos arredores da cidade de Bossembele (a 150 quilómetros a noroeste da capital) com a clara intenção de marchar com os seus homens sobre a cidade de Bangui”.

O partido de François Bozizé negou, no domingo, qualquer tentativa de golpe.

No mesmo dia, o porta-voz da Missão das Nações Unidas na RCA (Minusca), Vladimir Monteiro, disse que os rebeldes foram bloqueados ou repelidos em várias localidades.

A França, a Rússia, os Estados Unidos, a União Europeia e o Banco Mundial pediram, no domingo, a François Bozizé e aos grupos armados que depusessem as armas.

Estes países e instituições parceiras da República Centro-Africana, membros do G5+, “exigem que Bozizé e os grupos armados aliados deponham imediatamente as armas, se abstenham de qualquer ação de desestabilização e respeitem a decisão do Tribunal Constitucional de 03 de dezembro de 2020”, que invalidou a candidatura do antigo chefe de Estado às presidenciais, afirmaram os signatários de um comunicado conjunto divulgado no domingo.

François Bozizé, que liderou o país entre 2003 e 2013 e que regressou ao país em dezembro de 2019, após quase sete anos de exílio, era apontado como o principal adversário ao atual chefe de Estado, eleito em 2016 e que procura um segundo mandato contra uma oposição dispersa.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube de François Bozizé por grupos armados e, desde então, tem sido palco de confrontos comunitários, que obrigaram quase um quarto dos 4,7 milhões de habitantes do país a abandonarem as suas casas.

O Governo centro-africano controla um quinto do território, sendo o resto dividido por mais de 15 milícias que procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Um acordo de paz foi assinado em Cartum, capital do Sudão, em fevereiro de 2019 pelo Governo e por 14 grupos armados, e um mês mais tarde as partes entenderam-se sobre um Governo inclusivo, no âmbito do processo de paz.

Na antecipação das eleições, a missão das Nações Unidas na RCA apontou que estas são “uma oportunidade para consolidar o processo democrático”.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017. A 7.ª Força Nacional Destacada, constituída por 180 militares, encontra-se no país e integra a missão da ONU.

/ BC