Se em grande parte da Europa a paz continua a prosperar, o mesmo não se pode dizer de outros locais. Guerras civis sem fim à vista, grupos terroristas que continuam a espalhar o caos ou uma gritante falta de liberdade fazem com que alguns países sejam considerados os mais perigosos do mundo.

Numa lista elaborada com recurso ao Índice de Paz Global (GPI na sigla em inglês) e à secretaria de Estado das Comunidades, apresentamos aqueles que são os países mais perigosos do mundo e os que Portugal desaconselha.

Guerra sem fim à vista

O GPI é feito com recurso a uma soma de vários indicadores, aos quais é atribuída uma pontuação. Quanto mais alta for a soma, mais perigoso é o país. Este relatório anual divide-se em três diferentes critérios, que têm, cada um, vários parâmetros. Os critérios são os seguintes: conflitos domésticos e internacionais, segurança da sociedade e militarização.

Dentro destes critérios podemos destacar alguns dos pontos em foco, como os seguintes:

  • número e duração de conflitos internos
  • número de mortes causadas por conflitos internos
  • relação com os países vizinhos
  • nível de criminalidade
  • instabilidade política
  • armamento nuclear
  • número de homicídios por 100 mil pessoas

De 163 países avaliados, o Afeganistão é o que tem a pior classificação, com 3.574 pontos. O país asiático foi o pior no critério da segurança da sociedade, além de ter sido o segundo pior avaliado nos conflitos domésticos e internacionais.

O Estado português desaconselha quaisquer viagens a este país. Além das débeis condições de segurança, a secretaria de Estado das Comunidades releva a crise de poliomielite existente. 

As condições de segurança são extremamente precárias. Os actos de terrorismo e as tentativas de homicídio e de rapto contra estrangeiros são frequentes", pode ler-se no site da secretaria de Estado das Comunidades.

Logo a seguir surge outro país asiático. A guerra civil que dura há oito anos na Síria não parece ter fim à vista, o que lhe confere um GPI de 3.566. O país é mesmo o pior classificado no critério de conflitos domésticos e internacionais.

Na região continua uma guerra de interesses, apoiada, de um lado pelos Estados Unidos, que estão com os rebeldes, enquanto a Rússia apoia o regime vigente, liderado por Bashar al-Assad.

A secretaria de Estado das Comunidades refere que "a Síria vive uma situação de guerra violenta", pelo que são desaconselháveis todas as deslocações ao país.

Os estrangeiros são vistos com desconfiança quer pelo regime, quer pelas várias facções da oposição. Qualquer gesto ou movimentação por parte de estrangeiros podem ser vistos como suspeitas", pode ler-se no portal do Governo.

Da Ásia para África, segue-se o Sudão do Sul. Desde que se tornou independente, em 2011, este estado mergulhou em constantes guerras civis e complicações relacionadas com a formação de governo. Com um GPI de 3.526, foi o segundo pior classificado na segurança da sociedade e o quarto nos conflitos domésticos e internacionais.

Embora tenha sido assinado um acordo de paz, os problemas no país não cessaram. Forças do governo e milícias rebeldes continuam em guerra. Segundo a Human Rights Watch, desde 2013 já morreram mais de quatro milhões de pessoas, numa guerra civil que parece não ter fim à vista. 

Todas as viagens ao Sudão do Sul são desaconselhadas pelo Estado português.

De volta à Península Arábica, conhecida pela constante tensão, surge o Iémen como o quarto país mais perigoso do mundo. O facto de ter uma forte influência da Al-Qaeda faz com que seja altamente desaconselhável visitar aquele país. Com um GPI de 3.412, é o terceiro pior classificado no critério de conflitos domésticos e internacionais.

Esta é uma das viagens que o Estado português desaconselha, fazendo menção aos raptos de turistas, que são frequentes.

Um pouco para norte, o Iraque segue-se como o país mais perigo do mundo. Com um GPI de 3.369, a guerra é uma realidade há vários anos (surge como quarto pior classifcado no critério de segurança da sociedade). O conflito é praticamente ininterrupto desde 1990, quando o Iraque, então comandado por Saddam Hussein, invadiu o Kuwait. Começava a Guerra do Golfo, com os Estados Unidos a invadirem a zona, durante a presidência de George Bush.

Inspirado pela vingança do 11 de setembro de 2001, George W. Bush seguiria as pisadas do pai e viria a ordenar uma invasão ao Iraque em 2003. Desde então que as tropas americanas estão no terreno, onde a paz teima em imperar.

Com a criação do autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, grande parte do território do país mergulhou no terrorismo.

O Estado português desaconselha todas as deslocações ao país, a menos que haja uma proteção especial das autoridades.

De regresso a África, fala-se de um país que vive uma rotina de guerra com quase 30 anos. Uma guerra civil está instalada na Somália desde 1991, e parece não ter fim à vista. Além da pirataria constante, a Human Rights Watch fala em "insegurança e sentimento de falta de proteção por parte do governo". O GPI da Somália é de 3.300.

A pirataria ataca sobretudo a marinha mercante, uma vez que a Somália se encontra numa rota importante, que vem desde a Índia e tem acesso privilegiado ao Mar Vermelho, que divide o Egito da Península Arábica.

Todas as deslocações ao país são desaconselhadas por Portugal.

Estes ataques que são indiscriminados podem visar locais muito frequentados, particularmente por estrangeiros, ou eventos com notoriedade, incluindo eventos públicos. Os hóteis também são alvos considerados pelos terroristas", refere a página da secretaria de Estado das Comunidades.

Com um GPI de 3.296 segue-se a República Centro-Africana, país que é o terceiro pior cotado relativamente ao critério de conflitos domésticos e internacionais.

Embora não refira um desaconselhamento na visita àquele país, o Ministério dos Negócios Estrangeiros lembra que as "condições de segurança são precárias", sobretudo fora da capital Bangui.

A presença de uma missão de paz da ONU no país não impede a escalada de violência que se tem sentido nos últimos anos, e que têm levado a milhares de mortes.

Quando em 2010 se iniciou a "Primavera Árabe" nos países do norte de África, a esperança instalou-se naquela zona. Um dos pontos chave desta revolução foi a morte do ditador Muammar al-Khadaffi, que liderou o país entre 1969 e 2011. Desde então que se instalou a confusão naquele país magrebino, e a guerra teima em não deixar a capital Tripoli.

O GPI do país é de 3.285, com o factor dos conflitos, sobretudo os internos, a ser o mais preocupante. O aumento da tensão na zona faz com que Portugal desaconselhe quaisquer viagens à Líbia.

A República Democrática do Congo é uma das regiões de África com mais riqueza natural. A densidade das florestas e a existência de diamantes no território tornam aquela zona particularmente atrativa. Apesar disso, o governo local continua a não conseguir alocar os recursos em prol do bem-estar dos cidadãos.

Além da persistência de conflitos, as autoridades mundiais continuam a chamar a atenção para a epidemia de ébola que se sente no país desde 2018.

O facto de haver muitas zonas com forças tribais dificulta a proliferação da paz. Essa é, precisamente, uma das preocupações do Governo, que desaconselha as deslocações à República Democrática do Congo.

Esta antiga colónia belga é atualmente o segundo maior país de África. O GPI deste país é de 3.218, para o qual contribui a falta de segurança na sociedade.

O décimo país mais perigoso do mundo, segundo a tabela do GPI, pode ser uma surpresa, até porque é uma grande atração para os turistas. A Rússia de Vladimir Putin reuniu 3.093 pontos no GPI, muito devido ao facto de ser o segundo país com pior pontuação no critério da militarização.

O conflito que se mantêm na zona da Crimeia, que foi anexada pela Rússia à Ucrânia em 2014, contribui para esta pontuação.

Outra das preocupações é a liberdade de expressão e de imprensa, num país que é governado por Vladimir Putin desde 2000.

Apesar da persistência do impasse, o Governo português não faz qualquer menção que desaconselhe a ida à Rússia.

A Coreia do Norte vive em regime ditatorial desde a sua independência, em 1945. Liderada, desde então, sempre pela mesma família, tem no poder o terceiro membro da família Kim. O GPI deste país é de 2.921, para o qual contribuem a militarização do regime e a falta de liberdade de expressão.

A secretaria de Estado das Comunidades refere apenas que se desaconselham todas as viagens.

Desde a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos que a relação entre os dois países tem oscilado. Começou por haver troca de acusações entre ambos, mas acabaram mesmo por se encontrar para debater um acordo que previa o fim de testes nucleares. No entanto, a Coreia do Norte continuou a fazer este tipo de ensaios.

O Mali é um caso um pouco diferente. Com um GPI de 2.710, e muito perto de ser considerado como um nível de paz "muito baixo", este país está um pouco acima dos acima referidos, sendo categorizado com um GPI "baixo".

O aumento de ataques terroristas e os conflitos entre tribos étnicas preocupa as organizações internacionais. França encontra-se no país africano desde 2013, para tentar conter um avanço terrorista.

A situação securitária no Mali inspira enorme preocupação", refere a página do Governo.

O Governo desaconselha todas as viagens ao Mali.

Portugal entre os melhores

O nosso país foi considerado um dos três com melhor GPI. Numa lista que é liderada pela Islândia, Portugal reuniu 1.274 pontos e subiu dois lugares na classificação. 

A manutenção de um clima de paz, um baixo nível de armamento e a manutenção da liberdade em toda a via fazem do nosso país um dos mais atrativos, o que também ajuda a explicar o recente boom turístico.

Os dois primeiros lugares mantêm-se inalterados. No segundo posto, a Nova Zelândia alcançou um GPI de 1.221 pontos, muito devido ao baixo nível de militarização, como refere o relatório.

Apesar da distinção, é inevitável recordar o atentado terrorista que aconteceu a 15 de março, em Christchurch. O ataque foi prepertrado em duas mesquitas e fez 51 vítimas.

Em primeiro lugar continua a pacífica Islândia, que tem apenas 1.072 pontos. Este país é mesmo o melhor classificado nos critérios de militarização e dos conflitos internos e externos.

O país que mais subiu na classificação deste relatório anual foi o Ruanda, que ficou no 79º lugar, 24 acima da anterior posição. O relatório refere que a posição deste país africano "melhorou em quatro dos últimos cinco anos".

As melhorias mais notadas estão relacionadas com o nível de militarização e com o decréscimo da taxa de crime na capital, Kigali.

O Ruanda passou a ter um GPI de 2.014 e está mesmo à frente de países como os Estados Unidos, o Brasil ou a África do Sul.

Em sentido inverso, o Líbano registou a pior descida, caindo 26 lugares, agora com um GPI de 2.800.

O crescente conflito naquela região, exacerbado por todas as guerras civis envolventes, fazem do Líbano um país muito mais perigoso do que há um ano atrás.

Uma nota ainda para o critério da militarização, que reúne três das maiores economias mundiais. Num top cinco liderado por Israel, Estados Unidos e França também estão em destaque neste ponto. Os outros dois países são a Rússia e a Coreia do Norte.

António Guimarães