O governo brasileiro revogou na terça-feira a nomeação do maestro Dante Mantovani, que associou o rock ao aborto e ao satanismo, para presidir à Fundação Nacional de Artes (Funarte), horas depois de ter sido nomeado.

A revogação foi publicada em Diário Oficial da União, algumas horas depois de o maestro ter sido nomeado para o cargo, sem, no entanto, ter sido apresentada uma justificação para a alteração.

A nomeação e a revogação foram assinadas pelo ministro da Casa Civil, general Walter Souza Braga Neto.

Maestro e mestre em Linguística, Mantovani ficou conhecido por ter declarado num vídeo, no canal da rede de partilha de conteúdos Youtube, que o "rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto" e que "a indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo".

O dirigente cultural que já tinha ocupado a presidência da Funarte, quando a Secretaria de Cultura do governo brasileiro era comandada pelo dramaturgo Roberto Alvim, demitido em janeiro depois de ter citado, em público, partes de um discurso do ministro nazi Joseph Goebbels. 

Com a demissão de Alvim, a atriz Regina Duarte assumiu a Secretaria de Cultura, em março passado, e exonerou Mantovani da Funarte.

De acordo com a imprensa local, o regresso de Mantovani ao comando da Funarte mostra a fragilidade da gestão da nova secretária de Cultura, que não tem o apoio de grupos de extrema-direita com grande influência junto do Governo brasileiro.

Contudo, na terça-feira à noite, o ministro do Turismo brasileiro, Marcelo Álvaro Antônio, disse à TV Globo que a saída de Mantovani se deveu a "questões internas".

A Regina Duarte falou que já tinha exonerado antes o Dante Mantovani. Então, não seria talvez o quadro inicial que ela gostaria de manter nesse momento. Então, o ato [da nomeação de Mantovani] ficou sem efeito, e ela continua o seu trabalho na frente da secretaria da Cultura", afirmou o ministro.

A Funarte é uma das fundações mais importantes de fomento à arte no Brasil, através da concessão de prémios e concursos, publicados em editais.

Desde que Bolsonaro tomou posse, em janeiro do ano passado, a comunidade artística brasileira tem reclamado de uma alegada "guerra contra o marxismo cultural" lançada pelo Presidente e apoiantes, que declaram ser contra tudo que não se encaixa nos "valores conservadores cristãos".

No final de 2019, a Secretaria de Cultura foi palco de uma grande polémica ao anunciar como novo presidente da Fundação Cultural Palmares, entidade pública de promoção da cultura afro-brasileira, Sérgio Nascimento de Camargo, um jornalista que nega a existência do racismo e defende um "movimento de negros da direita conservadora".

A nomeação foi contestada judicialmente e ficou suspensa por quase dois meses, mas uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou a posse de Camargo.

Além destas e outras nomeações polémicas para cargos na Secretaria de Cultura, o executivo brasileiro também rebaixou a pasta da cultura ao estatuto de secretaria, inicialmente vinculada ao Ministério da Cidadania e agora subordinada ao Ministério do Turismo.

/ RL