Há dois anos Sandra Parks foi premiada por um ensaio que escreveu sobre os disparos que atormentavam o seu dia a dia – e o de muitos – na sua cidade. Tinha 11 anos e uma consciência de adulta: “As crianças pequenas são vítimas da violência armada sem sentido. Eu sento-me e tento abstrair-me do que vejo e oiço todos os dias". Mas chegou sempre "à mesma conclusão": "estamos em estado de caos”. Agora, aos 13 anos, foi morta precisamente por balas perdidas, que lhe entraram casa adentro.

Estava no seu quarto, a ver televisão, na última segunda-feira à noite, em Milwaukee, no estado norte-americano de Wisconsin. Voltou a ouvir o som estridente das balas. Elas atravessaram o vidro, estilhaçaram-no. Abriu-se a janela para a morte.

A irmã de Sandra, Tatiana Ingram, contou à CNN WISN que a menina encarou a bala como se fosse um “soldado”. Chegou ao pé da mãe e ainda conseguiu dizer “Mamã, fui baleada”.

Dezenas de pessoas juntaram-se para uma vigília à frente da casa da adolescente, erguendo o ensaio que escreveu, com as suas reflexões certeiras sobre a violência.

Ela chegou a ser entrevistada na rádio pública de Wisconsin, no ano passado e explicou porque é que decidiu escrever sobre a violência armada.

Só ouvimos dizer que alguém morrer ou alguém levou um tiro. As pessoas não deixam de pensar se foi o filho ou a neta ou p neto que foi que acabou de ser morto”.

Porque podia ser, porque pode ser. Foi também com ela. O Ministério Público já acusou dois homens do tiroteio que matou Sandra Parks. Um deles escondeu-se num armário depois do que se passou, mas foi apanhado.

O presidente da câmara de Milwaukee, Tom Barrett, descreveu o que se passou como a prova da “insanidade” da violência armada que se vive na cidade e em todo o país.

Tragicamente, a morte dela foi causada por alguém que decidiu que atirar sobre a sua casa”.

Ainda não se percebeu se a casa e/ou se a menina eram mesmo um alvo a abater por quem protagonizou o tiroteio.

Sandra Parks já tinha deixado uma marca na cidade e na sua escola Keefe Avenue School, onde frequentava o 8º ano. Ativista desde tenra idade, o terceiro lugar que conseguiu com o seu texto foi muito mais do que isso. Deu a todos uma lição de vida e de cidadania.

A nossa primeira verdade é que devemos preocupar-nos uns com os outros. Precisamos de ter empatia e tentar calçar os sapatos uns dos outros. Conseguimos superar quando nos amamos e quando amamos as pessoas à nossa volta. Assim, tornamo-nos irmãos guardiões".

 Não teve quem a protegesse da fúria de uma bala. Não escapou à crueldade do mundo dos adultos.