Uma cirurgiã de 88 anos que trabalha num hospital em São Paulo, no Brasil, foi infetada com Covid-19 e esteve internada e sedada em Unidade de Cuidados Intensivos ao longo de um mês meio. Angelita Habr-Gama é uma referência internacional ao nível da saúde, mas chegou a duvidar da própria recuperação. 

Numa entrevista à BBC News Brasil, contou que o seu quadro clínico se agravou a partir do dia 18 de março. Os primeiros sinais foram registados nos pulmões. Começou por ter sérias dificuldades em respirar pela via normal e teve de ser intubada. Apesar de não ter outras patologias associadas, desde o início que foi considerada como uma doente de risco por causa da idade. 

Eu pensava que não ia resistir. O quadro clínico era muito grave", admitiu. 

Na altura, 18 de março, tinham sido confirmadas apenas 4 mortes e 428 casos de infeção pelo novo coronavírus no Brasil. No dia em que teve alta hospitalar, 10 de maio, estavam contabilizadas 11 mil mortes e mais de 161 mil casos. Hoje, de acordo com o último balanço feito ontem à noite, o Brasil conta com 58.314 óbitos e 1.368.195 casos confirmados.

Não acompanhou o crescimento colossal dos números no Brasil, nem as polémicas envolta disso, mas não deixa de manter uma visão otimista sobre este cenário pandémico. Não seria de esperar outra coisa, uma vez que Angelita é a prova de que a infeção por Covid-19 nem sempre é sinónimo de morte. 

É um vírus muito agressivo. Propaga-se com muita facilidade e como ainda não se conhece muito sobre as suas características, torna-se mais difícil de tratar. Mas temos de ser otimistas. É grave, mas nem sempre é fatal".

Durante o mês de fevereiro, a cirurgiã e o marido, Joaquim José Gama, também ele médico de profissão, estiveram a viajar pela Europa. Nessa mesma altura, participaram num congresso internacional sobre medicina em Jerusalém, Israel, tendo regressado ao Brasil a 28 de fevereiro. Pouco tempo depois, 8 de março, organizou uma festa com centenas de pessoas para celebrar o lançamento da sua biografia.

Passado uns dias, apresentou os primeiros sintomas: febre e tosse forte. Realizou uma série de exames e confirmou-se que estava infetada com Covid-19. O marido também estava contaminado, mas apresentou uma sintomatologia ligeira. 

Internada no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde trabalha há 60 anos, diz que só se lembra dos dois primeiros dias.

Apesar de ter recuperado e ter tido a sorte de ser acompanhada por uma boa e vasta equipa de profissionais de saúde, Angelita reconhece que essa não é a realidade da maioria dos brasileiros. Há mesmo quem morra à espera de uma vaga nas Unidades de Cuidados Intensivos, refletiu.

A primeira cirurgia, depois de 50 dias internada, estava marcada para o dia 4 de junho e desde então já realizou cerca de uma dezena: "Foi maravilhoso poder voltar a trabalhar".

Cláudia Évora