Um dos maiores escândalos médicos em França vai começou a ser julgado esta segunda-feira. Em causa está um comprimido para a perda de peso que terá provocado efeitos secundários fatais a centenas de pessoas.

A farmacêutica privada Servier Laboratories, a Agence Nationale du Medicament et des Produits de Sante (a Agência Nacional de Segurança de Medicamentos e Produtos de Saúde) e 21 outros arguidos enfrentam mais de quatro mil queixas sobre a farmacêutica ter deliberadamente enganado pacientes durante décadas.

As acusações variam de fraude a homicídio involuntário que, segundo a lei francesa, pode resultar em multas e penas de prisão.

O julgamento vai examinar os casos de 91 vítimas (quatro delas mortais), cujos advogados pensam existir uma ligação entre os efeitos secundários do comprimido e os problemas de saúde que desenvolveram.

O comprimido Mediator erauma anfetamina derivada, comercializada a diabéticos em excesso de peso, mas foi várias vezes prescrita a mulheres, desportistas, saudáveis e magras, pelos seus médicos como um silenciador de apetite, com o objetivo de perder peso. 

Entre 1976 e 2009, cerca de 5 milhões de pessoas tomaram o comprimido, apesar de existirem suspeitas do fármaco causar falhas cardíacas e pulmonares. O Ministério da Saúde francês acredita que pelo menos 500 pessoas morreram de complicações cardíacas, depois de estarem expostas à composição química do comprimido. No entanto, estimativas de médicos colocam o número de vítimas nos dois mil. Outros milhares ainda vivem com problemas de saúde debilitantes. 

Algumas mulheres que começaram a tomar o fármaco quando estavam bem de saúde, descobriram depois que não conseguiam subir um lance de escadas e que sofriam de problemas cardiovasculares permanentes. A farmacêutica Servier pagou cerca de 132 milhões de euros em indemnizações.

As vítimas submeteram cerca de 10.500 pedidos de indemnização e muitas concordaram em receber pagamentos para não irem a tribunal.

A farmacêutica “Servier sabia que estava a vender veneno”, disse Joy Ercole, uma mulher de 71 anos que tomou o medicamento durante seis meses há dez anos, à Agence France-Press. Joy afirmou sofrer danos cardiovasculares como resultado da ingestão do comprimido.

 Os desafortunados, como eu, estão condenados a uma morte lenta. A minha vida foi arruinada.”

Esta segumda-feira, o Tribunal ouviu uma das vítimas. Uma mulher de 73 anos, que, há 10 anos, tomou o medicamento durante dois anos. 

“Em 2007, o meu médico prescreveu-me o Mediator porque me disse que tinha um pouco de diabetes. Tomei o medicamento durante dois anos e, a 24 de Janeiro de 2009, já não respirava, o meu coração começou a ter problemas, tive de ser operada. O cirurgião disse-me que tinha 50% de chances de sobreviver. Já não posso fazer nada, já não vivo, estou sempre cansada. Definitivamente, roubaram-me a vida”, testemunhou Michelle, 73 anos, durante a primeira sessão do julgamento.

 Finalmente vemos o fim deste escândalo intolerável”, afirmou Iréne Frachon, uma das pulmonologistas que ajudou a desmascarar os efeitos secundários do comprimido, em 2007: “Esta espécie de medicamento é, na verdade, um veneno”.

Segundo o advogado da farmacêutica, Francois de Castro, a empresa “não identificou os riscos (do comprimido) antes de 2009”.

Em Portugal, o fármaco foi retirado do mercado em 2009, devido a “uma série de casos de reacções adversas graves ocorridas em França que associam o benfluorex ao aparecimento de valvulopatias cardíacas”, declarou o Infarmed numa nota publicada a 30 de novembro de 2009.