Imaginem a cidade norte-americana de Nova Iorque aniquilada por ataques aéreos. Ou Londres, a capital britânica, varrida do mapa. A menos que algo mude em breve, esse é o destino que aguarda Alepo, o grande centro económico e cultural da Síria. Qualquer pessoa que queira ver os estragos feitos no país desde que a guerra civil começou, há cinco anos, só precisa de olhar para fotografias de Alepo.

Localizada no Norte da Síria, a cidade já foi outrora o centro económico do país, mas depois de anos de ataques aéreos e bombardeamentos, blocos de edifícios foram destruídos e as ruas cobertas de entulho. Alepo cobre uma área quase duas vezes o tamanho de Paris, e o controlo da cidade é dividido entre o regime do Presidente Bashar al-Assad, rebeldes, curdos, e o Estado islâmico. Alepo é uma das maiores cidades do país e uma das principais frentes de batalha da guerra civil. 

Acredita-se que mais de um milhão de pessoas ainda vive em Alepo, e na área da cidade controlada pelos rebeldes, a Sociedade Médica Sírio-Americana diz que há apenas um médico para cada 10 mil pessoas, com alimentos e medicamentos escassos.

O enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, faz um alerta terrível: "Entre agora e dezembro, se não pudermos encontrar uma solução, Alepo desaparecerá”.

A estação de televisão norte-americana CNN falou recentemente com moradores que se recusam a fugir da cidade ou não têm os recursos para fazê-lo. Mohammed, pai de 29 anos de uma criança pequena, conta que passa os dias à procura de comida, e quando a encontra, o preço é 50 vezes superior ao que era há seis anos. O homem, que a CNN não identifica por razões de segurança, vive na área controlada pelos rebeldes e diz que que gostava de ter deixado a cidade antes do cerco do Governo.

"O regime foi bombardeando a cidade ao longo dos últimos três anos", afirma. "É muito, muito difícil viver aqui. Os novos mísseis são horríveis. Eu não suporto viver mais aqui. É um pesadelo."

Mohammed quer ir embora, mas não tem os 8.000 dólares (7.357 euros) necessários para chegar à Turquia com a mulher, o filho e a mãe.

Uma mulher de 35 anos, com dois filhos, chamada Salam e que vive na área da cidade controlada pelo Governo, tem uma história diferente da de Mohammed. Dá aulas de Francês na escola onde o filho anda, e não quer deixar a própria casa para trás. Salam diz que receia viver num campo de refugiados e revela que apenas tem muito cuidado quando anda pelas ruas da cidade.

"Não é seguro", diz a mulher que a CNN também não identifica por razões de segurança. "Estamos a ser bombardeados regularmente pela oposição com morteiros.”

"Quando eu levo o meu filho para a escola, tentamos caminhar sob as varandas e tentar ficar longe de áreas abertas. Não andamos em ruas abertas. E tentamos reduzir o tempo que passamos fora da nossa casa, tanto quanto possível”, acrescenta.

Como Mohammed, Salam nasceu em Alepo. Mas ao contrário de Mohammed, ela realmente quer ficar. Salam tem mais sorte do que muitos dos moradores que vivem do outro lado de Alepo, visto que ainda tem um emprego e um local de trabalho.

"Se a situação continuar com este nível de segurança, eu acho que vou ficar, porque não quero viver numa tenda. Além disso, não quero ser muito pobre e não ser capaz de pagar o aluguer e as contas”, continua. "Nós também não queremos perder a casa. Trabalhámos durante anos para a comprar”, remata.

Já Mohammed só pensa em partir, como fizeram os milhões de refugiados que conseguiram escapar. Mohammed diz que está preocupado com o filho, que nunca viveu um dia sem guerra.

"Eu quero que ele saia deste lugar o mais rapidamente possível."

Contra todas as expetativas, a Síria decidiu no início deste mês promover o turismo em Alepo. Para atrair turistas, um vídeo promocional mostra imagens de uma cidade calma, verde e repleta de monumentos e edifícios para visitar. Uma outra visão de Alepo, marcada pela guerra civil.

Sem bombas, nem bairros destruídos pela guerra, são as imagens que o Governo de Bashar al-Assad apresenta em vídeo com a música da série da HBO, “Game of Thrones”.