"Uma agressão". É assim que Vladimir Putin classifica o ataque com 59 mísseis, levado a cabo pelos Estados Unidos, contra a base aérea de Shayrat, na Síria. Desde que. há seis anos, começou a guerra civil no país, este é o primeiro ataque direto ao regime de Bashar al-Assad e é justificado, pela Casa Branca, com o bombardeamento com gás tóxico numa cidade, na província de Idlib, que vitimou dezenas de civis, incluindo crianças.

A Rússia não tem dúvidas que o ataque foi "uma agressão" com um “pretexto inventado”, e disse avisou que a ação prejudica as relações entre os dois países. Vladimir Putin considera mesmo "que os ataques norte-americanos na Síria são uma agressão contra um Estado soberano e uma violação do direito internacional, já que aconteceram sob um pretexto inventado”, disse à imprensa o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Entretanto, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, citado pela Associated Press, fez saber vai suspender o acordo com os Estados Unidos para prevenir incidentes aéreos sobre a Síria. Esta é, aparentemente, a primeira consequência. Recorde-se que, depois de a Rússia ter lançado uma campanha aérea na Síria em setembro de 2015, os dois países trocaram informações sobre os seus voos para evitar incidentes no espaço aéreo.

Mas o Kremlin não se ficou por aqui. Logo em seguida pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"Nós apelamos ao Conselho de Segurança das Nações Unidas uma reunião de emergência para discutir a situação", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo através de comunicado.

O chefe da diplomacia russa acrescenta que os ataques dos Estados Unidos contra a Síria constituem "uma ameaça à segurança internacional".

Washington tornou-se "num aliado de terroristas"

Por seu lado, o governo liderado por Assad, fez saber através de um porta-voz do comando do exército da Síria, que o ataque "faz dos Estados Unidos um aliado" do grupo extremista Estado Islâmico (EI) e da Frente Al-Nosra, nome que usava a atual Frente de Conquista do Levante até que se desligou da rede terrorista Al-Qaida em julho passado.

O porta-voz das forças armadas russas também já veio garantir que a defesa anti-aérea das forças armadas sírias será “reforçada”.

Serão tomadas várias medidas o mais depressa possível para proteger as infraestruturas sírias mais sensíveis e melhorar a eficácia do sistema de defesa antiaérea das forças armadas sírias”, declarou à comunicação social o porta-voz das Forças Armadas russas, Igor Konachenkov, citado pela agência France Press.

Ataque dos EUA foi "imprudente" e "irresponsável"

“Irresponsável” e “imprudente”, foi assim que o presidente sírio, Bashar al-Assad, classificou em comunicado, o ataque norte-americano contra uma base aérea síria em Homs, que fez pelo menos nove mortos.

A ação militar com mísseis reflete a continuação de uma política norte-americana – independentemente da administração que ocupa a Casa Branca – e que se baseia na “subjugação das pessoas”.

No mesmo documento, Assad acrescenta ainda que o ataque desta madrugada não se baseia em factos verdadeiros.

Além da Rússia, também o Irão veio condenar de forma "vigorosa" os bombardeamentos desta madrugada, contra a base aérea síria de Shayrat, disse um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Teerão, Baharam Ghassem.

Nós condenamos qualquer ação unilateral e o ataque contra a base aérea de Shayrat sob o pretexto de um suposto ataque químico, terça-feira, em Khan Cheikhoun”, disse o porta-voz citado pela agência Fars.

"Esperamos que ataques continuem"

O primeiro aplauso ao ataque norte-americano veio, como seria de esperar, da oposição síria.

"A coligação da oposição saúda o ataque e pede a Washington que neutralize a capacidade [do Presidente síro, Bashar al-] Assad de realizar bombardeamentos", indicou à agência noticiosa France Presse (AFP) Ahmad Ramadan. "Esperamos que os ataques continuem", acrescentou.

Pouco tempo depois era o governo britânico, através de um porta-voz de Downing Street, a "apoiar" o ataque ordenado por Donald Trump

Estes ataques são “uma resposta apropriada ao ataque bárbaro com armas químicas realizado pelo regime sírio”, afirmou o porta-voz do Governo de Theresa May.

Mas apesar do Reino Unido “estar determinado em evitar um novo ataque” do regime de Damasco, nem sequer equaciona a possibilidade de uma intervenção militar no terreno.

A China, sem criticar ou apoiar a ação norte-americana de forma clara, veio alertar para a deterioração da situação na Síria e pede que isso seja evitado. No entanto, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros deixou claro que a República Popular da China se opõe ao uso de armas químicas.

Nós opomo-nos ao uso de armas químicas, por qualquer país, organização, ou indivíduo, seja qual forem as circunstâncias e objetivos”, acrescentou Hua Chunying.

Entretanto, a Turquia considerou a ação dos Estados Unidos "extremamente positiva". O ministro dos Negócios Estrangeiros turco garantiu ainda que "passos que se tomem para garantir que crimes similares não passam sem castigo, e que os responsáveis prestam contas, terão todo o apoio da Turquia", escreve a Reuters.

"Este desenvolvimento é da total responsabilidade de Assad"

Também a França e a Alemanha já se pronunciaram sobre a decisão de Donald Trump. Num comunicado conjunto, o presidente francês, François Hollande, explicou que falou com a chanceler alemã, Angela Merkel, e que ambos os países vão prosseguir esforços para se encontrar uma solução pacífica para a Síria, junto das Nações Unidas.

O comunicado acrescentava ainda que para os dois líderes que "este desenvolvimento é da total responsabilidade de Assad".

Hollande assume mesmo que, desde 2013, quando se registou o primeiro ataque de grande escala com armas químicas, que pediu uma ação como esta levada a cabo, agora, pelos Estados Unidos.

Angelino Alfano, ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, também veio defender o apoio do seu país ao bombardeamento com mísseis na Síria. Considerou mesmo que foi "uma resposta adequada e um sinal para os riscos do uso futuro de armas químicas".

"A Itália compreende as razões que levaram à ação militar por parte dos Estados Unidos", acrescentou Angelino Alfano.

Logo em seguida, foi a vez do primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, assumir uma posição mais conciliadora e global, falando também em nome da França e da Alemanha. O conflito na Síria precisa de ser resolvido através de negociações que envolvam o atual regime, a oposição, a Rússia e as Nações Unidas.

Acrescentou ainda, em declarações aos jornalistas, que "um ataque limitado" não deve ser visto como o início de um processo de escalada militar.      

"Determinação necessária contra os ataques químicos"

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, veio também defender que o ataque dos Estados Unidos “ilustra uma determinação necessária contra os ataques químicos bárbaros”.

A União Europeia trabalhará com os Estados Unidos para pôr fim à brutalidade na Síria”, acrescentou Tusk, numa curta declaração na rede social Twitter.

Já o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, considerou que há uma "clara distinção" entre ataques aéreos que visam alvos militares e o uso de armas químicas sobre civis.

"Há uma clara distinção entre ataques aéreos sobre alvos militares e o uso de armas químicas contra civis", disse Juncker, num comunicado divulgado, em Bruxelas.

O líder do executivo comunitário reiterou ainda que "tem que haver uma resposta ao uso repetido de armas químicas", sublinhando, no entanto, que "só uma transição política" pode resultar numa paz duradoura na Síria.

“Uma resposta medida e proporcionada”

A ação dos Estados Unidos  foi "uma resposta medida e proporcionada” à utilização pelas forças armadas sírias de armas químicas contra a população civil do país, disse o governo de Espanha.

O Executivo de Mariano Rajoy acrescentou, através de um comunicado, citado pela agência espanhola Efe, que a operação dos Estados Unidos “é uma ação limitada no seu objetivo e meios” e sublinhou que se tratou de um ataque contra uma base militar, “não contra objetivos civis”.

Madrid fez ainda saber que mantém uma “sólida lealdade” em relação aos seus aliados e é defensora de uma “ação internacional concertada”, pelo que lamenta que o bloqueio do Conselho de Segurança das Nações Unidas em relação ao conflito da Síria não a tenha permitido.

Uso de armas químicas não pode ser ignorado

"O regime sírio tem a responsabilidade total" pelo ataque químico de terça-feira e considerou que "qualquer uso de armas químicas é inaceitável e não pode ser ignorado", defendeu o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.

"O regime sírio tem a total responsabilidade por este desenvolvimento; a Síria tem consistentemente condenado o contínuo uso de armas químicas pela Síria, numa clara violação das normas e acordos internacionais", lê-se num comunicado hoje divulgado, que dá ainda conta de que "qualquer uso de armas químicas é inaceitável, não pode ser ignorado, e os responsáveis têm de ser responsbilizados".

Leia também:

Portugal compreende ataque dos EUA mas defende posição da ONU e UE

Pentágono avisou Rússia que ia atacar base síria