Um homossexual sul-africano cancelou a sua visita ao Zimbabué, no âmbito da reabertura de um restaurante gourmet, devido a queixas de um grupo de igrejas conservadoras e de membros do partido no poder.

O cancelamento da visita de Somizi Mhlongo deu destaque à discriminação que os membros da comunidade LGBTI (lésbicas, 'gays', bissexuais, transgénero e intersexuais) enfrentam diariamente no Zimbabué, onde a homofobia está em alta, explicou um grupo ativista. 

Membros da juventude do partido no poder, Zanu-PF, e do Conselho Cristão Apostólico do Zimbabué ameaçaram bloquear a aparição de Mhlongo.

Os proprietários do restaurante não comentaram o assunto.

Mhlongo, que organiza eventos de restaurantes gourmet na África do Sul e faz parte do júri do programa televisivo Ídolos da África do Sul, anunciou que não iria viajar para o Zimbabué.

"A verdade é que há pessoas no Zimbabué que não querem que eu vá com base na minha sexualidade, [eles] deixaram isso bem claro", explicou Mhlongo através da rede social Instagram

O Zimbabué tem um forte historial de discriminação e assédio contra pessoas LGBTI, e o antigo presidente Robert Mugabe chegou a afirmar que eram piores "que cães e porcos" e que não tinham direitos legais. 

O Presidente Emmerson Mnangagwa pronuncia-se menos sobre o tema, mas a hostilidade de alguns setores da sociedade mantém-se.

A contestação face a Mhlongo "não é um incidente isolado", disse o diretor do GALZ (‘Gays’ e Lésbicas do Zimbabué)​​​​​​, um grupo de direitos LGBTI, Chester Samba.

A discriminação "atua de muitas maneiras", disse à agência de notícias Associated Press.

Por vezes, quando pessoas LGBTI denunciam crimes como roubo e violência contra si, "a polícia prende-as e não ao perpetrador, muitas vezes na esperança de extraírem dinheiro às vítimas explorando o seu medo de exposição", explicou Samba.

Membros da comunidade LGBTI do Zimbabué também enfrentaram discriminações ao tentarem ser vacinados contra a covid-19, declarou.

O GALZ tem trabalhado para "apoiar a campanha de vacinação através de parcerias com prestadores de serviços de saúde para fornecer serviços em instalações” onde as comunidades se sintam confortáveis em aceder “sem assédio", concluiu.

O debate sobre o assunto tem sido intenso nas redes sociais do Zimbabué. Algumas pessoas acusaram os grupos anti-LGBTI de hipocrisia ao associarem-se abertamente a grupos religiosos que promovem casamentos de crianças.

/ BCE