Depois de Joe Biden ter afirmado que a presença militar norte-americana poderia manter-se no Afeganistão para além do prazo fixado, 31 de agosto, os talibãs decidiram, agora, deixar um aviso. 

Suhail Shaheen, porta-voz do grupo extremista islâmico, deixou claro, numa entrevista à Sky News, que os talibãs não estão disponíveis para negociar um eventual prolongamento da permanências das tropas dos Estados Unidos no Afeganistão, até porque "não é necessário". 

É uma linha vermelha. O presidente Joe Biden anunciou que a 31 de agosto ele retiraria todas as tropas norte-americanas. Portanto, se ele prolongar esse prazo, significa que está a prolongar uma ocupação que já não é necessária", afirmou. 

 

Se os Estados Unidos ou o Reino Unido quiserem mais tempo para continuar com a evacuação, a resposta é não. Ou haverá consequências", acrescentou. 

O talibã explicou que essa decisão iria criar um ambiente de "desconfiança", que acabaria por resultar numa "reação". 

Afegãos estão a fugir não por medo, mas por questões económicas

Já passou quase uma semana desde que o talibãs conquistaram Cabul, a 17 de agosto, mas a desordem e o desespero no aeroporto mantêm-se. Esta segunda-feira, um guarda foi morto e três ficaram feridos na sequência de um tiroteio que levou à intervenção das forças alemãs e norte-americana.

Questionado sobre as pessoas que morreram ao tentar agarrar-se a qualquer parte dos aviões para fugir do país, Suhail Shaheen disse que não se trata de medo, mas sim de uma questão económica.

Garanto-vos que não se trata de preocupação ou medo. Eles querem viver em países ocidentais e isso é uma espécie de migração económica, porque o Afeganistão é um país pobre e 70% das pessoas vivem abaixo do limiar de pobreza, por isso é que toda a gente quer ir para os países ocidentais, para terem uma vida próspera. Não tem nada a ver com medo."

Uma versão que contradiz os relatos que se têm ouvido por parte daqueles que já conseguiram fugir e daqueles que tentam, a todo o custo, entrar no aeroporto de Cabul. 

Sobre as notícias que davam conta de que havia talibãs a bater de porta em porta à procura de funcionários do antigo governo e de colaboradores das forças da NATO, o porta-voz do grupo disse que se tratava de "notícias falsas". 

"As mulheres devem ter os mesmos direitos que nos outros países, mas com o hijab" 

Desde a chegada dos talibãs, que as mulheres e meninas passaram a viver num clima de medo, pavor e insegurança. Numa tentativa de discurso tranquilizador, Suhail Shaheen disse que as mulheres "não vão perder nada"

Elas não vão perder nada. Só se não usarem o hijab... As mulheres devem ter os mesmos direitos que nos outros países, mas com o hijab", explicou. 

 

Neste momento, as professoras vão retomar o seu trabalho. Não perderam nada. As jornalistas retomaram o seu trabalho. Não perderam nada". 

O Reino Unido já retirou do Afeganistão 5.725 pessoas desde 13 de agosto, incluindo 3.100 afegãos, indicou esta segunda-feira o Ministério da Defesa.

Boris Johnson deverá defender junto dos Estados Unidos uma extensão das operações de retirada em Cabul, durante a cimeira virtual do G7 dedicada ao Afeganistão na terça-feira, disse o secretário de Estado das Forças Armadas britânico, James Heappey, à Sky News.

"Haverá uma conversa com os talibãs. Os talibãs terão a escolha entre procurar colaborar com a comunidade internacional e mostrar que desejam fazer parte do sistema internacional" ou "dizer que não há oportunidade de estender" a presença norte-americana, acrescentou.

Os talibãs conquistaram Cabul, em 17 de agosto, culminando uma ofensiva iniciada em maio, quando começou a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO.

As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista (1996-2001), que acolhia no território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001.

A tomada da capital levou milhares de pessoas ao aeroporto de Cabul para tentar fugir do Afeganistão, no fim de uma presença militar estrangeira de 20 anos dos Estados Unidos e dos aliados na NATO, incluindo Portugal.

Face à brutalidade e interpretação radical do Islão que marcou o anterior regime, os talibãs têm assegurado aos afegãos que a “vida, propriedade e honra” vão ser respeitadas e que as mulheres poderão estudar e trabalhar.

Cláudia Évora