T-shirts solidárias, que anunciam “Girl power” (poder das raparigas), para ajudar crianças pobres em África foram produzidas numa fábrica no Bangladesh que é acusada de explorar os seus trabalhadores. A denúncia é feita num artigo do jornal The Guardian, publicado esta sexta-feira.

São vendidas online no site “F=”, que proclama “inspirar e empoderar raparigas em todo mundo”. Custam 28 libras (cerca de 32 euros) e 10 (cerca de 11 euros) são doados à organização Worldreader, que fornece livros digitais a crianças pobres em África. 

As t-shirts foram promovidas por várias figuras públicas no Reino Unido como a apresentadora de televisão Holly Willoughby e a Spice Girl Emma Bunton.

No site onde a roupa é vendida lê-se que as peças são produzidas numa fábrica certificada pela Fair Wear Foundation, uma organização que trabalha para melhorar as condições no setor da indústria têxtil.

Mas o The Guardian apurou que foram produzidas numa fábrica no Bangladesh, a Dirt Composite Textiles, onde os trabalhadores, a grande maioria mulheres, ganham apenas cerca de 45 cêntimos à hora, são exploradas, fazendo muitas horas a mais, e ameaçadas. Segundo o jornal britânico, houve mesmo o caso de uma funcionária espancada e ameaçada de morte.

Esta é também a fábrica que despediu mais de 100 funcionários que protestaram conta os salários muito baixos, em janeiro.

Contactada pelo The Guardian, o site "F=" informou que deixou de vender as t-shirts, passando a aceitar doações em dinheiro, “até que a situação esteja resolvida”.

A denúncia surge depois de no mês passado uma outra investigação do The Guardian ter revelado que as t-shirts usadas pelas Spice Girls para angariar dinheiro para a organização Comic Relief também foram produzidas numa fábrica que pagava às suas trabalhadoras cerca de 40 cêntimos à hora e que estas chegavam a trabalhar mais de 16 horas por dia,

Atualmente, o salário mínimo do setor têxtil no Bangladesh é o equivalente a cerca de 80 euros por mês.

Nas últimas semanas, estima-se que cerca de 7.500 funcionários, a grande maioria mulheres, foram despedidos em 27 fábricas do país, por causa dos protestos contra os baixos salários.

A diretora executiva do Centro de Solidariedade para os Trabalhadores do Bangladesh, Kalpona Akter, afirmou ao The Guardian que estes despedimentos mostram “a falta de liberdade de expressão dos funcionários”, cujas vozes “têm sido suprimidas”.

Os trabalhadores que foram despedidos conhecem a lei e os seus direitos, Em muitos casos, eram dirigentes sindicais nas suas fábricas. Estes trabalhadores foram intencionalmente escolhidos para que não restem vozes de luta na fábricas”, sublinhou.