O Azerbaijão reivindicou ter conquistado este domingo seis localidades controladas pela Arménia durante os confrontos na linha da frente da região separatista de Nagorno-Karabakh, informação desmentida pelas autoridades arménias.

Libertámos seis localidades, cinco no distrito de Fizlouli, e uma no de Jebrail”, disse à agência noticiosa France-Presse (AFP) um porta-voz do Ministério da Defesa azeri.

No entanto, segundo a agência de notícias russa Interfax, a Arménia desmentiu as reivindicações azeris.

As declarações do Ministério da Defesa do Azerbaijão sobre a conquista de seis localidades não correspondem à realidade. Essa informação é uma provocação”, indicou um porta-voz do Ministério da Defesa da Arménia.

Segundo o Ministério da Defesa de Nagorno-Karabakh, citado pela Interfax, o exército azeri perdeu quatro helicópteros, 15 drones ofensivos, 10 viaturas blindadas de transporte, bem como várias pessoas.

Erevan e Baku acusam-se mutuamente de terem desencadeado de madrugada violentos combates pelo controlo de Nagorno-Karabakh, região separatista no Azerbaijão sob tutela arménia desde o início dos anos 1990.

Nenhuma das partes em conflito divulgou um balanço sobre vítimas mortais, confirmando apenas a existência de óbitos de militares e de civis.

Numa declaração publicada na rede social Twitter, o conselheiro do presidente do Azerbaijão, Hikmet Hajiyev, sublinha que o país “condena veementemente o novo ato de agressão da Arménia”.

Acusando as forças armadas da Arménia de terem “violado o cessar-fogo” entre os dois países, Hikmet Hajiyev fala num “bombardeamento [que afetou] áreas densamente povoadas por civis”.

Há relatos de mortos e de feridos entre os civis e os miliares”, adianta o responsável, atribuindo “a responsabilidade” ao bloco arménio, por ter “deliberadamente atacado áreas residenciais”.

Já o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinian, fez através da sua conta no Facebook um apelo à “mobilização militar geral”, exortando “o pessoal ligado às forças armadas a apresentar-se nas suas comissões militares territoriais”.

Horas antes, noutra rede social, no Twitter, Nikol Pashinian denunciou a ofensiva do Azerbaijão “com ataques aéreos e de mísseis”.

Anunciando o abate de “dois helicópteros e de três ‘drones’, destruindo três tanques” do Azerbaijão, Nikol Pashinian assegurou que o exército arménio tudo fará para proteger “a pátria da invasão”.

O primeiro-ministro da Arménia afirmou que o Azerbaijão “declarou a guerra” ao povo arménio após novos confrontos mortíferos na região separatista de Nagorno-Karabakh, apoiada por Erevan, e pediu ajuda internacional.

O regime autoritário [azeri] declarou novamente a guerra ao povo arménio”, afirmou Pashinian, num discurso transmitido pela televisão estatal arménia.

Na ocasião, Pashinian considerou que Baku e Erevan estão “à beira de uma guerra de envergadura”, que terá “consequências imprevisíveis” e que poderá estender-se para além do Cáucaso.

O primeiro-ministro arménio pediu também à comunidade internacional que intervenha no conflito e que previna uma escalada de hostilidades na região.

Há vítimas mortais e feridos também entre a população civil. Ao utilizar armamento pesado, o inimigo ataca as posições do Exército perto de Artaj [nome arménio de Nagorno-Karabakh) em todas as direções”, referiu Pashinian.

Na sua intervenção, de sete minutos, o primeiro-ministro arménio disse que o país está “pronto” para um conflito, indicando “ser claro” que o ódio propagado contra os arménios no Azerbaijão “não podia dar outro resultado que não a guerra”.

O chefe do executivo de Erevan explicou ter decretado a lei marcial e a mobilização geral porque o Azerbaijão “pode começar com ações militares em direção à fronteira” com a Arménia e “recorrer a provocações para desestabilizar a situação na região”.

Nesse sentido, apelou ao Grupo de Minsk (Estados Unidos, França e Rússia) da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para mediar o conflito em Nagorno-Karabakh e também a “toda a comunidade internacional” para que “leve a sério” a situação.

Pashinian pediu ainda à comunidade internacional que use a sua influência para desencorajar a Turquia, que manifestou “total apoio” ao Azerbaijão, de interferir no conflito.

Apesar de o conflito ter terminado em 1994 e de ter sido sucedido de um cessar-fogo, as tensões na região separatista de Nagorno-Karabakh permaneceram ao longo dos anos, tendo subido de tom, com as partes a trocarem acusações sobre quem iniciou as hostilidades.

Nagorno-Karabakh é um enclave etnicamente arménio dentro do Azerbaijão, que tem estado fora do domínio deste último país desde o fim da guerra em 1994.

Ambos os lados têm uma forte presença militar ao longo de uma zona desmilitarizada que separa a região do resto do Azerbaijão.

O conflito Arménio-Azerbaijão data dos tempos soviéticos, quando em finais dos anos 80 a população do território do Azerbaijão de Nagorno-Karabakh, povoado maioritariamente por arménios, pediu para este ser incorporado na vizinha Arménia.

Foi este o mote para a guerra, que durou vários anos e casou cerca de 25 mil mortos.

No final, as forças arménias assumiram o controlo de Karabakh.

O Azerbaijão defende que a solução do conflito com a Arménia envolve necessariamente a libertação dos territórios ocupados, uma exigência que tem sido apoiada por várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A Arménia, por seu lado, apoia o direito à autodeterminação de Nagorno-Karabakh, defendendo a participação dos representantes do território separatista nas negociações para a resolução do conflito.

União Europeia e Rússia pedem cessar-fogo

A União Europeia (UE) e a França apelaram à cessação das hostilidades entre o Azerbaijão e a Arménia no enclave de Nagorno-Karabakh, pedindo às partes se se sentem à mesa negocial.

Em Bruxelas, e através do Twitter, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, manifestou-se preocupado com as “informações sobre as hostilidades” em Nagorno-Karabakh, que considera “fonte das mais graves inquietações”.

A ação militar deve cessar imediatamente, para impedir qualquer escalada [da violência] A única via possível é um regresso imediato às negociações, sem quaisquer pré-condições”, frisou.

Em Paris, o Governo francês afirmou-se “muito preocupado” com a situação e apelou também às partes à cessação imediata das hostilidades e ao regresso ao diálogo.

Num comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês reitera a disponibilidade da França para apoiar uma solução negociada e duradoura para o conflito naquela região, “no respeito pelo direito internacional”.

A Alemanha apelou à Arménia e ao Azerbaijão que cessem as hostilidades na linha de contacto na zona do conflito de Nagorno-Karabakh, enclave arménio em território azeri, e regressem à via negocial.

A Arménia e o Azerbaijão têm de pôr fim imediato às ações violentas e dar o passo em direção a negociações substanciais", afirmou o chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, num comunicado.

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão sublinhou que o conflito em torno da região de Nagorno-Karabakh “só pode ser revolvido pela via da negociação”, para o qual o Grupo de Minsk (Estados Unidos, França e Rússia) da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) está disponível.

Maas mostrou-se “alarmado” com as informações sobre os novos e numerosos confrontos entre os dois países, bem como as mortes registadas nos dois lados.

Apelo às duas partes em conflito para porem fim imediato aos combates e, em particular, aos bombardeamentos sobre os povos e cidades”, concluiu Maas no documento.

Já antes, em Moscovo, a Rússia também instara os dois países a cessarem imediatamente os combates próximo da fronteira comum junto a Nagorno-Karabakh e a sentarem-se à mesa das negociações para estabilizar a situação.

A situação na zona de Nagorno-Karabakh deteriorou-se consideravelmente e instamos as partes a respeitarem um cessar-fogo imediato e a darem início a negociações com o objetivo de estabilizar a situação”, indicou, em comunicado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo.

/ AG-Atualizada às 15:10