Os britânicos escolheram a separação. Há nove meses, em referendo, votaram pelo Brexit e assumiram que queriam o fim da relação de 44 anos com a União Europeia. Esta quarta-feira é o primeiro dia do adeus. Tim Barrow, enviado especial do Reino Unido, foi a Bruxelas entregar em mão a Donald Tusk, presidente do conselho europeu, uma carta assinada pela primeira-ministra britânica, Theresa May, a acionar o artigo 50. Eram 12:30 quando o documento foi entregue.

 

 

Poucos minutos depois, a chefe do governo britânico foi à Casa dos Comuns para informar que o artigo 50 já foi acionado. E depois? O que vai acontecer? Por enquanto, apenas terá o início da discussão dos termos do divórcio e as negociações poderão demorar até dois anos.

E foi pelos "poucos minutos" que Theresa May começou a sua intervenção na Casa dos Comuns, perante os deputados britânicos.

"De acordo com o desejo do povo, o Reino Unido está a deixar a União Europeia. Este é um momento histórico do qual não pode haver volta"

A chefe do governo britânico confirmou, em seguida, que o artigo 50 foi oficialmente acionado "há poucos minutos". Para a primeira-ministra, a saída da EU deve ser encarada como “uma oportunidade única” e a possibilidade “desta geração construir um futuro melhor”.

Sem fazer previsões, quer que o Reino Unido, saia do processo “mais forte, mais justo do que nunca, sempre de olhos postos no futuro”. O país deve ser um "íman de talento" e transformar-se numa “Grã-Bretanha global”.

E mesmo sem fazer previsões, Theresa May deixa claros os seus desejos:

“Uma nova, especial e profunda relação com a União Europeia” 

Deseja ainda que o país “vá além das fronteiras da Europa”:

“Talvez agora, mais do que nunca, o mundo precisa dos valores liberais e democratas da Europa – valores que o Reino Unido partilha”

Theresa May garantiu ainda que vai negociar com a UE levando em conta os interesses de todas as regiões. Acrescentando que uma das prioridades será "proteger os direitos do trabalhadores". A governante deixou claro também quer assegurar relações comerciais com a UE.

Quase ao mesmo tempo, em Bruxelas, foi a vez de Donald Tusk falar sobre a carta, de seis páginas, que recebeu:

"Não há razão para fingir que hoje é um dia feliz em Bruxelas ou em Londres", afirmou. "A maioria dos europeus, incluindo metade dos votantes britânicos, preferiam que tivessemos ficado juntos".

Tal como Theresa May, Tusk pretende que o Reino Unido "seja parceiro" da Europa no futuro. O presidente do conselho europeu explicou depois:

"O primeiro passo é a adoção de diretrizes, por parte do conselho europeu, para as negociações. Essas diretrizes irão, depois, determinar as posições e princípios, à luz dos quais a União Europeia, representada pela Comissão Europeia, irá negociar com o Reino Unido"

Ainda no Parlamento britânico, em resposta à primeira-ministra, o líder da oposição trabalhista britânica, Jeremy Corbyn, disse que não alcançar um acordo sobre o ‘Brexit’ seria “um fracasso nacional de proporções históricas” e sublinhou a importância de garantir “a proteção dos empregos e dos padrões de vida” dos cidadãos.

Dirigindo-se à primeira-ministra, Corbyn disse ainda que o seu partido não vai “dar carta-branca” ao Governo conservador “para utilizar o ‘Brexit’ para atacar direitos e proteções ou para cortar nos serviços públicos”.

Entretanto, também foram reveladas as primeiras imagens de Theresa May, a assinar a carta - terça-feira, dia 28 de março.

Philip Hammond, o ministro do Tesouro britânico, disse durante a manhã desta quarta-feira que o país “está a viver um momento crucial”, mas nega que possa estar a dar um salto no escuro. Em declarações à BBC defendeu mesmo que “todos temos a mesma agenda. Todos procuramos o melhor acordo possível para a Grã-Bretanha”. Na verdade, está tão otimista que acredita que o Reino Unido vai ficar mais forte e a União Europeia também”

Nos próximos dois anos vão ser analisados as regras, os regulamentos, os acordos assinados e assumidos pelo Reino Unido desde que aderiu à EU em 1973.

Já se sabe também que nos próximos dias, após a entrega da carta, esta quarta-feira, deverão começar a ser elaboradas, pela União Europeia, as primeiras diretrizes a seguir nas negociações entre o país. A primeira reunião de líderes – que não irá contar com a presença de Theresa May – está marcada para 29 de abril. Nesse encontro, os 27 países que permanecem na EU, deverão encontrar e adotar uma posição comum.

 

 

Prioridade é manter a Europa Unida

Entretanto, os 27 líderes dos países que vão permanecer na União Europeia também já divulgaram, por antecipação, as linhas de orientação perante a notíficação do Reino Unido, que aciona o artigo 50.

Para os 27 a prioridade é "manter a Europa unida" e "minimizar a incerteza causada pelo Brexit para os cidadãos, empresas e países".

Outra garantia deixada está na forma como o processo é abordado: A UE promete conversações "construtivas para encontrar um acordo". Esperando ainda que a "Grã-Bretanha se mantenha um parceiro próximo no futuro".

Na resposta à carta de Theresa May, os 27 não colocam, em momento algum, a possibilidade de "falhar um acordo" com o Reino Unido.