Um grupo de jornalistas de várias nacionalidades foi distinguido como “Personalidade do Ano” pela revista norte-americana Time, pelo trabalho que desempenharam na defesa da verdade.

Num ano em que se assistiu ao assassínio de Jamal Khashoggi, ao tiroteio na redação do The Capital Gazette e ao aprisionamento de jornalistas como Wa Lone e Kyaw Soe Oo, a Time elegeu estas personalidades que, face às ameaças de liberdade de imprensa nos seus países, não temeram falar.

O anúncio e a divulgação das quatro capas da mais famosa edição anual da revista norte-americana foram feitos esta terça-feira. A publicação caracteriza os distinguidos como "os guardiães", escolhidos pela sua "guerra pela verdade". 

 

Por correrem grandes riscos em busca da verdade, pela demanda imperfeita, mas essencial, por factos, por falarem e denunciarem, os Guardiões são a Personalidade do Ano da Time”, escreveu Ed Felsenthal, editor da revista.

Os "guardiões”

Esta foi a primeira vez que a Time distinguiu uma pessoa que já não está viva: Jamal Khashoggi é o primeiro jornalista a ser referido no artigo da revista. Era um crítico da família real da Arábia Saudita e foi assassinado no consulado saudita, em Istambul. Suspeita-se que o príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, orquestrou o assassínio do jornalista. A sua morte foi notícia em todo o mundo.

Wa Lone e Kyaw Soe Oo, jornalistas da agência noticiosa Reuters, foram também eleitos depois de, em setembro, terem sido detidos em Myanmar por terem investigado a morte de dez pessoas de etnia Rohingya. O governo de Myanmar condenou os jornalistas a sete anos de prisão, acusando-os de terem acedido ilegalmente a documentos confidenciais.

Também os jornalistas do diário norte-americano The Capital Gazette, que em junho deste ano foram alvo de um tiroteio nos escritórios do jornal, foram considerados “guardiões”. Isto porque até no dia seguinte após o tiroteiro que matou cinco funcionários, quatro jornalistas e um assistente de vendas, o diário norte-americano não deixou de publicar uma edição. 

Por fim, a Time distinguiu Maria Ressa, uma mulher de 55 anos e diretora executiva do website noticioso filipino Rappler. A jornalista enfrenta uma pena de prisão de 10 anos depois de ter sido acusada por fraude fiscal, em novembro, na criação do site de notícias. O governo filipino continua sem reconhecer a mulher como jornalista e apenas lhe dá uma acreditação para exercer oficialmente a profissão.

A Time justifica a escolha deste conjunto de jornalistas com o facto daqueles terem "assumido enormes riscos" na busca da verdade e porque simbolizam algo maior que eles próprios: "eles representam uma luta mais ampla travada por inúmeros outros [jornalistas] em todo o mundo", disse o editor-chefe. Edward Felsenthal salienta ainda que até ao passado dia 10 de dezembro há registo de, pelo menos, 52 jornalistas assassinados, "que arriscaram tudo para contar a história do nosso tempo".