Um camião frigorífico com os restos mortais de pelo menos 100 pessoas foi abandonado no município de Tlajomulco de Zúñiga, no Estado mexicano de Jalisco. O veículo foi estacionado num descampado atrás de algumas casas, no bairro de Paseos Del Valle, e enfureceu os habitantes, que se queixaram do mau cheiro que vinha do interior da viatura.

Temos muitas crianças a viver aqui neste bairro. Podemos ficar todos doentes", sublinhou à BBC News um dos moradores, José Luis Tovar.

O camião permaneceu no local durante vários dias e acabou por ser retirado no sábado, dia 15 de setembro, na sequência das queixas dos moradores.

É muito mau porque afeta as nossas crianças. Cheira muito mal. Daqui a pouco vai começar a cheirar pior e as moscas pousam em comida", disse outra moradora Patricia Jimenez, ao jornal local El Universal.

De acordo com imprensa local, os corpos pertencem a vítimas não identificadas de crime organizado.

O diretor do Instituto de Medicina Legal do Estado de Jalisco, Luis Octavio Cotero, explicou que os corpos foram colocados no camião por falta de espaço na morgue de Guadalajara, que atingiu o limite da capacidade. As leis no México proíbem a cremação de corpos ligados ao crime violento e o Instituto de Medicina Legal local não tem espaço para guardar tantos cadáveres, sublinhou.

As autoridades afirmaram, na segunda-feira, que estão à procura de uma solução de longo prazo para armazenar os corpos após uma recente onda de violência.

Ficamos sem terrenos nos cemitérios onde enterrá-los", disse Luis Octavio Cotero.

Antes de ser abandonado em Tlajomulco, o camião frigorífico estava estacionado em Tlaquepaque, uma cidade vizinha. A presidente da Câmara local, Maria Elena Limón, denunciou o abandono dos corpos. À imprensa local, a autarca afirmou que tanto o governador de Jalisco, Roberto Lopez, quanto o diretor do Instituto de Medicina Legal, Luis Octavio Cotero, sabiam da existência do camião.

Com a pressão dos órgãos locais de comunicação social, o governo estadual retirou o camião frigorífico e levou-o, então, para Tlajomulco.

Ainda de acordo com o El Universal, nesta altura o camião está num armazém do Ministério Público mexicano, que não sabe explicar o que irá acontecer com os corpos ou até quando permanecerão no local.

De acordo com a BBC, mais de 200 mil pessoas foram assassinadas ou desapareceram no México desde dezembro de 2006, quando o Governo declarou guerra ao crime organizado. O ano de 2017 foi o mais violento, com mais de 25 mil assassinatos, indicam números oficiais citados pela estação de televisão britânica. É o número mais alto desde que os registos modernos começaram. O crime organizado representou quase três quartos desses assassinatos.

Já o jornal El Universal refere que, no ano passado, foram registados mais de 30 mil assassinatos em todo o México, o número mais alto desde 1997, quando gangues rivais de tráfico de droga se dividiram em grupos menores, mais sedentos de sangue, após mais de uma década de campanha militar para combater os cartéis.