Uma nova vaga de covid-19 está a alastrar em toda a Europa, atingindo sobretudo os países com taxas de vacinação mais baixas, mas também os jovens, e obrigando governos a voltar a impor restrições.

A situação é sentida com mais impacto no centro e leste europeu, onde os níveis de vacinação seguem o cenário russo e se mantêm baixos.

Naquela zona, Ucrânia, Letónia, Roménia, Bulgária, República Checa, Polónia, Sérvia e Croácia são os países onde o aumento das infeções está a pressionar mais os sistemas de saúde e a alarmar o resto do continente.

Na terça-feira, a Ucrânia, onde apenas 16% da população está vacinada, registou um recorde de 538 mortes e 15.579 novos casos em 24 horas.

Desde o início da pandemia, mais de 61.000 pessoas morreram oficialmente devido à covid-19 na Ucrânia, pelo que o país, onde vivem 45 milhões, é proporcionalmente um dos que mais mortes regista na Europa.

O governo de Kiev decidiu, face à situação, voltar a adotar restrições em eventos públicos e salas de espetáculos.

Também a Letónia, um dos países com menor taxa de vacinação na União Europeia, decidiu voltar ao confinamento, durante cerca de um mês, e ao recolhimento obrigatório face ao agravamento do número de infeções.

Na segunda-feira, o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças da Letónia avançou que a taxa de incidência da doença no país é de 864 pessoas por cada 100.000 habitantes, sendo, atualmente, uma das mais altas do mundo.

A Roménia, que até agora só conseguiu vacinar um terço dos seus 19 milhões de habitantes, apresenta a segunda taxa mais alta do mundo em termos de mortes por número de habitantes, registando 18 vítimas por cada milhão de pessoas.

Mais recuos

A baixa taxa de vacinação também está a afetar a Bulgária que, na terça-feira, registou quase 5.000 novas infeções em 24 horas, o maior número desde março passado, enquanto 214 pessoas morreram de covid-19 num único dia.

A Bulgária continua no último lugar da lista de países da União Europeia em termos de população vacinada, com apenas 23,9% das pessoas com o esquema completo.

Por isso, o governo admitiu estar a ponderar a introdução de novas restrições, como limitar o acesso a eventos desportivos, culturais e de lazer apenas a pessoas vacinadas, curadas ou com um teste negativo.

A República Checa foi também atingida por um aumento acentuado do número de infetados, contabilizando, na terça-feira, 3.246 novos casos em 24 horas, o que representa mais do dobro dos casos diários na semana anterior.

O valor constituiu um recorde desde 20 de abril e levou o governo a reintroduzir medidas restritivas para controlar a pandemia, como o uso obrigatório de máscaras faciais em locais de trabalho e escolas.

Mais drástico foi o ministro da Saúde da Polónia que, perante a duplicação do número de novos casos em 24 horas registada na quarta-feira, propôs que a polícia passe a emitir multas em vez de “simplesmente repreender os cidadãos que não cumpram as restrições”.

Segundo o ministro, Adam Niedzielski, a Polónia está a viver uma “explosão pandémica”, com 5.559 novos infetados e 75 mortos entre terça e quarta-feira, o que, alertou, “vai obrigar a tomar medidas drásticas”.

A campanha de vacinação na Polónia está estagnada há alguns meses e apenas 52% dos polacos têm o esquema já completo.

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Após várias semanas a ultrapassar os vários milhares de novas infeções diárias e as cerca de 50 mortes por dia, a Sérvia decidiu, na quarta-feira, adotar os passes covid para locais de entretenimento fechados, como restaurantes, bares e discotecas.

A primeira-ministra sérvia, Ana Brnabic, disse que a nova medida entra em vigor no sábado e será aplicada a partir das 22:00.

A decisão foi também tomada na sequência de vários pedidos de especialistas médicos para que as autoridades imponham restrições severas face às baixas taxas de vacinação no país.

A Sérvia já soma mais de 1 milhão de infetados e quase 10.000 mortes no país desde o início da pandemia, mas só cerca de metade dos adultos estão vacinados.

As infeções também têm aumentado na Croácia, onde foram registados, na quarta-feira, mais de 3.000 novos casos em 24 horas, atingindo o maior número dos últimos meses.

O número representa uma subida de cerca de 1.000 doentes em relação à média diária contabilizada na semana passada.

A Croácia também tem uma taxa de vacinação de cerca de 50% de sua população adulta, mas, segundo a imprensa local, as pessoas começaram, na quarta-feira, a fazer filas nos locais de vacinação da capital, Zagreb, após a divulgação do aumento mais recente do número de novos infetados.

Dias sem trabalho

A nova vaga no leste da Europa parece refletir o que se passa na Rússia, onde os números associados à pandemia continuam a bater recordes diários, com o país a registar mais de mil mortes diárias.

Até ao momento, 47,2 milhões de russos receberam as duas doses da vacina contra a covid-19 em todo o país, ou seja, menos de um terço da população, tendo o organismo de saúde pública do país defendido, esta semana, a necessidade de adotar aquilo que chamou “dias não úteis”, ou seja, sem trabalho, para combater os contágios.

Em Moscovo, a cidade onde a situação é mais grave, serão, pela primeira vez, adotados confinamentos para aqueles com mais de 60 anos e ainda não vacinados.

A partir de 28 de outubro, a capital vai encerrar todos os serviços e comércio não essencial durante dez dias, foi anunciado nesta quinta-feira. Ou seja, lojas, bares e restaurantes vão fechar portas, mantendo-se apenas abertos os supermercados e farmácias.

Incidência a aumentar na Alemanha

O número de novos casos na Alemanha subiu, nesta quinta-feira, pelo oitavo dia consecutivo, atingindo uma incidência de 85,6 casos por 100.000 habitantes, informou o Instituto Robert Koch (RKI).

Há uma semana esse índice era de 67 casos e há um mês era de 68,5 casos por 100.000 habitantes.

Também foi registado um aumento das hospitalizações, critério utilizado caso seja necessário aumentar as medidas para conter a covid-19.

Em termos de regiões, em Berlim os números superam as 100 novas infeções semanais por cem mil habitantes e a Baviera registou o maior número de infeções entre os Estados federais, com 141.

Apesar do aumento contínuo de casos nas últimas semanas, as autoridades alemãs consideram a possibilidade de levantar o estado de emergência nacional devido à pandemia no final de novembro, embora mantenham medidas de âmbito regional.

No entanto, esta posição do ministro da saúde em exercício, Jens Spahn, não é apoiada por representantes de outros partidos na Alemanha, onde atualmente social-democratas, verdes e liberais estão a negociar um governo de coligação.

Governo britânico contra restrições

O Reino Unido registou, na terça-feira, 223 mortes por covid-19 em 24 horas, o maior número diário desde março e que confirmou o aumento sustentado das últimas semanas.

O surto está concentrado nos menores de 20 anos não vacinados, mas está a espalhar-se também para os seus pais de meia-idade, aumentando gravemente as hospitalizações.

O diretor executivo da confederação do NHS (o serviço inglês de saúde pública), Matthew Taylor, pediu na quarta-feira ao governo britânico que restabeleça restrições face ao aumento contínuo de casos e consequente pressão sobre os hospitais, sobretudo numa altura em que está a chegar o inverno.

Perante os indícios de nova vaga de covid-19, o governo britânico admitiu ter de se preparar para “um inverno difícil”, mas afastou a possibilidade de voltar a adotar as restrições já suspensas.

A Irlanda, por seu lado, que já vacinou quase 90% das pessoas com mais de 12 anos, decidiu adiar o levantamento de algumas medidas de restrição, agendado para a próxima semana, e manter a obrigação de usar máscara em espaços interiores, como discotecas, lojas e transportes públicos.

Outro país da Europa ocidental que está a viver um ressurgimento da covid-19 é os Países Baixos, que registou um crescimento de 44% no número de novos infetados na semana passada.

As autoridades sanitárias locais registaram 25.750 novos casos nos últimos sete dias, face aos 17.850 contabilizados na semana anterior, aumento que aconteceu sobretudo nas regiões de maioria calvinista, onde as taxas de vacinação são muito mais baixas.

Para já, não estão a ser ponderadas novas medidas restritivas de combate ao surto.

/ PF