O assessor Dominic Cummings já era motivo de polémica e opiniões divergentes antes de arrastar o governo de Boris Johnson para uma controvérsia por causa do alegado desrespeito às regras do confinamento. 

É considerado o estratega da campanha no referendo em 2016, que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, e terá ajudado a romper o impasse do processo do ‘Brexit’ que resultou numa vitória eleitoral com maioria absoluta. 

Porém, ao longo destes anos, foi acumulando inimigos devido ao seu estilo combativo e conflituoso, evidenciado pela demissão do ministro das Finanças, Sajid Javid, em fevereiro, por recusar abdicar da escolha dos seus próprios assessores.

Nascido em Durham, no norte da Inglaterra, frequentou uma escola particular e depois a Universidade de Oxford e viveu e trabalhou na Rússia nos anos 1990, nomeadamente no lançamento de uma companhia aérea que acabou por nunca voar.

Após regressar ao Reino Unido, esteve envolvido em várias campanhas, nomeadamente contra a adoção do euro, e em 2002 chegou a ser nomeado diretor de estratégia do Partido Conservador, mas renunciou oito meses depois por considerar o então líder Iain Duncan Smith “incompetente”. 

Mais tarde, tornou-se assessor do então ministro da Educação, Michael Gove, durante o governo de coligação entre conservadores e liberais democratas, mas também nessa altura criou desconforto, que levou o primeiro-ministro David Cameron a chamar-lhe "psicopata profissional”.  

Foi entanto diretor da campanha pró-Brexit que se destacou, ao decidir uma ofensiva nas redes sociais e a recolha e uso de dados pessoais, métodos que foram contestados, particularmente o uso de mensagens enganosas e propaganda política direcionada.

O resultado do referendo, 52% a favor do ‘Brexit', desafiando todas as sondagens, laçou-o para a fama, tendo sido interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch no filme "Brexit: A Guerra Incivil” como um rebelde excêntrico que se inspirou nas táticas do livro “A Arte da Guerra", de Sun Tzu.

Em 2019, foi repreendido oficialmente por desrespeitar o parlamento ao recusar prestar testemunho numa comissão sobre ‘fake news’, mas isso não foi impediu Boris Johnson de o recrutar quando assumiu o poder, quatro meses depois. 

O desdém pelas regras do protocolo é visível pela forma informal como se veste e chega ao local de trabalho em Downing Street, incluindo calças de fato de treino, o que mereceu da revista masculina GQ o título do "homem mais mal vestido do mundo”.

A sua influência no primeiro-ministro e no Governo é refletida pelo facto de Boris Johnson considerar “razoável” o assessor ter decidido viajar de automóvel para Durham, a mais de 400 quilómetros de Londres, em março, contrariando a ordem do governo para pessoas sintomáticas, no caso a mulher, ficarem em casa. 

Não lamento o que fiz”, afirmou na segunda-feira, numa conferência de imprensa inédita nos jardins de Downing Street, em desafio às perguntas sobre se teria desrespeitado as regras que milhões terão feito sacrifícios para cumprir.

A imprensa é quase unânime nas críticas e tem vindo a aumentar o número de membros do Partido Conservador preocupados com o impacto da controvérsia na imagem do governo, nomeadamente Steve Baker, um eurocético com má opinião de Dominic Cummings. 

Ele não é indispensável e deve demitir-se”, afirmou à BBC. 

/ publicado por Rafaela Laja