O caso em que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ficou sem cadeira durante uma reunião no palácio de Ancara, já apelidado de "Sofagate", está a ser mais nefasto para o presidente do Conselho Europeu do que para Erdoğan.

Há mesmo quem aposte que este erro de Charles Michel será fatal e poderá custar-lhe a recondução no cargo. Eurodeputados apontam ainda que o episódio demonstra “desprezo e humilhação” da UE, tal como aconteceu recentemente na Rússia.

As críticas chegaram a Charles Michel, por aparecer sentado ao lado de Erdoğan a esticar as pernas, enquanto von der Leyen continua de pé, aparentemente hesitante com a disposição dos lugares. O presidente do Conselho Europeu já disse que não teve a intenção de parecer “insensível” à situação, e salientou os seus “princípios de respeito essenciais”.

Embora Erdoğan possa ter sido o instigador deste problema diplomático, uma análise do Politico aponta que Charles Michel "não tem desculpa" para não ter defendido von der Leyen. 

O que poderia e deveria ter sido uma ocasião para a solidariedade da UE - Michel e von der Leyen estavam, afinal, numa viagem conjunta para acompanhar uma declaração política em relação à Turquia - E, em vez disso, tornou-se um daqueles momentos familiares em que a UE é derrotada pela rivalidade interinstitucional e amor próprio", escreve a publicação.

Já nos bastidores das instituições da UE, estará em curso um inquérito sobre a forma como este incidente diplomático aconteceu: quais foram as falhas de preparação? Houve falta de atenção ao procedimento e ao protocolo? 

Mas o que acontece nos bastidores é provavelmente menos importante do que o que foi tornado público na quarta-feira: a falta de julgamento de Charles Michel. Na opinião do Politico, "um político que vangloriava os seus valores liberais ficou a parecer, na melhor das hipóteses, um falso feminista, um colaborador do iliberal Erdoğan".

"O que torna o Sofagate profundamente prejudicial para Michel é que não se trata apenas das subtilezas do protocolo - não pode ser descartado como uma tempestade de canapés diplomáticos", aponta a publicação, destacando que o tratamento deliberadamente humilhante a von der Leyen ocorre poucas semanas depois de a UE condenar a Turquia por sair da Convenção de Istambul - um tratado internacional de direitos humanos para prevenir a violência contra as mulheres.

Se a UE leva a sério a exigência de que a Turquia respeite os direitos das mulheres, Michel não pode ser conivente com a humilhação da mulher que é presidente da Comissão Europeia. Protocolo, política e diplomacia não são separáveis", conclui.

 

Rafaela Laja