Foi no final de abril que o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) admitiu que a vacinação contra a covid-19 poderia estimular um levantamento "lento" de algumas das restrições, nomeadamente para aqueles que já tivessem a vacinação completa.

À medida que a vacinação avança, é encorajador ter recomendações baseadas em provas de que a imunização pode, lentamente, permitir o relaxamento das intervenções não-farmacêuticas [medidas restritivas], tais como o uso de máscaras e o distanciamento físico”, disse, na altura, a diretora do ECDC, Andrea Ammon.

Perante este cenário, a Alemanha está na iminência de dar o passo e tornar-se no primeiro país da União Europeia UE) a levantar restrições a quem tiver a vacinação contra a covid-19 completa.

De acordo com a Agence France-Presse (AEF), as pessoas que já tenham sido vacinadas com as duas doses, ou uma no caso da vacina da Johnson & Johnson, não teriam de cumprir os horários do recolher obrigatório, nem assegurar o distanciamento físico, assim como também não seriam obrigadas a cumprir quarentena depois de regressarem de um país estrageiro, mesmo sendo um país de alto risco. A proposta abrange ainda aquelas que tenham recuperado da covid-19.

Para além de tudo isto, poderiam ainda entrar em lojas, cabeleireiros, jardins zoológicos ou jardins botânicos sem ter de apresentar um teste negativo.

Tem de haver uma "boa razão" para que existam restrições à vida pública

O pojeto-lei foi recebido com unanimidade pelos membros do governo na segunda-feira, mas carece ainda do selo de aprovação do parlamento. No entanto, de acordo com a ministra da justiça alemã esta medida pode entrar em vigor ainda esta semana.

Christine Lambrecht defendeu que tem de haver uma "boa razão" para haver restrições à vida pública, mas "assim que essa razão deixar de existir... essas restrições não devem continuar em vigor"

Existem medidas idênticas noutros países da União Europeia, mas nenhuma com uma dimensão tão ampla. Na Dinamarca, as pessoas vacinadas, as que apresentem um teste PCR negativo à covid-19 nas últimas 72 horas, ou que tenham recuperado da doença podem frequentar restaurantes, bares, cafés, museus, galerias de arte, bibliotecas, jardins zoológicos e parques temáticos. 

Em França as autoridades estão a trabalhar naquilo a que chamam um "pass sanitaire" (passe sanitário, em português), que permitiria que as pessoas vacinadas viajassem para o estrageiro. De acordo com Emmanuel Macron, este passe não seria exigido à entrada de restaurantes, bares, cafés ou lojas, mas poderia ser solicitado em eventos de grande escala (concertos, festivais ou conferências). 

Medida discrimina jovens, dizem especialistas

Os especialistas são mais céticos em relação ao projeto-lei por "discriminar", de certa forma, os mais jovens, uma vez que serão os últimos a ser vacinados. 

Tilman Kuban, presidente da Young Union, a organização juvenil democrata-cristã da Alemanha, defendeu que o governo não deveria estar a "enviar um sinal de que uma parte da sociedade tem permissão para voltar a viajar e viver normalmente, enquanto outros têm de aguentar mais uns meses"

A estas críticas o porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, disse que não se tratar de conceder privilégios, mas sim de "dar-lhes o alívio de certas restrições, como lhes é condigno pelos direitos constitucionais"

Cerca de 23,5 milhões de pessoas já foram vacinadas com a primeira dose na Alemanha, o que representa 28,3% da população. Com a vacinação completa contra a covid-19 são já 6,66 milhões de pessoas, 7,94% da população.

Cláudia Évora