50:50, telefone ou a ajuda do público?

Foi mais ou menos assim que Valdas Dambrauskas encontrou as respostas para o seu sonho.

Este promissor técnico lituano, que comemora o 44º aniversário nesta quinta-feira, e que foi apresentado esta semana no Ludogorets, eneacampeão da Bulgária, começou a carreira… numa versão lituana do «Quem quer ser milionário».

Foi em abril de 2002 e o concurso chamava-se «šeši nuliai – milijonas» (seis zeros – milhão). Valdas, então com 25 anos, não arrecadou o prémio máximo, mas olhou para o dinheiro que ganhou como ponto de partida para uma mudança para Inglaterra.

«Não fui ao concurso já a pensar nisso. Achei que seria divertido e tive a felicidade de ganhar algum dinheiro. Eram tempos difíceis na Lituânia, a nível económico, por isso parti para Inglaterra com a ideia de tirar cursos de treinador e aprender inglês», explica Valdas Dambrauskas ao Maisfutebol.

Para além de diferentes níveis do curso de treinador, o lituano concluiu também uma licenciatura em Ciências do Desporto e do Treino, na London Metropolitan University, onde foi colega de um português.

«É um dos meus melhores amigos», diz Valdas Dambrauskas sobre Eddie Cardoso, atual treinador do Louletano, que nessa época da faculdade teve oportunidade de ver as imagens da participação do amigo no concurso televisivo: «Foi uma risada, por causa do fato e dos óculos, e da carinha dele naquela altura.»

«Nas aulas da universidade começámos logo a falar de futebol, e eu jogava e trabalhava nos London Tigers, que é também uma instituição de caridade. Convidei-o logo para ir para lá, para treinar miúdos, mas ele recusou inicialmente. Depois passámos a ser mais amigos, estávamos sempre juntos, e às tantas ele lá aceitou. A dada altura eu assumi o comando da equipa principal e ele ficou nos sub-18, e depois eu saí para outros lados e ele acabou por ficar com a equipa principal», explica Eddie, em conversa com o nosso jornal.

Essa foi a primeira experiência de Dambrauskas no futebol sénior, mas nesse período em que viveu em Inglaterra também trabalhou em escolinhas do Manchester United, Fulham e Brentford.

«Ele acabou o curso primeiro do que eu. Eu era um bocado mais burro (risos). Ele é um crânio. É viciado em xadrez, lê muito, escreve muito também, aprende muito rápido… até português, quando eu ensinava qualquer coisa. Liga muito aos detalhes, e isso explica o sucesso que tem conseguido. É o lado estratégico do xadrez também, não é qualquer um que joga…», acrescenta o técnico lusoangolano.

Dos miúdos ingleses ao “papão” do futebol búlgaro

Eddie Cardoso (foto: Louletano)

Os dois amigos já não estão juntos há cerca de dois anos, mas nunca perderam o contacto regular e tiveram duas ou três oportunidades de estar juntos nos últimos anos, graças a estágios ou jogos europeus, quando Eddie esteve a trabalhar em Chipre, como adjunto de Bruno Baltazar (AEL Limassol e APOEL). Os caminhos profissionais separaram-se após a universidade, quando Eddie deixou então Inglaterra e Valdas recebeu depois um convite da federação lituana que lhe permitiu treinar as seleções de sub-17 e sub-19. Mais tarde surgiu a possibilidade de assinar pelo Ekranas, um dos principais emblemas da Lituânia.

«Era o tricampeão. A oferta partiu do treinador, Valdas Urbonas, que é agora o selecionador lituano. Ele deu-me essa oportunidade, sempre me apoiou, e ficámos próximos desde então. Tornei-me adjunto dele, analista de vídeo e treinador da equipa de reservas. Ganhámos dois campeonatos, uma taça e jogámos na Europa, mas ele depois saiu devido aos problemas financeiros do clube. A maior parte dos jogadores também saiu, e a equipa de reservas tornou-se a principal, comandada por mim. Mesmo com a equipa mais jovem do campeonato estávamos a conseguir bons resultados, a praticar um futebol atrativo, mas eu acabei por sair antes do final da época, pois os problemas começaram a aumentar e o clube entrou depois em falência. Foi recuperado na época passada e está na segunda divisão», explica.

Depois surgiu uma «inesperada» oferta do rival, Zalgiris Vilnius. «O diretor desportivo, Mindaugas Nikolicius, viu potencial em mim, e estou eternamente grato. O Zalgiris era bicampeão na altura, e entre 2015 e 2017 anos eu juntei sete títulos: dois campeonatos, duas supertaças e três taças», resume.

Seguiram-se dois anos no Rigas FS, da vizinha Letónia, onde não conseguiu ser campeão mas conquistou uma Taça, em 2019. «Renovei por dois anos, mas depois surgiu o convite da Croácia. O Mindaugas Nikolicius estava lá como diretor desportivo do Gorica e convidou-me», explica Dambrauskas, antes de fazer um balanço do atípico ano de 2020.

«Era um passo significativo para a minha carreira, mas logo o início não foi fácil. Cheguei, fizemos três jogos e entrámos em isolamento por causa da pandemia. Estivemos três meses sem jogar, e nesse período um grande terramoto atingiu Zagreb. Foi uma experiência horrível. Nos primeiros 13 jogos ganhámos quatro, perdemos três e empatámos seis. Via a equipa a evoluir, os jogadores estavam a trabalhar bem e a ganhar confiança. Iniciámos a nova época com quatro vitórias seguidas, mas depois o campeonato voltou a parar cinco semanas. Agora estávamos a quatro pontos do líder, Dinamo Zagreb, mas recebi a oferta do Ludogorets e é mais um passo em frente que não posso recusar. Tenho muita ambição e a possibilidade de lutar por títulos motiva-me muito, é um desafio», justifica.

Mourinho da Lituânia gosta de Bruno Fernandes e João Félix (e de Ronaldo, claro)

Valdas Dambrauskas tem agora um português à sua disposição, o central Josué Sá (ex-V. Guimarães), mas no Zalgiris já tinha trabalhado com um futebolista luso.

«Um bom jogador, com uma velocidade excecional, um grande carácter, um fantástico profissional», descreve-nos o técnico, ao falar de Jorge Chula.

Valdas Dambrauskas no Zalgiris, com Jorge Chula à esquerda na imagem [foto: Zalgiris]

«Tive muita pena por não ter aproveitado melhor o período com ele, pois fraturei a tíbia logo nos primeiros tempos. Tive uma boa relação com ele. Adaptei-me bem à filosofia, e ele mostrava carinho por mim. Ganhámos tudo o que havia para ganhar naqueles anos», recorda o jogador português, que antes passou pela formação do FC Porto e pelo Sporting B, e que atualmente joga no Jeunesse Canach, do Luxemburgo.

«É o tipo de treinador que cativa. Vive o futebol, gosta do que faz, procura evoluir e é exigente, algo que alguns treinadores deixam cair hoje em dia, pois deixam-se levar pelos meandros do futebol. Estudava muito bem os adversários, e eu gostava disso, pois também tento sempre analisar o que vou encontrar. Eu e os brasileiros chamávamos-lhe Mourinho da Lituânia. Por causa da personalidade forte, a crença nas suas ideias, o foco no trabalho», acrescenta Jorge Chula.

Dambrauskas chegou a ser comparado a André Villas-Boas - «talvez porque também não fui jogador», diz-nos o próprio -, mas José Mourinho é que cedo tornou-se uma referência.

«Ele é incrível. Já o seguia no FC Porto, até por causa do meu compatriota Edgaras Jankauskas. Mas o mais entusiasmante foi seguir depois a chegada dele a Inglaterra. Ele foi revolucionário, era diferente, era o Special One. Recordo que foi muito interessante ler o livro do Luis Lourenço sobre ele», revela Dambrauskas.

Relativamente aos treinadores portugueses que conhece, Valdas destaca o «enorme respeito» que tem por Mariano Barreto, que passou recentemente pelo Strumbras, da Lituânia, e também por um dos seus adjuntos, João Luís, que continua no país, agora como treinador principal do Panevezys. «Posso dizer que é um amigo, um homem com um grande coração e um enorme conhecimento futebolístico», refere, sem esquecer Eddie Cardoso, claro, «um dos melhores amigos».

«A nossa referência sempre foi muito o Mourinho. Revolucionou algumas coisas em Inglaterra, e nós estávamos lá nessa altura. A mentalidade lá, seja em que nível for, passa muito por um futebol ofensivo e com muitos duelos, e o Mourinho mudou um pouco isso. E nós também tentámos incutir um pouco a mentalidade dele nas nossas equipas», explica o agora treinador do Louletano.

Eddie Cardoso falava muitas vezes de futebol português com Valdas Dambrauskas, e antes dos duelos de seleções surgiam sempre as habituais “picardias” saudáveis: «Metia-me com ele a dizer que ia ser goleada. Ele lamentava as limitações da Lituânia e elogiava o futebol português. Via sobretudo as competições europeias.»

«O futebol português dispensa apresentações, é um dos melhores do mundo. É inacreditável a quantidade de jogadores de top que produz. É exemplar», diz o treinador lituano ao Maisfutebol.

«O meu primeiro contacto com o futebol português foi o jogo com a França no Europeu de 1984. Tinha sete anos, mas lembro-me desse jogo», acrescenta Dambrauskas, que para além do FC Porto de Mourinho e Jankauskas diz ter acompanhado também «o Benfica de Jorge Jesus» e «o Sporting de Sá Pinto ou Marat Izmailov».

Questionado se gostaria de trabalhar em Portugal, Valdas diz que «todos os treinadores querem trabalhar ao mais alto nível e Portugal proporciona isso», mas faz questão de dizer que agora está totalmente focado no Ludogorets.

João Félix e Bruno Fernandes são os jogadores portugueses que mais o apaixonam por estes dias, mas sem esquecer Cristiano Ronaldo, claro.

«Se já sonhei treiná-lo? Sempre!!! Quem sabe, talvez um dia», responde.

Nuno Travassos