O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, responsabilizou na segunda-feira o seu homólogo norte-americano por "qualquer violência" que venha a ocorrer no seu pais, devido à tentativa de mudança de regime promovida por Washington.

Responsabilizo Donald Trump por qualquer violência que possa vir a ocorrer na Venezuela", disse.

Nicolás Maduro falava durante um encontro no palácio presidencial de Miraflores, com diplomatas que regressaram de diferentes sedes consulares e da embaixada venezuelana nos EUA.

Será você, senhor presidente Donald Trump, responsável por esta política de mudança de regime na Venezuela e o sangue que se possa derramar na Venezuela, será sangue que estará nas suas mãos, presidente Donald Trump", disse.

O chefe de Estado venezuelano também condenou as sanções "ilegais e unilaterais" impostas pelos Estados Unidos contra a empresa Petróleos da Venezuela SA (PDVSA), acusando Washington de pretender "roubar" a petrolífera venezuelano e as riquezas do seu país. Maduro anunciou que a petrolífera estatal está a tomar ações para impedir a concretização dessas sanções.

Os EUA hoje decidiram tomar o caminho de querer roubar a empresa CITGO [petrolífera subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos] à Venezuela e é um caminho ilegal. (...) Já dei instruções ao presidente da PDVSA e à CITGO para que iniciem as ações legais para defender a propriedade e as riquezas [da Venezuela]", disse.

Nicolás Maduro denunciou que há uma grande manipulação mundial, através dos meios televisivos dos Estados Unidos e da Europa para "apresentar uma Venezuela virtual", da qual faz parte não mostrar a realidade: as manifestações de revolucionários que o apoiam. Por outro lado, anunciou estar pronto para iniciar um diálogo com a oposição para garantir a paz e a estabilidade do país.

Estou pronto, uma vez mais, para onde for, iniciar uma ronda de conversações, diálogo, negociações, com toda a oposição venezuelana, com um só objetivo: a paz, o entendimento e o reconhecimento mútuo", disse.

Durante o encontro, Maduro pediu aos venezuelanos que continuem no rumo do trabalho, educação, do positivo e da expansão do modelo socialista, para a construção de uma estabilidade política, sólida, verdadeira e positiva. Nesse sentido anunciou o lançamento do programa estatal "Misión Venezuela Bella" (Missão Venezuela Linda) para embelezar 62 cidades do país.

O autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou na segunda-feira, praticamente em simultâneo com a divulgação das sanções norte-americanas, que assume o controlo dos ativos do país no exterior, de modo a evitar que Nicolás Maduro “continue a roubar” o dinheiro dos venezuelanos.

Guaidó acrescentou que já denunciou “junto da comunidade internacional a corrupção na PDVSA", salientando que esta foi convertida numa “rede de financiamento de crimes” e disse que vai iniciar um processo para nomear uma nova administração para a PDVSA e para a sua filial CITGO, que opera nos Estados Unidos.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando o líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino e declarou que assumia os poderes executivos de Nicolás Maduro.

Guaidó, 35 anos, contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos e prometeu formar um governo de transição e organizar eleições livres.

Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, recusou o desafio de Guaidó e denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.

A União Europeia fez um ultimato a Maduro para convocar eleições nos próximos dias, prazo que Espanha, Portugal, França, Alemanha e Reino Unido indicaram ser de oito dias, findo o qual os 28 reconhecem a autoridade de Juan Guaidó e da Assembleia Nacional para liderar o processo eleitoral.

A repressão dos protestos antigovernamentais da última semana provocou 35 mortos, de acordo com várias organizações não-governamentais.

Esta crise política soma-se a uma grave crise económica e social que levou 2,3 milhões de pessoas a fugirem do país desde 2015, segundo dados da ONU.

Na Venezuela, antiga colónia espanhola, residem cerca de 300.000 portugueses ou lusodescendentes.

/ SS - atualizada às 08:03