Kamala Harris torna-se este sábado a primeira mulher afro-americana a ser eleita vice-presidente dos Estados Unidos, rompendo barreiras que mantiveram os homens, quanse sempre brancos, nos lugares mais altos da política norte-americana durante séculos.

A até agora senadora da Califórnia, de 56 anos, é também a primeira pessoa de ascendência sul-asiática a assumir a vice-presidência, representando o multiculturalismo que define a América mas está em grande medida ausente dos centros do poder de Washington.

Kamala Harris é também vista como uma ponte para o futuro do Partido Democrata na era pós-Trump e pós-Biden.

A multirracialidade da candidata de 55 anos, nascida em 1964 de mãe indiana e pai jamaicano, ambos emigrantes, foi sempre um ponto saliente na sua carreira, tornando-a pioneira em quase todas as posições de liderança que assumiu.

Harris sempre usou como bandeira a inspiração nos movimentos de direitos civis e naqueles que abriram caminho antes dela, com destaque para Shirley Chisholm, a primeira afro-americana a candidatar-se à nomeação presidencial pelos democratas, em 1972.

A candidata já se destacava nos tempos de estudante na Faculdade de Direito de Hastings, da Universidade da Califórnia, onde se doutorou em Direito em 1989 depois de se formar em ciência Política e Economia na Universidade de Howard.

Era uma turma bastante grande", disse à Lusa Heinz Klug, professor na Wisconsin Law School, que se doutorou com Kamala Harris e foi representante da turma no dia da graduação. "Lembro-me da Kamala porque ela era uma de um grupo muito pequeno de mulheres afro-americanas na turma", recordou.

Então com 24 anos, e antes de iniciar a carreira que a levaria à vice-Presidência, Kamala Harris beneficiou de uma das melhores formações legais do país.

"Uma coisa interessante que Hastings tinha naquela altura era um grupo de professores que se tinham reformado de faculdades de Direito de topo de todo o país e foram trazidos como professores eméritos", explicou Heinz Klug, referindo-se ao conhecido "Clube dos 65".

William B. Lockhart, uma das grandes figuras constitucionais do país no século XX, e Louis B. Schwartz, cuja influência produziu mudanças significativas nos códigos penais de vários Estados, fizeram parte desse clube.

Foi esta "sólida educação legal", como caracterizou Heinz Klug, que lançou as bases da carreira de Kamala Harris, que viria a tornar-se conhecida pela sua tenacidade como procuradora.

No ano seguinte à graduação, tornou-se assistente do procurador distrital do condado de Alameda, Califórnia, e em 1998, já na procuradoria de São Francisco, liderou casos de homicídio, roubo e violência sexual.

Eleita procuradora-geral distrital do condado de São Francisco em 2003, Harris cultivou uma postura agressiva na perseguição de crimes violentos, com armas e de natureza sexual, tendo também criado a Unidade de Crimes de Ódio.

A sua mão pesada continuou como procuradora-geral da Califórnia, que exerceu entre 2011 e 2017 e em que perseguiu crimes de tráfico de seres humanos, tráfico de droga e crimes tecnológicos, entre outros, mas que lhe rendeu muitas críticas.

Kamala Harris sempre foi considerada uma moderada e, numa altura em que se agudizam os pedidos de reforma na polícia e os protestos desencadeados pela morte do afro-americano George Floyd, o seu histórico de tolerância para com agentes envolvidos na morte de civis gerou controvérsia.

No único debate vice-presidencial, Mike Pence acusou-a de não ter "levantado um dedo" para reformar o sistema criminal quando chegou a Washington, D.C. como senadora, no início de 2017.

Harris, que se destacou nos debates das primárias democratas antes de desistir da nomeação, respondeu a Pence que não aceitava lições de moral desta administração, que acusou de ser "o maior falhanço de qualquer administração presidencial na história do nosso país".

/ AG