As duas principais cidades de Espanha saíram em peso na noite desta quarta-feira. Em causa a prisão do rapper Pablo Hasél, que foi detido esta terça-feira na Universidade de Lérida, depois de ter sido condenado a nove meses de prisão por glorificação do terrorismo e injúrias à monarquia.

Com o escalar da violência, a polícia acabou por voltar a usar a força perante os manifestantes, tendo havido mesmo uma mulher que perdeu um olho na sequência dos confrontos.

Na capital espanhola o ponto mais alto dos protestos foi na Porta do Sol, num ajuntamento que não foi autorizado pela polícia ou pelo governo, que tentava dessa forma impedir a concentração de pessoas em plena pandemia de covid-19.

Nos cartazes que muitos levam nas mãos podem ler-se frases como "Liberdade para Pablo Hasél. Amnistia total" ou "Liberdade para Pablo Hasél, fora a justiça franquista".

As centenas de manifestantes acabaram por atacar mobiliário urbano, dirigindo-se de forma agressiva também para a polícia, o que levou a várias cargas policiais. 

Alguns dos manifestantes arrancaram pedras da calçada e atiraram-nas contra a polícia, que conseguiu encurralar os mais violentos num canto da praça, e acabou por fazer uso de balas de borracha e gás lacrimogéneo.

Os manifestantes incendiaram contentores, derrubaram as vedações que cortavam o acesso à boca do Metro, que está em obras, e atingiram os quiosques da praça com garrafas de vidro que os manifestantes atiraram à polícia.

Entretanto, os empregados das lojas da zona estão fechados nos estabelecimentos, que os manifestantes estão a tentar arrombar.

Os confrontos acontecem pelo segundo dia consecutivo, depois de esta terça-feira quinze pessoas terem sido detidas e mais de 30 terem ficado feridas. Até ao momento, há registo de uma dezena de pessoas detidas na capital espanhola.

O rapper catalão Pablo Hasél foi condenado a nove meses de prisão por mensagens enviadas no Twitter em que fazia a glorificação do terrorismo e injuriava a monarquia.

Os factos pelos quais o rapper foi condenado remontam a 2014 e 2016, quando publicou uma canção no YouTube e dezenas de mensagens no Twitter, acusando as forças da ordem espanholas de tortura e homicídios.

Numa das mensagens, escreveu, ao lado de uma fotografia de Victoria Gómez, membro dos Grupos de Resistência Antifascista Primeiro de Outubro (GRAPO), uma organização considerada terrorista: "As manifestações são necessárias, mas não suficientes, apoiemos aqueles que foram mais longe".

O cantor também acusou o rei emérito Juan Carlos e o filho, Felipe VI, de vários crimes, incluindo homicídio e desvio de fundos.

O caso motivou manifestações a favor do rapper e provocou incómodo no Governo, de maioria socialista.

Na segunda-feira, o executivo espanhol prometeu "uma reforma" legislativa para que os "excessos verbais cometidos no âmbito de manifestações artísticas, culturais ou intelectuais" não sejam punidos criminalmente.

António Guimarães