Os primeiros sinais de alerta foram detetados a 5 de julho, por um satélite, a cerca de 800 quilómetros de distância do rio Reno. Nos dias seguintes, os cientistas avisaram as autoridades alemãs que a região da Renânia seria atingida por cheias “extremas”, sobretudo junto aos rios Erft e Ahr e nas cidades de Hagen e Altena.

No entanto, algo falhou. Apesar do aviso com mais de 24 horas de antecedência que previu, com precisão, quais locais que seriam mais atingidos quando as chuvas chegassem, as cheias do fim de semana ainda apanharam desprevenidas muitas pessoas. 

Esta segunda-feira, enquanto continuam os esforços para encontrar desaparecidos e limpar os destroços, estão já contabilizadas mais de 190 vítimas mortais na Europa, das quais mais de 160 na Alemanha.

Neste país, as autoridades federais e estatais estão a ser duramente criticadas por não terem alertado os cidadãos sobre o desastre iminente, permitindo que medidas mais eficazes fossem tomadas, nomeadamente a evacuação.

Mas o ministro do Interior, Horst Seehofer, rejeitou as alegações de que as autoridades federais cometeram erros e disse que as advertências foram passadas às autoridades locais, pois são elas "que tomam decisões sobre proteção contra desastres". No entanto, a mensagem sobre a gravidade da situação não chegou onde era mais necessário. Porquê?

“Devo dizer que algumas das coisas que estou a ouvir agora são retórica eleitoral barata”, disse Seehofer durante uma visita ao reservatório Steinbach, no oeste da Alemanha, referindo-se ao facto de haver eleições nacionais marcadas para setembro. "Agora realmente não é o momento para isso."

“Nem tudo o que deveria ter funcionado a 100% funcionou. Porque se isso tivesse acontecido, não haveria mortes”, disse ao jornal “Bild” Herbert Reul, responsável pela pasta do Interior na região da Renânia do Norte-Vestfália. Reul recusou a existência de qualquer “problemas estruturais” no sistema de alerta mesmo admitindo apenas que “há provavelmente algumas melhorias necessárias” na coordenação de trabalhos.

Também o chefe da agência de proteção civil da Alemanha disse que o serviço meteorológico do país "previu relativamente bem" os incidentes e que o país estava bem preparado para as inundações nos seus principais rios. Armin Schuster garantiu à televisão ZDF que 150 avisos foram enviados por diferentes meios para as autoridades locais. "Teremos que investigar" onde as sirenes soaram e onde isso não aconteceu, disse.

Mas, depois de visitar a vila de Schuld com a chanceler Angela Merkel no domingo, o ministro do Interior Roger Lewentz admitiu:

É claro que tivemos problemas porque a infraestrutura elétrica foi destruída. Podemos estar preparados mas se o equipamento de aviso for destruído, então a situação fica muito complicada", disse.

As redes de telemóveis também foram prejudicadas pelas enchentes.

Já havia muitas dúvidas sobre o sistema de alerta de emergência da Alemanha depois de um teste nacional em setembro passado, o primeiro em 30 anos, ter falhando amplamente, recorda a AP. As sirenes não soavam em muitos lugares ou tinham sido removidas após o fim da Guerra Fria, e os alertas do sistema de alerta nacional chegaram atrasados ​​ou não chegaram de todo.

Schuster lembrou que um programa para reformar a proteção civil foi lançado no início deste ano, incluindo um esforço para encorajar as autoridades locais a instalarem mais sirenes. A Alemanha não tem um sistema de mensagens de texto para avisos de desastres, mas Schuster garante que esta possibilidade está a ser estudada.

Neste momento, enquanto as comunidades locais enfrentam a enorme tarefa de reconstruir casas e infraestruturas destruídas, como o sistema de abastecimento de água, o gabinete da chanceler Angela Merkel está a elaborar um pacote de ajuda financeira imediata e de médio prazo que deverá ser apresentado na quarta-feira.

Assim que tivermos dado a ajuda imediata a todos os que precisam agora, teremos que ver se houve coisas que não funcionaram e que têm de ser corrigidas", disse o ministro da Economia, Peter Altmaier. “Não se trata de apontar o dedo - trata-se de fazer melhorias para o futuro.”

Maria João Caetano