Um tribunal de recurso de Myanmar (Mianmar, em Português) rejeitou o pedido de absolvição e libertação de dois jornalistas da agência noticiosa Reuters, condenados a sete anos de prisão por alegadamente terem violado segredos de estado, ao investigarem a morte de dez elementos da minoria muçulmana rohingya pelo exército.

Wa Lone, de 32 anos, e Kyaw Soe Oo, de 28 anos, foram considerados culpados em setembro de 2018 de violarem a "Lei dos Segredos Oficiais", um decreto criado em 1923 pelo poder colonial britânico na Birmânia, que criminalizava a partilha e publicação de praticamente toda a informação governativa.

Esta sexta-feira, após ter sido conhecida a rejeição do apelo pelo tribunal na cidade de Rangum, o advogado dos dois jornalistas, que não estiveram na audiência, admitiu vir a recorrer para o Supremo Tribunal do país, a última possibilidade para os livrar da cadeia.

Estavamos à espera de ir até à prisão para os receber, se eles fossem libertados hoje, mas isso não aconteceu. Estamos muito tristes", afirmou a mulher do repórter Kyaw Soe Oo, de seu nome, Chit Su Win.

O caso da prisão dos dois jornalistas - incluídos como figuras de 2018 na escolha da revista norte-americana Time - gerou um movimento mundial de condenação do regime de Myanmar e de Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz em 1991, que defende a condenação e tem fechado os olhos ao genocídio da população rohingya no estado de Rakhine (Arracão), no sudoeste do país.

É mais uma injustiça entre muitas infligidas a Wa Lone e Kyaw Soe Oo. Continuam atrás das grades por uma razão. Os que estão no poder tentam silenciar a verdade. Noticiar não é um crime e enquanto Myanmar persistir neste terrível erro, a imprensa em Mianmar não será livre e o compromisso de Myanmar com o estado de Direito e a democracia permanece em dúvida", afirmou em comunicado Stephen J. Adler, editor-chefe da Reuters.

Os assassínios que os dois jornalistas investigaram incluíam-se na onda de perseguições iniciada em 2017, que levou a mais de 720 mil muçulmanos rohingya a fugir para o vizinho Bangladesh, criando uma crise humanitária.

Em tribunal, militares assumiram que o massacre de dez pessoas tinha ocorrido e, segundo os meios de comunicação estatais, houve mesmo lugar à prisão de sete soldados. Ainda assim, Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram condenados e estão presos há mais de um ano.