A China, onde teve origem o surto do SARS-CoV-2, em dezembro passado, é o nono país do mundo com mais casos de Covid-19, mas uma investigação científica indica que deveria ser o segundo, acima dos 300.000 contágios.

O estudo conduzido por investigadores da universidade de saúde pública de Hong Kong concluiu que o número de contágios na China pode ser quatro vezes superior ao oficial.

As conclusões já foram partilhadas na revista médica The Lancet.

E, ao contrário do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que diz que a China está a esconder a verdade, o estudo agora divulgado não considera ter havido dolo, mas sim alterações nos critérios de identificação dos doentes com Covid-19.

Ou seja, se o caso de Covid-19 que serviria, mais tarde, de base para a identificação de doentes tivesse sido usado como exemplo desde o início a contabilização de infetados seria muito superior.

De acordo com os dados apurados, mais de 232.000 pessoas terão sido infetadas na primeira onda na China continental, quatro vezes mais que os cerca de 55.000 casos oficiais registados a 20 de fevereiro.

Até à data foram registados 83.878 casos de contágio no país (incluindo fora do continente) e 4.636 mortos, a maioria em Hubei, província onde teve origem o surto, ao que tudo indica num mercado de Wuhan.

Entre 15 de janeiro e 3 de março, os critérios de identificação de um doente com Covid-19 foram alterados sete vezes, à medida que novas informações iam surgindo sobre a doença e que os laboratórios aumentavam as suas capacidades para realizar testes.

E, segundo a universidade de Hong Kong, que teve por base dados obtidos até 20 de fevereiro pela equipa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que se deslocou a Wuhan, cada uma das primeiras quatro alterações aumentou o números de casos detetados e contabilizados entre 2,8 e 7,1  vezes.

Se a quinta versão de definição de caso tivesse sido aplicada durante o surto, estimamos que, até 20 de fevereiro, haveria 232.000 casos confirmados na China por oposição aos 55.508 reportados", consta no estudo.

Inicialmente, o critério de definição de um doente baseava-se, essencialmente, na ligação a Wuhan e ao seu mercado, e a uma sequência de genoma da amostra respiratória de um paciente com um caso homólogo.

O verdadeiro número de infeções pode ser, ainda, superior ao estimado, considerando a hipótese de sub-deteção de algumas infeções, principalmente as leves e assintomáticas, mesmo nas definições mais amplas dos casos", sustenta, ainda, o estudo.

Catarina Machado