A “sobrelotação” do Evereste já fez 11 mortos, desde que se tornou possível ascender ao topo da montanha nepalesa, em março. Alguns dos alpinistas que estiveram no local falaram sobre o impacto letal do excesso de visitantes e contaram que até tiveram de “andar sobre cadáveres”.

No dia em que se celebra o 66º aniversário desde que os primeiros homens, Tenzing Norgay e Edmund Hillary, conseguiram trepar o ponto mais alto do mundo, continua acesa a polémica sobre o elevado número de turistas na montanha.

No dia 22 de maio, um fotógrafo divulgou uma imagem que mostrava uma longa fila de alpinistas, seguros por uma linha de segurança. O mesmo foi feito por uma realizadora britânica que estava a produzir um documentário sobre quatro mulheres árabes no local, Elia Saikaly, usando as redes sociais, na quinta-feira passada.

Elia Saikaly partilhou uma publicação, que já foi, entretanto, apagada, na qual se podia ver a linha de alpinistas presos por uma corda e uma pessoa que parecia estar inerte, caída na encosta da montanha.

Não acredito no que vi lá em cima. Morte. Caos. Filas. Corpos pelo caminho e em tendas, no campo quatro. As pessoas que tentaram voltar para trás acabaram por morrer. Pessoas a serem arrastadas. Pessoas a caminhar sobre cadáveres. Tudo o que se lê nas manchetes dos tabloides foi o que assistimos durante a subida”, escreveu a realizadora, na legenda da foto partilhada no Instagram e que já foi eliminada.

 

(Instagram Elia Saikaly)

As autoridades estimam que este ano cerca de 600 pessoas tenham subido à montanha. O número de mortos escalou para 11, em apenas nove dias, depois de uma série de avalanchas ter atingido os alpinistas. Grande parte, no entanto, faleceu por causa de uma condição denominada “doenças das alturas”, provocada pela falta de oxigénio a grandes altitudes. Já não era registada uma mortalidade tão grande no local desde 2015.

Não é necessária qualquer experiência para requerer uma licença para subir ao cume do Evereste, que necessita de ser concedida pelos órgãos públicos nepaleses. Cada licença custa cerca de 10 mil euros e as autoridades garantem que foram dadas apenas 381 a turistas que não residem no país.

Contudo, de acordo com o “The Independent”, o Nepal é um dos países mais pobres do mundo e encaixa cerca de 300 milhões de dólares anuais com a indústria do alpinismo. Este fator pode explicar o número recorde de pessoas a subirem a montanha durante esta época.

Há mais pessoas no Evereste do que deveriam estar. Faltam regulações para determinar o número máximo de pessoas que podem subir e em que altura”, garantiu Kul Bahadur Gurung, Secretário-geral da Associação de Montanhismo no Nepal, em entrevista à AP.

Apesar disto, o governo garante que o processo de atribuição de licenças nada tem a ver com o aumento da mortalidade.