Lucy Gossage é médica. É uma investigadora com um doutoramento em cancro do rim. Lucy Gossage é a melhor triatleta britânica de 2013. No passado dia 1 de março juntou mais um troféu ao palmarés conquistado entre a dupla vida que tem dividido entre a medicina e o desporto. Aos 34 anos, Lucy Gossage decidiu pôr em suspenso a carreira profissional para disputar o Campeonato do Mundo de Ironman.

O triatlo é uma prova dura de resistência que conjuga a natação, o ciclismo e a corrida. O Ironman leva este conjunto ao limite impondo 3,8 quilómetros a nadar, seguidos de 180 quilómetros a pedalar e terminando com 42 quilómetros a correr. Para se ter noção do limite, deve lembrar-se que o triatlo olímpico consiste em 1,5 quilómetros de natação, 40 em bicicleta e 10 de corrida (o meio-Ironman ou Ironman 70.3 divide em metade as distâncias daquele que lhe dá o nome).



Lucy Gossage fez o seu primeiro triatlo em 2005, começou a praticar a modalidade regularmente em 2006 e em 2011 tornou-se profissional. Em 2003 já a britânica tinha terminado em Oxford o curso de medicina iniciado em Cambridge, para onde voltou em 2009 para tirar o doutoramento; que apresentou neste ano de 2014.


«Fiz o meu primeiro triatlo em 2005 da mesma forma que a maioria das pessoas decide fazer uma maratona: eu queria um desafio», diz Lucy no seu site. E deu por si entre o tiro de partida e o cruzar da meta a pensar que «iria fazer muitos mais triatlos no futuro». Quando chegou ao fim uma relação de longo tempo viu-se «com muito mais tempo entre mãos». E decidiu que, se continuasse sozinha, no primeiro dia de 2006 entraria num Ironman. No diz 2 de janeiro de 2006 correu uma meia-maratona. No dia 3 participou no Ironman UK.

«Olhando para trás, não tinha absolutamente qualquer ideia daquilo em que estava a meter-me.» A sua preparação foi feita sozinha com base num plano de treino encontrado na internet. «Tudo isto intercalado com turnos noturnos [nos hospitais onde já exercia medicina], o exame final de pós-graduação e candidaturas de emprego». E mais: «Fiz praticamente todas as corridas de longa duração ressacada e todos os meus amigos pensavam que eu era completamente louca [se pensava que conseguiria terminar o Ironman UK].» Ganhou o seu escalão etário. E ficou apurada para o Campeonato do Mundo Ironman no Havai nesse escalão – «algo de que só tive consciência no dia seguinte quando vi os resultados online no emprego».

A médica que se define como «entusiasta», «enérgica», «mandona» ou competitiva, entre outras características «sem ter em conta a ordem», estava, mais uma vez, a pôr em prática o gosto pelo desporto dos tempos de faculdade em que passava os fins de semana em jogos de hóquei, ténis e squash. No fundo, todas caraterísticas que, também, a compõem desde sempre: «Desde os tempos de escola que sempre fui exigente comigo. E se defino um objetivo faço o que for possível para alcançá-lo.» Lucy entrou Entrou para o TFN Tri Club de Nottingham. Em 2011, quando se tornou profissional, voltou também a treinar sozinha para aperfeiçoar as distâncias curtas passando a «aprender por experiência/erro».


Numa recente entrevista à «BBC», Lucy assume a importância que as suas duas atividades têm, até como complementares da sua vida como todo: «Em última instância, o que aprendi no triatlo – como determinação, perseverança e concentração num objetivo – também me farão uma médica melhor.» Da mesma forma, «trabalhar como clínico de oncologia, tratar pacientes com cancro, dá perspetiva às coisas» e fê-la «ter consciência de que é muito importante estar ciente do que se quer fazer com a nossa vida».

A opção atual está então feita. Os livros, os laboratórios, os consultórios e os hospitais são o que vai, por agora, ficar nas prateleiras. A britânica decidiu fazer dois anos sabáticos. E o que ficou em suspenso foi a medicina. Agora, é a altura do triatlo e da prova rainha do Ironman: o Campeonato do Mundo – no qual já participou duas vezes na categoria condicionada pelos escalões etários, mas nunca na categoria principal.



Lucy Gossage já participou em mais de uma dezena de Iroman, entre várias outras provas de triatlo, duatlo ou maratonas – como mostram as imagens da vitória em 2012 no Challenge Barcelona, com o tempo inferior a nove horas a colocá-la num grupo restrito de triatletas femininas (e tendo-se tornado a mais rápida atleta feminina de longa distância em solo espanhol). Em 2013 foi considerada a triatleta de longa distância feminina do ano pelo British Triathlon no seguimento dos triunfos em dois Ironman: do Reino Unido e do País de Gales.

Já no início deste ano, a também conhecida como «The Goss» ganhou o Spring Ballbuster sendo, em 25 anos de história da prova, a primeira atleta feminina a vencer as duas edições (de primavera e de inverno) deste duatlo. A carreira para um prémio Nobel da Medicina pode esperar. Lucy quer agora estar presente no Campeonato do Mundo Ironman, em Kona, no Havai. A primeira prova de qualificação em que vai participar é o Ironman da África do Sul, já no próximo domingo, dia 6.
Pedro Calhau