Costuma-se pensar no Brasil que toda grande história de amor tem um samba perfeito para explicá-la. Nesse sentido, a relação amorosa entre o Flamengo e Jorge Jesus pode ser muito bem contada por uma canção de Paulinho da Viola, notório vascaíno, mas que pode emprestar seus versos aos sentimentos rubro-negros neste momento.

Acredito que todos os adeptos do Flamengo possam hoje dizer que o Mister «Foi um rio que passou em minha vida».

A música de Paulinho da Viola traz a história de um amor arrebatador, à primeira vista, impossível de se resistir. No caso dele, pela Portela, sua escola de samba. No caso dos flamenguistas por um técnico português com ar de nosso avô.

O coração dos adeptos do Flamengo «tem a mania de amor».

A Nação, com sua intensidade, não hesita ao abraçar e transformar qualquer jogador meia-boca em ídolo. Vive da empolgação de paixões momentâneas, que não deixam frutos, apenas ocupam o coração à espera da pessoa certa. Afinal, diz Paulinho, «o amor não é fácil de achar».

E não foi fácil, mesmo.

Embora tenha sempre contado com craques na sua história, como Leônidas da Silva, Zico, Júnior, Adriano ou Petkovic, o Flamengo nunca se tinha apaixonado totalmente por um treinador, um líder de um projeto. Jorge Jesus chegou e logo mostrou ser o homem para ocupar essa lacuna.

Desde que pisou no Maracanã pela primeira vez, ele não perdeu. E, com o tempo, os torcedores passaram a ter a certeza de que, enquanto o Mister ali estivesse, nunca mais haveriam de ir para casa desolados. Foi este sentimento que, acima da confiança nos jogadores, arrebatou cada rubro-negro de amor e idolatria.

No fim de cada jogo, o ritual repetia-se: o primeiro ato de celebração sempre era o cântico «Olê, olê, olê, olê, Mister, Mister!».

Parecia que todos nas bancadas tinham a certeza de que a prioridade nas saudações ali deveria ir para Jorge Jesus. Sabe aquela vontade de dizer «Eu te amo» ao se sentir totalmente apaixonado?

Parecia ser esse o sentimento, mas vindo de mais de 60 mil corações diferentes a cada partida.

Essa paixão arrebatadora praticamente não encontrou resistência. Se o Mister falhava no onze ou na substituição, qualquer incómodo se dissolvia naquele mar de admiração.

Inicialmente, a admiração de quem confiava que o amor daria frutos. Depois, a admiração por quem havia feito muitos rubro-negros terem uma sensação inédita: ser campeão da América.

Num ano, Jorge Jesus foi tudo o que a Nação sempre sonhou, trouxe tudo que cada rubro-negro desejou. Impossível resistir. Ele passou como um rio pelos torcedores do Flamengo, que permitiram que os seus corações se deixassem levar. 

No fim do casamento, é normal que alguns prefiram os sentimentos negativos para aguentar a dor. Outros, só conseguem ver gratidão e afeto. Alguns, até sonham com um regresso.

Vinicius de Moraes, outro poeta, dizia que o amor deve ser infinito enquanto dura. E assim foi entre Flamengo e Jorge Jesus.

Hoje, o sentimento para muitos adeptos é de luto, como se a pessoa amada tivesse partido para sempre. Mas o que foi vivido será eterno: as conquistas, os sorrisos, todos os acenos daquele homem de cabelos grisalhos. Jorge Jesus foi muito amado.

Marcou, em pouco tempo, 42 milhões de corações para sempre.

Jorge Natan