Um dia antes de ser internado de urgência com dificuldades respiratórias, no Hospital de Santa Cruz, onde acabou por falecer, esta sexta-feira, Jorge Sampaio publicou um texto de opinião sobre a crise humanitária que mais choca o mundo por estes dias: a situação de milhões de afegãos - os que já estão fora do Afeganistão, os que tudo fazem para sair, e os que o terror e a barbárie dos talibãs impedem de pôr um pé na rua. O texto, publicado no jornal Público, tinha como título “Dever de solidariedade”. Dificilmente o título de um texto de opinião sobre os dias que correm poderia ser mais acertado como epitáfio de 81 anos de vida, dos quais 6 décadas foram dedicadas a causas públicas. 

Vale a pena reler, agora, esse texto. Está lá tudo o que é essencial, como se fosse um testamento. Não foi escrito com esse propósito; longe disso, tanto quanto sei. Apesar da fragilidade física que há anos era notória, e se acentuava, Sampaio mantinha-se atento à atualidade, lúcido, perspicaz e ativo. A pandemia fê-lo abrandar o ritmo, já não ia com a mesma regularidade ao seu gabinete de ex-Presidente da República, mas continuava a trabalhar e mantinha algumas rotinas.

Uma dessas rotinas, desde o primeiro confinamento, era o encontro diário do “Bando dos Quatro”, de segunda a sexta-feira, às 19 horas. Os quatro do dito “bando” eram Sampaio e três amigos de há décadas: o constitucionalista Jorge Novais, o médico José Gameiro e o especialista em saúde pública Jorge Simões. Em tempos de reclusão e confinamento, era um convívio diário a que Sampaio quase nunca faltava. Muitas vezes era o primeiro a avisar, ainda antes da hora marcada: “Já estou no terreno de jogo” - o dito terreno era o Zoom. Falavam dos temas do dia, sem ordem nem agenda, como fazem os amigos - da pandemia à política, do futebol à atualidade internacional… Mas raramente Sampaio se deixava ficar na conversa após as 20h - fazia questão de ver os noticiários da noite à hora certa. Estava sempre a par de tudo, lia os jornais, via os debates nas televisões, ligava a quem o podia informar quando a informação que lhe chegava não era suficiente.

E mantinha-se empenhado nas causas de sempre - liberdade, democracia, educação, diálogo, cooperação e busca de consensos, proteção dos mais vulneráveis, promoção da cidadania consciente e da abertura ao outro, com uma “cultura da tolerância, do conhecimento e respeito mútuos e uma coexistência pacífica entre os povos com base no direito internacional e na protecção dos direitos humanos”, como escreveu no texto derradeiro.

O ex-Presidente da República, que nos últimos anos se empenhou em garantir um futuro aos jovens de outro país onde um conflito se eterniza - a Síria -, assegurando bolsas de estudo através da Plataforma Global para os Estudantes Sírios (a que Sampaio presidia), anunciava nesse texto o alargamento do âmbito de atuação da Plataforma, para a criação de um Mecanismo de Resposta Rápida para o Ensino Superior nas Emergências. Para além do reforço do programa de bolsas para estudantes sírios - e libaneses, e de outras origens - Sampaio dava conta de “um programa de emergência de bolsas de estudo e de oportunidades académicas para jovens afegãs”.

“A solidariedade não é facultativa”, escrevia o antigo chefe do Estado no final desse texto, que citava o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos - “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Estava ali tudo, portanto.

Desde 2013 que Jorge Sampaio dirigia a Plataforma Global para os Estudantes Sírios, a sua última grande causa, que começou focada nos jovens da Síria e acabou por se alargar a rapazes e raparigas de vários territórios marcados por guerras. Foram atribuídas cerca de 650 bolsas anuais e já cerca de 135 bolseiros concluíram licenciaturas, mestrados ou doutoramentos graças a este projeto. As histórias de alguns deles foram contadas num livro lançado em junho passado - esse lançamento foi o último evento público em que Sampaio marcou presença, apesar da fragilidade da sua condição física, e dos cuidados acrescidos impostos pela pandemia. Sampaio estava sempre disponível para promover esta causa. E sempre atento à atualidade política, à mudança, às oportunidades e às ameaças. 

“A segunda década deste século tem sido marcada por turbulências crescentes no plano global, por uma degradação generalizada das relações internacionais e por um retrocesso das democracias”, notou Sampaio nessa sessão, sem esconder a preocupação com o “aumento” de regimes autoritários, a “força crescente” dos populismos e o “acumular de disfuncionamentos vários” nos mecanismos democráticos. 

Para alguém que, ainda estudante, já se batia pela liberdade e pela democracia, contra aquela que seria a mais longa ditadura europeia do século XX, era iniludível o desconforto com um século XXI que, em vez da continuação das vagas democráticas inauguradas com a revolução portuguesa, trouxe o refluxo dessa história. Os mecanismos democráticos, lamentou Sampaio, “têm tardado em ajustar-se aos desafios trazidos pelas profundas transformações em curso em todos os planos, da economia ao trabalho, passando pelas alterações climáticas, pela saúde pública, pelos canais de comunicação digital e pela organização social, em geral”, afirmou.

O “ex-quase-tudo”

A 18 de setembro de 2019, dia em que Sampaio fez 80 anos, e o PS se vestiu de gala para o homenagear, António Costa, o mais bem sucedido de todos os que saíram das fileiras do “sampaísmo”, louvou no amigo “Jorge” as qualidades de “homem tranquilo, fleumático, quase britânico, [que] foi sempre capaz de fazer ruturas”. E elogiou o espírito desassossegado de quem, “depois de já ser ex-quase-tudo, continua a ser um militante em defesa dos Direitos do Homem, da Democracia e da Liberdade”, em vez de se limitar a “gozar tranquilamente a vida”. “Tinha todo o direito de estar a gozar a tranquilidade da vida, mas a vida traz-lhe intranquilidade”, constatou o primeiro-ministro, citando o trabalho feito em prol dos refugiados sírios. 

Dois deles deram o seu testemunho nesse fim de tarde, que juntou gente de todos os “ismos” do PS na sede do partido que Sampaio liderou entre 1989 e 1991 - lá estavam os “sampaístas”, que o apoiavam, os “soaristas”, que conspiravam contra ele a partir do Palácio de Belém, e os “guterristas”, que o derrubaram na mais fratricida disputa da história de um partido com um historial marcado por disputas dolorosas. 

“É muito agradável estar aqui convosco, não costumo fazer isto tudo sem chorar um pouco…”, deixou cair, com o seu humor fino, britânico, ironizando com a facilidade com que costumava chorar em público. O lusco-fusco de setembro dava àquele reencontro a tranquilidade serena dos ocasos. Um quarteto de cordas ia de encontro à veia melómana do homenageado, tendo sido a música uma das maiores paixões da sua vida. Se aparecesse o Figo ou o Cristiano Ronaldo a dar toques numa bola, ninguém se espantaria, tendo em conta a sua outra grande paixão pelo futebol e pelo Sporting.

No lugar onde durante dois anos foi líder partidário, e onde diz que foi feliz, Sampaio não esqueceu os sucessos, os fracassos, e as conspirações. “Sinto que aqui não tenho de justificar nada, que me perdoam as faltas, e que temos a capacidade, que não devemos em caso nenhum alienar, de ser uma entidade plural, onde o espaço ideológico é vasto, onde a construção tem de ser permanente, a abertura ao porvir é permanente e onde o espírito está aberto para o que deve ser a discussão viva, a discordância, mas que não é obviamente a conspiração...” Sampaio sorriu com a sua própria farpa; a audiência sorriu também.

Estavam todos unidos para celebrar o combatente contra a ditadura, o construtor de consensos entre os moderados da novel democracia, o brilhante parlamentar socialista, o controverso líder do partido, o candidato autárquico que reescreveu a história da esquerda portuguesa, o candidato presidencial que inflingiu a única derrota sofrida por Cavaco Silva. 

Recapitulando: líder estudantil, candidato oposicionista, ativista político e advogado de presos políticos durante a ditadura. Depois, em democracia, fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES), dinamizador do Grupo de Intervenção Socialista (GIS); militante do PS a partir de 1978, partido onde foi dirigente nacional, deputado, líder parlamentar, responsável pelas relações internacionais e secretário-geral; presidente da Câmara Municipal de Lisboa à frente da primeira coligação PS-PCP; Presidente da República; Enviado Especial da ONU para a Luta contra a Tuberculose e Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. 

“Ex-quase-tudo”, como o rotulou, e bem, António Costa, que em 1989 foi um dos artífices dessa candidatura autárquica a Lisboa que juntou pela primeira vez PS e PCP, e que, anos mais tarde, beneficiou dessa experiência para inventar a “geringonça”.

O oposicionista

Filho mais velho de Arnaldo Sampaio, médico de saúde pública que chegou a diretor-geral de saúde, e da professora de inglês Fernanda Bensaúde Branco (que teriam um segundo filho, o psiquiatra Daniel Sampaio), Jorge Fernando Branco de Sampaio nasceu em Lisboa em setembro de 1939. Descendia de famílias da burguesia nortenha e açoriana. Do lado materno, era neto de um oficial da Armada, Fernando Branco, tripulante do primeiro submarino português e participante no golpe de 28 de maio de 1926, que pôs fim à desordem da I República e instituiu a ditadura militar que haveria de abrir caminho ao Estado Novo. O avô de Sampaio chegou a ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1930 e 1932, sendo afastado quando Salazar alcançou a presidência do Conselho de Ministros.

Jorge Sampaio com a mãe

A avó materna, Sara Bensaúde, açoriana de Ponta Delgada, vincava a sua ascendência judaica acrescentando um H ao nome próprio, assinando Sarah. Será em casa da avó Sarah, em Campo de Ourique, que Jorge vive quando começa o seu percurso escolar - os pais moram então em Sintra, mas fazem questão de que o filho frequente o colégio inglês, em Lisboa. Durante três anos foi aluno da Queen Elizabeth’s School, tornando-se fluente em inglês, que começou a aprender em casa com a mãe. 

Os pais levaram-no entretanto noutra aventura em língua inglesa. Em 1947, Arnaldo Sampaio - então chefe dos Serviços de Bacteriologia Sanitária do Instituto Ricardo Jorge - embarca com a família para Baltimore, nos Estados Unidos, onde faz um mestrado em saúde pública. Na escola americana onde frequenta a 3ª classe, Sampaio inicia-se na prática de falar em público - uma atividade comum no ensino norte-americano. É também durante esse ano que passa em Baltimore que Sampaio desenvolve uma das suas paixões: o piano. Pratica o instrumento, entra para a orquestra do Conservatório, assiste a um concerto dirigido por Leonard Bernstein. O talento para a música podia ter-lhe dado uma carreira, mas Sampaio foi sempre um músico amador - no sentido etimológico da palavra, pois amava a música.

O fascínio de Sampaio pela América perdurará, convivendo com o peso da francofonia, que era dominante na sua geração, e uma forte veia britânica - no verão de 1952, Jorge teve umas marcantes férias em Londres (onde o pai estava a desenvolver uma investigação), que aproveitou para aperfeiçoar a língua inglesa e para assistir a um debate no Parlamento britânico, com Winston Churchill a liderar a bancada do Governo. Foi com a mãe nessa visita à Câmara dos Comuns, mas às tantas ficou sozinho, absorto com a troca de argumentos, apesar de ter apenas 13 anos. “Achei aquilo uma maravilha”, diria mais tarde.

O gosto pela política já lá estava, mas só havia de se manifestar publicamente anos mais tarde, com Sampaio já no curso de Direito, na Universidade de Lisboa. A campanha presidencial de Humberto Delgado, que o apanha a meio do curso, dá-lhe a motivação para um maior protagonismo político a que até então havia resistido. Desde caloiro que estava envolvido com a Associação de Estudantes, então presidida por António Serra Lopes, mas só assume a liderança fa AE no último ano. 

No seu primeiro lugar de liderança, faz o que faria ao longo de toda a sua vida política: reúne na AE todas as tendências e sensibilidades, recusando os purismos facciosos em que a história da esquerda é tão rica. Juntou os comunistas, os opositores tradicionais ao regime, os católicos progressistas e os apartidários. “Ele era o ponto de equilíbrio em relação às fações mais radicais da faculdade: quer da esquerda, que advogava medidas mais drásticas contra o regime, quer da direita, com as suas provocações sistemáticas”, recordaria Joaquim Mestre, colega de curso e um dos teóricos do grupo de Sampaio, citado numa reportagem publicada pelo Expresso em 1996.

Em 1962, já Sampaio não era estudante nem presidente da AE - já cumpria o estágio de advocacia -, quando protagonizou o primeiro grande momento de confronto dos universitários com o Estado Novo. Em março, Sampaio cumpria a parte final do mandato como presidente da RIA (Reunião Inter-Associações), quando o regime proíbe as celebrações do Dia do Estudante. Direito, Letras e Medicina promovem uma grande contestação, e acaba por ser Sampaio quem dá a cara como representante de todo o movimento, que decreta greve às aulas. Foi um dos maiores abalos sofridos pelo regime até então - a demissão de Marcello Caetano do cargo de reitor da Universidade de Lisboa dá bem conta do impacto desse protesto, que evoluiu para uma greve de fome na cantina universitária e terminou com a detenção de centenas de alunos. Entre eles, Sampaio, que esteve três dias preso em Caxias.

A notoriedade que então ganhou valeu-lhe uma atenção redobrada da PIDE e a reputação de defensor dos opositores do regime, já como advogado em plenitude de funções. Essa foi uma das suas principais ocupações até à queda da ditadura, defendendo dezenas de presos políticos, entre eles os amigos Medeiros Ferreira e Ferro Rodrigues.

O resto do tempo era para a política. O espaço em que Sampaio acreditava - e acreditou a vida toda - ficava entre os que não gostavam da ortodoxia do PCP e os que queriam mais do que a oposição democrática tradicional. Mas falava com uns e com outros, sem hostilizar ninguém. Encontrou-se em Paris com o exilado Álvaro Cunhal, sob enorme secretismo; encontrava-se frequentemente com Soares; convivia com os católicos de esquerda, tendo escrito no primeiro número de “O Tempo e o Modo”, onde Soares também assinava uma reflexão, ao lado das melhores cabeças da nova esquerda. A capacidade de diálogo de Sampaio levantava suspeitas entre os duros dos vários lados - assim seria por todo o seu percurso.

O socialista

Em 1969, quando a “primavera marcelista” promoveu um simulacro de democracia, com eleições para a Assembleia Nacional, as oposições ao Estado Novo tentaram reunir as suas várias declinações. Numa reunião secreta, juntaram-se as diversas fações oposicionistas, e Mário Soares, recém-chegado de  São Tomé e Príncipe, para onde fora deportado, logo organizou os presentes de acordo com as várias famílias oposicionistas: comunistas, socialistas, democratas-cristãos e… um punhado de inclassificáveis, de posicionamento mais difícil de definir. Um destes últimos protestou: “Não se importa que eu também seja socialista?”. Era Sampaio.

Cedo ficou claro que os dois homens tinham ideias distintas sobre o que deveria ser um partido socialista em Portugal, e como este se devia posicionar. Nas eleições de 1969, Sampaio envolveu-se ativamente na CDE (Comissão Democrática Eleitoral), que estava ligada ao PCP (ilegalizado) e juntava muita oposição católica; Soares promoveu a CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática), mais alinhada com o que viria a ser o PS. 

Em 1974, após a revolução, Soares voltou a Portugal em glória, com o PS já lançado a partir do exílio; Sampaio ajudou a fundar o Movimento de Esquerda Socialista, a sua ideia alternativa de partido socialista. Também por lá andavam Augusto Mateus, José Manuel Galvão Teles, César de Oliveira e Eduardo Ferro Rodrigues, entre muitos outros. Sampaio, apesar de fundador, mal aqueceu o lugar - saiu do MES no final desse ano, após o primeiro congresso, por discordar do cunho excessivamente radical que estava a ser dado ao partido.

Num tempo em que o radicalismo era salvo conduto, Sampaio fez pontes entre os moderados do novo regime: era próximo de Ernesto Melo Antunes, o intelectual do Grupo dos Nove, que chegou a ser brevemente ministro dos Negócios Estrangeiros no IV governo provisório, tendo Sampaio como secretário de Estado. Também João Cravinho, companheiro de Sampaio no MES e na rutura com o MES, foi secretário de Estado nesse governo.

Os ex-MES passaram a ser uma espécie de entidade política inorgânica, e parecia escrito nas estrelas que acabariam por desaguar no PS. Antes disso, ainda houve o Grupo de Intervenção Socialista (GIS) - aquilo a que hoje se chama um think tank - que procurava formas de forjar uma frente de esquerda e o diálogo entre o PS e o PCP. 

Nesse tempo em que a política era a ferro e fogo, e os consensos eram uma miragem, sobretudo à esquerda, Sampaio foi o inventor de uma fórmula que permitiu às esquerdas celebrarem, juntas, o 25 de abril de 1977, que marcava também o primeiro aniversário da aprovação da Constituição. Num tempo em que PS e PCP não se entendiam nem sobre o desfile na Avenida da Liberdade, Sampaio - que então não militava em partido nenhum, mas era reconhecido por todos -, inventou o slogan “25 de abril sempre!” como mote para que todos descessem juntos a avenida.

Sampaio, que já era socialista antes de haver PS, demorou a ser do PS. Só em 1978 aceitou filiar-se, um passo negociado com o próprio Soares, que então liderava um governo de coligação PS-CDS, e precisava de mais esquerda no partido e no Governo para equilibrar esse entendimento com o partido de Freitas do Amaral. Sampaio recusou ir para o Governo, mas entrou no PS como uma vedeta, juntamente com 35 companheiros da aventura do MES e do GIS.

A ascensão no PS foi fulgurante: deputado, membro do secretariado nacional, líder parlamentar. Quando Soares se auto-suspendeu da liderança do PS por se recusar a apoiar a recandidatura presidencial de Ramalho Eanes, Sampaio fazia parte do ex-Secretariado, que fez frente ao fundador do partido. No ex-Secratariado estavam os três nomes que sucederiam a Soares à frente do PS a partir de 1985, após o breve interregno da liderança de transição de Almeida Santos: Vítor Constâncio (1986), Jorge Sampaio (1989) e António Guterres (1992).

O Presidente, parte I

Em 1989, não era suposto ter sido Jorge Sampaio. O PS ainda lambia as feridas da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, conquistada dois anos antes, Constâncio tentava sobreviver ao vendaval cavaquista e, em simultâneo, às pressões de Mário Soares, que a partir do Palácio de Belém continuava a manobrar o partido. No meio destas tormentas, Constâncio tinha uma decisão ponderosa: a escolha do candidato à Câmara de Lisboa. Quem Constâncio queria não estava disponível; quem estava disponível (João Soares, apoiado pelo pai), Constâncio não queria. Constâncio acabou por se demitir.

António Guterres devia ser o senhor que se seguia - controlava todo o aparelho do PS, era de longe quem tinha mais trabalho feito para ficar com o lugar. Mas Sampaio antecipou-se e, um dia de manhã, convoca a comunicação social para anunciar que é candidato a secretário-geral do PS. Guterres reserva-se, Sampaio vence facilmente contra Jaime Gama, apoiado pela ala soarista. O seu primeiro desafio como líder era… encontrar o candidato a Lisboa que Constâncio não tinha conseguido arranjar.

Foi uma decisão solitária, empurrada pela falta de alternativas, literalmente para salvar a pele, como confessou a José Pedro Castanheira no livro “Jorge Sampaio - Uma Biografia”. “Fechei-me em casa durante um dia inteiro, completamente enrascado, e decidi em frente ao espelho: sou eu! Percebi que não havia outra saída” - Sampaio, recém-eleito secretário-geral do PS, estava a caminho de uma nova disputa eleitoral, desta vez, pela presidência da Câmara de Lisboa.

O partido foi apanhado de surpresa, o país político também, pois nunca um candidato a primeiro-ministro se havia desviado desse caminho para um desafio autárquico. Apesar do risco, não houve quem não lhe reconhecesse a coragem - estando em causa a capital, e uma autarquia onde os socialistas nem chegavam aos 20%. A direita acusava algum desgaste autárquico, depois dos anos de Kruz Abecasis, que culminaram com o dramático incêndio do Chiado, mas a escolha de Marcelo Rebelo de Sousa para liderar a coligação prometia insuflar novo ânimo por essas bandas. Marcelo esperava qualquer dos adversários previsíveis por parte do PS… menos Sampaio.

Quando Marcelo avançou, acreditou que Lisboa eram favas contadas - a autarquia seria o seu trampolim para outros voos políticos. Teve azar. Nem a sua lendária perspicácia como analista político lhe valeu. Como se não bastasse ter de enfrentar na luta pela câmara o líder do maior partido da oposição e candidato a primeiro-ministro, o constitucionalista teve uma segunda surpresa, ainda mais improvável: ia concretizar-se a coligação “impossível” entre PS e PCP (quebrar a grande força eleitoral da esquerda no concelho).

O amigo e líder parlamentar comunista Carlos Brito foi o primeiro a saber das intenções de Sampaio. Álvaro Cunhal, que o conhecia desde o encontro clandestino em Paris, encarou o projeto com bons olhos. Tinha potencial eleitoral, e em pleno cavaquismo, as consequências de uma recusa podiam ser muito pesadas - “Tanto mais que era o PS que, pela primeira vez, propunha uma aliança e seria desastroso se fosse o PCP e o próprio Cunhal a dizerem que não”, recordou Nuno Brederode Santos na biografia de Sampaio. O acordo fez-se, com José Saramago como nº1 da coligação à Assembleia Municipal.

“A viabilização de uma aliança para a Câmara de Lisboa não estava no ADN do PS na altura, nunca esteve, mas achei que a única maneira de romper o status quo (...) mas não foi bem aceite nessa altura em parte do PS”, disse Sampaio numa entrevista ao Público por ocasião dos seus 80 anos. “Acho que foi fundamental ter rompido a fronteira que limitava a possibilidade de várias soluções políticas, acho que isso foi decisivo” - foi-o para a vitória da esquerda em Lisboa, em 1989, como seria para que a esquerda chegasse ao poder no governo do país, em 2015, com um acordo de “geringonça” forjado por António Costa, um dos negociadores do acordo de 1989 que permitiu a coligação de Lisboa.

Sampaio não só conquistou a capital, como o PS cantou vitória nessas autárquicas a nível nacional. Mas o embate eleitoral seguinte foi menos feliz. Em 1991, Cavaco voltou a varrer o país com a sua onda laranja, reforçando a maioria absoluta. Guterres, que estava em stand by desde que Sampaio se lhe antecipara em 1989, não arriscou perder um minuto que fosse. “Estou chocado”, disse, sobre o resultado socialista, ainda as contas nem estavam fechadas, com isso abrindo um dos combates internos mais dolorosos da história do PS. Sampaio sabia que teria poucas hipóteses de vencer, contra o homem que há anos se preparava para aquela disputa. Guterres era o homem de partido que Sampaio nunca fora. Naturalmente, António venceu. Mas Jorge vendeu cara a derrota. 

O Presidente, parte II

Apesar dessa derrota, Jorge Sampaio manteve-se em alta graças ao palco de Lisboa - e foi reeleito em 1993, outra vez em coligação com o PCP. E ainda o champanhe dessa vitória estava frio, já Sampaio pensava em outros voos.

Decidiu ser candidato presidencial, e apresentou-se como tal, sem pedir apoio nem licença ao seu partido. “Apenas comuniquei que iria ser candidato e aguardei que o partido se pronunciasse.” Guterres foi avisado por telefone, três dias antes da declaração de candidatura. “Não pode adiar uns dias?”, pediu-lhe o secretário-geral do PS, alegando que “o partido ainda não está preparado”. Mas Sampaio estava, e avançou.

O anúncio de que seria candidato foi feito a 7 de fevereiro de 1995, na Cidade Universitária, o lugar onde havia travado as suas primeiras lutas políticas. Os comentadores de política não gostaram do tom austero do anúncio, houve quem escrevesse que tinha sido um “ato falhado” e quem jurasse que Sampaio nunca chegaria a Belém. O PS acabou por o apoiar - apesar do desagrado de muitos, a verdade é que quando Sampaio se apresentou como candidato, já alguns homens de Guterres estavam envolvidos nas reuniões de planeamento, nomeadamente o todo-o-terreno Jorge Coelho.

A proclamação da Cidade Universitária foi apenas a confirmação de um projeto presidencial que se começou a desenhar bastante antes, e de que Sampaio deu sinal público no início de 1994, apenas dois meses depois de ter sido reeleito como presidente da CML. Numa entrevista ao Expresso, cuidadosamente preparada e coreografada, sobre o segundo mandato autárquico mas em que seria feita uma pergunta sobre as eleições presidenciais de 1996, Sampaio deu a resposta preparada palavra a palavra com o seu amigo e conselheiro Brederode Santos: “Não deixaria de ser estimulante (...) saber que me iria confrontar com o Professor Cavaco Silva.” 

De uma penada, Sampaio colocava-se na pole position presidencial, e espicaçava o adversário desejado - o mesmo homem que lhe havia imposto uma pesada derrota nas legislativas de 1991, mas a quem o socialista se sentia em condições de bater, numa aguardada desforra já com Cavaco em fase de enorme desgaste político. Mais do que isso, Sampaio acreditava que o país não podia ser sujeito a mais dez anos de cavaquismo e sentia-se como a pessoa melhor preparada para suceder a Soares em Belém.

Esse primeiro passo, preparado com a cumplicidade de um punhado de amigos, onde se incluíam Brederode, Lopes Cardoso ou José Gameiro, apanhou o PS de surpresa. “Fui sempre muito independente no meu julgamento”, dizia Sampaio de si próprio. Assim era. Há quem garanta que nunca foi um homem de partidos, mas de amizades políticas. Por isso se desvinculou do seu primeiro partido poucos meses depois da sua criação. Enquanto liderava o PS era acusado de atuar em petit comité e decidir sozinho, e poucas vezes by the book. Não eram acusações infundadas.

Depois de dado o tiro de partida, em fevereiro de 1994, o PS acabou por ser envolvido no longo tirocínio para as eleições presidenciais, que só aconteceriam em janeiro de 1996, com umas legislativas de permeio, em outubro de 1995. Sampaio não se coordenou apenas com a sua família política. Enquanto Soares e parte do PS tudo faziam para encontrar ainda um candidato alternativo (até uma candidatura de Maria Barroso foi considerada!...), Sampaio alargava os contactos à esquerda, de Francisco Louçã aos dissidentes do PCP, passando por Carlos Brito, que voltou a fazer a articulação com a cúpula do PCP. Quando Brito informou Álvaro Cunhal sobre o projeto presidencial de Sampaio, o velho comunista não escondeu o entusiasmo. A aproximação de Lisboa havia dado bons resultados e Cunhal admirava Sampaio e reconhecia-o como um homem de esquerda, ao contrário de muitos outros no PS: “É o Presidente mais à esquerda que podemos ter em Portugal. Temos de fazer tudo para assegurar a sua eleição”, terá reagido o histórico comunista. O apoio concretizou-se com a desistência de Jerónimo de Sousa, apelando ao voto em Sampaio.

Antes do arranque da campanha, Sampaio lançou em livro o seu “olhar sobre Portugal”, respondendo às perguntas de meia dúzia de personalidades. Logo nas primeiras páginas, assumia ao que vinha: filiava-se na “esquerda moderna”, fazia sua a “fórmula feliz” de Jacques Delors - “A cada um segundo as suas necessidades essenciais” - e afirmava que “a causa maior da esquerda portuguesa, hoje, é a causa da solidariedade, do mesmo modo que antes da Revolução de Abril a causa maior era a da liberdade”.

A campanha presidencial foi uma serenata à chuva, que caiu sem dar tréguas praticamente todos os dias. De ambos os lados foi uma campanha moderna, com focus groups, media training, técnicos de comunicação e sondagens que iam alimentando o espetáculo das televisões privadas. Sampaio começou com algum défice de notoriedade - apesar de ter sido líder do PS, candidato a primeiro-ministro, e de ter presidido à principal autarquia do país, não estava no nível de reconhecimento popular que Cavaco conquistara ao fim de dez anos à frente do Governo - mas esse senão depressa foi compensado percorrendo o país. Em contrapartida, o desgaste da governação não dava asas a Cavaco para repetir as maiorias absolutas do passado.

A vitória acabou por ser previsível. Nem  o talento de Sampaio para dar tiros nos pés a impediu - como a entrevista em que assumiu ter votado em Otelo nas primeiras eleições presidenciais, ou o momento em que reconheceu não ser católico, num país onde essa era a regra: “Infelizmente não fui tocado pela fé”, confessou. Costa, seu diretor de campanha, e os profissionais da propaganda política, nem queriam acreditar… Para quê ir ressuscitar Otelo? Para quê assumir a sua falta de fé?... “Cheguei aqui sendo o que sou”, respondia Sampaio, e a resposta ficou registada no livro-reportagem sobre essa vitória, escrito pelo jornalista José Ferreira Fernandes.

Na noite eleitoral de 14 de janeiro de 1996, não houve sequer suspense - as sondagens divulgadas pelas tvs anunciaram desde o primeiro minuto a vitória de Sampaio à primeira volta. Os resultados confirmaram-no: 54% para o socialista; 46% para o social-democrata. “We did it!”, exclamou em inglês, dirigindo-se à mãe.

“Ouvirei as pessoas. Não deixarei de dar voz, no quadro das minhas competências, aos excluídos do sistema ou das políticas”, prometeu na primeira intervenção como recém-eleito “Presidente de todos os portugueses”. Mas não seguiu os escrúpulos de Soares ou Cavaco, que se desfiliaram dos seus partidos para entrarem o modo presidencial. “Não é preciso entregar o cartão partidário para ser isento e responsável na mais alta na mais alta magistratura do Estado”... “o Presidente está acima dos partidos, este é o momento em que os nossos destinos se distinguem”.

Assim foi. Se decidiu sozinho a candidatura a Belém, também correu o risco de acabar isolado o seu trajeto presidencial, quando, em 2004, aceitou dar posse a Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro, contra a posição de toda a esquerda e em particular do seu PS. O partido era então liderado por Eduardo Ferro Rodrigues, compagnon de route de Sampaio desde os tempos em que este se destacara como advogado na defesa dos presos políticos e, mais tarde, na militância no MES, e no trajeto paralelo que culminaria com a filiação de ambos no PS.

Era total a oposição de Ferro Rodrigues à substituição de Durão Barroso por Santana Lopes, para que Barroso pudesse presidir à Comissão Europeia. Poucas semanas antes, o PS tinha esmagado a coligação PSD-CDS nas eleições europeias, que dava sinais acentuados de desgaste eleitoral. Tinham passado apenas dois anos desde que Ferro perdera por pouco as legislativas contra Durão, numas eleições inesperadas, provocadas pela demissão de António Guterres. A saída de Barroso podia ser, com alta probabilidade, o bilhete de Ferro Rodrigues para chegar ao poder. Sampaio não se deixou convencer.

Manteve o acordo que havia feito com Durão Barroso, para que, pela primeira vez, um português pudesse presidir à Comissão Europeia: a sua substituição por Santana, sem convocação de eleições, pois havia uma maioria estável no Parlamento.

A decisão custou-lhe a rutura com Ferro e outros amigos de sempre, a incompreensão da esquerda e sobretudo do PS, que entretanto elegeu José Sócrates como líder. Nem na Casa Civil da Presidência a decisão de Sampaio foi bem aceite. O ambiente no palácio era de cortar à faca, e talvez nunca um Presidente se tenha sentido tão isolado. Mas demorou pouco até Sampaio ser aplaudido pelos que o criticaram, e atacado pelos que o haviam aplaudido: perante a indecente e má figura do Governo de Santana Lopes, Sampaio acabou por convocar eleições ao fim de apenas cinco meses. 

Tudo o que podia correr mal correu mal, desde um atabalhoado discurso de tomada de posse até uma série de “episódios rocambolescos”, incluindo a estrepitosa saída de Marcelo Rebelo de Sousa no seu espaço de comentário na TVI, queixando-se de pressões do Governo. A gota de água foi uma atabalhoada remodelação governamental que culminou com a rutura entre o primeiro-ministro e um dos ministros que lhe eram mais próximos, Henrique Chaves.

Apesar de ter sido uma decisão demorada, precedida de muitas audiências e de horas de discussões, acabou por ser uma decisão solitária. Sampaio tinha a profunda convicção de que a coligação, apesar de contar com o apoio de uma maioria parlamentar, já não tinha suporte eleitoral. “A verdade é que a maioria absoluta estava a desconjuntar-se”, e Santana “estava a deixar o país à deriva”, justificaria ao seu biógrafo. “De vez em quando é preciso dar a voz ao povo - e percebi qual era o sentimento do povo.”

Não se enganou. O PS de José Sócrates venceu com maioria absoluta; o PSD de Santana teve um dos piores resultados da sua história. Se se enganasse, Sampaio sairia de Belém pela porta pequena - mas jura que nunca pensou demitir-se se tal ocorresse. “Se o povo se pronunciasse contrariamente ao que eu supunha, paciência! Mas ficaria sempre muito diminuído e enfraquecido nas minhas capacidades e poderes.”

Quando acabou o segundo mandato, Sampaio tinha convivido com todas as hipóteses de maiorias (e minorias) governamentais: um governo minoritário do PS, liderado por Guterres e, depois, outro apoiado por exatamente meio Parlamento (115 deputados para o PS, 115 para a oposição); uma coligação PSD-CDS liderada por um primeiro-ministro eleito (Durão Barroso) e por um primeiro-ministro não eleito (Santana Lopes) e um governo PS de maioria absoluta, dirigido por José Sócrates. 

A indigitação de Santana Lopes e, depois, a opção pela bomba atómica, foram os momentos politicamente mais marcantes, mais delicados e mais relevantes da década de Sampaio em Belém. Os que fizeram correr mais tinta e acicataram mais ânimos, com zangas monumentais e promessas de ajustes de contas. É o que ficará para a História política, a par de uma frase, muitas vezes citada, embora nem sempre com o contexto necessário para a entender: “Há mais vida para além do Orçamento”, o alerta lançado pelo PR no discurso do 25 de abril de 2013, quando o governo da coligação PSD-CDS já levava um ano de políticas de austeridade (oito anos depois, com o resgate financeiro e a chegada da troika, o Orçamento e o défice tornar-se-iam o alfa e o ómega da vida política nacional).

E, depois, há inúmeros momentos, mais discretos, menos impactantes, as pequenas histórias, sem H grande, mas que mostram a cepa de que é feito o homem, com H. 

Um desses momentos, sem sombra de impacto político, mas que revela bem o homem político, ocorreu em janeiro de 1998, durante uma “Presidência Temática” (como então se chamavam as Presidências Abertas inventadas pelo seu antecessor em Belém) sobre educação. Não teve o espalhafato das “Presidências Abertas” de Soares; nem a solenidade dos “Roteiros” de Cavaco, nem o frenesi dos programas de “Portugal Próximo” de Marcelo. Com Sampaio era sempre tudo mais morno.

Nesse dia, as cinquenta pessoas que compunham a caravana de Presidente, staff e jornalistas percorreram quilómetros a perder de conta, em curvas e contracurvas, para chegar a uma aldeola perdida na Serra do Marão onde viviam umas 40 almas: Mafómedes. Duas dessas almas eram as gémeas Oriana e Andreia, de dez anos, que tinham completado a quarta classe com boas notas mas não podiam continuar a estudar, pois eram as únicas alunas da aldeia, a escola tinha fechado e os pais não tinham meios de as mandar estudar na escola mais próxima. Sampaio estava ali de propósito para chamar a atenção para aquele caso - e resolvê-lo. 

O relato da jornalista Rosa Pedroso Lima, então publicado no Expresso, é uma delícia: “Muito despachado, [Sampaio] senta as crianças nos bancos da escola abandonada, reúne a mãe, o pai, a presidente da câmara de Baião, Emília Pereira Silva, e o ministro da Educação, Marçal Grilo, para dar ao mundo ‘uma lição sobre os poderes’. Pede respostas rápidas e a mãe, às primeiras palavras, estremece em lágrimas. ‘A senhora não chore, porque eu não sou padre’, adverte o Presidente. A mulher contém-se, encolhe os ombros e continua a ‘aula’: ‘Quem tiver poderes que resolva este problema.’ Por ela, as filhas ficam na terra. ‘Precisam de aprender a trabalhar.’ (...) Os ‘poderes’ centrais pasmam. Mas o assunto resolve-se. No dia seguinte à visita presidencial, as duas gémeas tinham carro camarário à porta para as conduzir à Escola Básica Mediatizada - vulgo, telescola - mais próxima.”

Oito anos depois, quando se aproximava do final do segundo mandato, Sampaio convidou as duas jovens, a quem nunca perdeu o rasto, para um almoço. O Presidente foi a Coimbra de propósito para esse encontro, pois as gémeas já estudavam nessa cidade, uma Direito, a outra Radiologia. 

As palavras que Sampaio tinha escrito no início do primeiro mandato pareciam fazer mais sentido nesse momento em que se aproximava o adeus a Belém: “O desafio está, para o Presidente, em ser denodadamente esse fator de equilíbrio e segurança do regime, mas numa perspetiva dinâmica e agregadora, esperançosa contra a lamúria, dignificadora das instituições, próxima das pessoas e dos seus problemas. O Presidente da República deve, no meu entendimento, ser um infatigável lutador por uma democracia moderna, por um sistema que propicie uma crescente igualdade de oportunidades, e que seja capaz de sacudir a rotina, a passividade intolerável das burocracias instaladas e os interesses ‘neocorporativos’ que impedem as mudanças necessárias.”

Num outro texto, Sampaio revelou aquilo que dizia a si próprio enquanto ocupava a mais alta magistratura da Nação: “Sê como és e sempre foste; vai fazendo o teu caminho, tentando todos os dias perceber o que de novo se passa à tua volta.” 

Foi esse o seu mote antes, durante e depois de Belém. Jorge Sampaio foi sempre como era e tentou entender, a cada dia, o que de novo se passava à sua volta. Até ao fim.