A Amnistia Internacional apela aos EUA que suspendam as acusações de espionagem ao fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, e ao Reino Unido que não o extradite, sob pena de se cometer uma violação grave dos direitos humanos.

O apelo da Amnistia Internacional é divulgado três dias antes da audiência de extradição, que começa na segunda-feira em Londres.

“As acusações contra Julian Assange resultam diretamente da publicação de documentos divulgados como parte do seu trabalho com o Wikileaks”, refere a Amnistia Internacional, em comunicado divulgado, esta quinta-feira.

“Essa atividade, por si só, não deve ser punível e reflete uma conduta que os jornalistas investigadores realizam regularmente”, sublinha.

Caso os Estados Unidos não retirem as acusações, permitindo a libertação imediata do ativista australiano, “as autoridades do Reino Unido devem garantir que Julian Assange não é extraditado para os EUA, onde pode enfrentar um risco real de violações graves dos direitos humanos”, avisa a organização humanitária.

“A incansável perseguição do Governo dos EUA a Julian Assange por ter publicado documentos divulgados que incluíam possíveis crimes de guerra cometidos pelas forças armadas norte-americanas não é senão um ataque em larga escala à liberdade de expressão”, defendeu o vice-presidente da Amnistia Internacional para a Europa, Massimo Moratti.

“O potencial efeito inibidor sobre jornalistas e outras pessoas que expõem irregularidades ao publicar informações de que têm conhecimento por fontes em quem confiam pode ter um impacto profundo no direito do público de saber o que seu Governo está a fazer”, explicou.

“Se as acusações [contra Julian Assange] não forem retiradas, as autoridades do Reino Unido têm a obrigação clara e inequívoca de não o enviar para os EUA, onde poderá sofrer graves violações dos direitos humanos”, disse Massimo Moratti.

Para o responsável da organização, “Julian Assange pode enfrentar condições de detenção nos EUA que equivalem a tortura e outros maus-tratos, incluindo isolamento prolongado na prisão”.

Além disso, acrescentou, “o risco de um julgamento injusto é muito real, dada a campanha pública direcionada contra ele, realizada por autoridades norte-americanas aos mais altos níveis”.

Lembrando que lançou recentemente uma petição global a apelar à libertação ou não extradição de Assange, a Amnistia Internacional sublinha que “a lei e os padrões internacionais de direitos humanos proíbem a transferência de um indivíduo para outro país onde exista um risco real de enfrentar sérias violações de direitos humanos”.

O fundador do portal WikiLeaks recebeu na segunda-feira o apoio de 117 médicos e da organização Repórteres Sem Fronteiras, que denunciaram a “tortura psicológica” infligida a Julian Assange.

Em carta publicada na revista médica britânica The Lancet, um grupo de médicos de 18 países acusou o Governo de Londres de atentar contra o direito fundamental de Assange ter acesso a cuidados de saúde, uma semana antes de a justiça do Reino Unido examinar o pedido de extradição deste australiano, de 48 anos, detido na prisão de alta segurança de Belmarsh.

“Se Assange viesse a morrer numa prisão britânica”, como avisou em novembro o relator especial da ONU para a tortura, Nils Melzner, “teria sido efetivamente torturado até à morte”, escreveram os signatários.

Desde que Assange foi examinado por um médico em 2015 na embaixada do Equador em Londres, onde tinha encontrado refúgio três anos antes, as recomendações dos médicos foram “ignoradas sistematicamente”, acrescentaram.

Denunciaram também “uma politização dos princípios fundamentais da medicina, cujas implicações ultrapassam o caso de Julian Assange”.

Os signatários concluíram com “a exigência aos governos de acabarem com a tortura de Assange e de lhe garantir o acesso aos melhores cuidados, antes que seja demasiado tarde”.

Detido em abril de 2019, na embaixada do Equador, Assange é alvo de um pedido de extradição para os EUA, onde corre o risco de ser sentenciado até 175 anos de prisão por espionagem.

As autoridades dos EUA acusam-no de ter colocado em perigo algumas das suas fontes, quando publicou, em 2010, cerca de 250 mil mensagens diplomáticas e 500 mil documentos confidenciais relativos a atividades dos militares norte-americanos no Iraque e Afeganistão.