Lado B é uma rubrica que apresenta a história de jogadores de futebol desde a infância até ao profissionalismo, com especial foco em episódios de superação, de desafio de probabilidades. Descubra esses percursos árduos, com regularidade, no Maisfutebol:

«Se acabar a minha carreira, talvez sem conquistar campeonatos, mas ajudando a construir escolas na Serra Leoa, a minha carreira está sido um sucesso.»







«Estou prestes a fazer um anúncio: vou retirar-me. Teria feito isso se tivéssemos vencido o troféu, aviso desde já, iria de imediato para Hollywood. Enfim, tenho de jogar mais uma época. Estou no meu topo de forma, tenho 31 anos e quero ganhar alguma coisa. Quando isso acontecer, irei retirar-me».







«Cresci numa família cheia de amor e muito muito grande. Tinha apenas seis anos quando a minha mãe partiu para os Estados Unidos e me deixou com a sua irmã mais velha, no mesmo ano em que começaria a Guerra Civil.»



«Os filhos da minha tia eram como se fossem meus irmãos. Quando somos novos e crescemos num cenário de guerra civil não há muitas opções. Os rebeldes chegavam às cidades e tentavam recrutar crianças-soldado. Um dos meus ‘irmãos’ decidiu ir, assim como uma das minhas ‘irmãs’. Só que ela entretanto mudou de ideias, pediu para voltar para trás. Eles disseram que sim, sem problema, que fosse ter com a família. Ela virou as costas…e acabou-se para ela.»



«Lembro-me muito de outro dia. Não sei que idade tinha, talvez 10 ou 11. Lembro-me de os soldados capturarem alguns rebeldes, amarrá-los e coloca-los no chão. Como éramos apenas jovens, decidimos ficar e ver o que iria acontecer. Foram todos executados à nossa frente. Hoje quanto penso nisso sei que era algo que nunca devia ter visto.»



«Acordava de manhã e havia cadáveres nas ruas e abutres a comer a sua carne. Tínhamos apenas uma bola de futebol. Sem campeonato, sem balizas. O campo era onde houvesse espaço. Apenas pela alegria. Jogávamos até ser noite ou até começarem de novo os tiroteios.»





«Deixámos tudo para trás e metemo-nos num barco em direção à Gâmbia. Eu via a água a entrar no banco e só pensava se íamos conseguir chegar ao outro lado. Conseguimos chegar, fazíamos parte de um programa de refugiados e tivemos de ficar lá à espera que chamassem os nossos nomes para ir para os Estados Unidos. Fiquei lá um ano e meio/dois anos, iá lá à escola, e já pensávamos que íamos ficar ali. Mas finalmente chamaram o nosso nome.»











«Devo tudo à Serra Leoa. Não é apenas o meu local de nascimento, é a minha casa. Tinha a oportunidade de jogar perante a minha família, portanto decidi jogar pela seleção da Serra Leoa e não pelos Estados Unidos. É a minha forma de retribuir, de dar algo a um país que não tem nada, de dar alguma esperança aos miúdos que não têm perspetivas de vida.»



«Fui abençoado e tenho a oportunidade de estar onde estou devido ao futebol. Agora é a minha vez de retribuir. Por isso é que estou a trabalhar em conjunto com o Michael Lahoud (Philadelpia Union) para construir escolas na Serra Leoa. Vemos as oportunidades que todos têm nos Estados Unidos e é isso que queremos para os miúdos da Serra Leoa. Se acabar a minha carreira, talvez sem conquistar campeonatos, mas ajudando a construir escolas na Serra Leoa, a minha carreira está sido um sucesso.»