Depois do pesadelo no divã de fabrico pacense, o FC Porto entrou no «modo Champions», venceu «de cadeirinha» e voltou a sonhar com os milhões da bazuca europeia.

Segunda vitória, segundo lugar do grupo e mais 2,7 milhões no cofre. A noite foi proveitosa para o campeão nacional que se redimiu diante de um velho conhecido.

Tão estranho como ouvir o som celestial do hino da Champions ecoar em bancadas vazias – ao invés do que aconteceu há uma semana na receção ao Olympiakos –, é ver AVB no banco contrário àquela que já foi a sua cadeira de sonho.

Na Champions, porém, o Marselha vive um pesadelo. Zero pontos, zero golos marcados e agora acaba de igualar o pior registo de sempre (do Anderlecht) de doze derrotas seguidas – a última vitória remonta a 2012, 1-0 frente ao Inter.

Mas, interrompamos o capítulo na parábola do filho pródigo, no ex-treinador de maior sucesso na última década do clube a aspirante a presidente durante a próxima.

Há um jogo para «cronicar».

Sem Pepe, lesionado na véspera, Conceição chamou o reforço Sarr ao eixo da defesa e encaixou o 4-4-2, com Díaz e Marega soltos na frente, no 4-1-3-2 marselhês.

Na verdade, nem os esquemas estavam estudados e já o FC Porto se colocava na frente. Marega voltou aos golos mais de um mês depois e logo ao minuto 4 tocou para o fundo da baliza uma assistência primorosa de Corona.

Haviam de ser os penáltis a estabelecer ainda mais as diferenças até ao intervalo: o que Payet enviou figuradamente para o Douro, ao minuto 10, Sérgio Oliveira aninhou nas redes, aos 28.

A vencer por 2-0, o FC Porto mostrou, de forma ainda mais clara, porque tem muito melhor coletivo do que o Marselha. E revelou-se um conjunto maduro, a dar a iniciativa de jogo ao adversário, a jogar no erro e a atacar pela certa e com perigo. Se os franceses têm individualidades para pedir meças a qualquer outra equipa do grupo que não o City – Thauvin, Payet, Mandanda, Benedetto, enfim… – são, porém, uma equipa bem mais «tenra» do que FC Porto ou o Olympiakos.

Parte também daqui a explicação para que, mesmo com mais posse de bola (58%-42%) e remates (4-3) ao intervalo, os pupilos de AVB nunca tenham sequer parecido estar perto de discutir o jogo nos segundos 45 minutos.

Assim foi. A segunda parte foi de resistência portista até ao golpe final, que já se adivinhava. Um contra-ataque letal, com Corona a fazer a segunda assistência no jogo, servindo de forma magistral Luis Díaz para um remate colocado aos 69m.

Primorosa, magistral… É quase inevitável pontuar cada assistência de Corona em tom elogioso.

O mexicano, melhor portista em campo, havia de quase sentenciar uma exibição notável com um golo aos 85m. Saiu por cima a bola, depois de uma noite em cheio.

Conceição avisou na véspera que «O Marselha não é nenhum clube ali da esquina». Não será, não senhor, mas há equipas bem mais difíceis de dobrar.

Hoje, não havia como resistir ao poder do dragão, que lambeu as feridas de guerra, saiu a conquistar o seu lugar na Europa e acabou a noite a trautear «A Marselhesa», cerrando os dentes como quem clama «Às armas».

Sérgio Pires / Estádio do Dragão, Porto