Comece-se por dois pontos prévios. O primeiro, para assinalar o impressionante respeito com que foi cumprido o minuto de silêncio na noite em que a Luz voltou a recordar que há coisas muito mais importantes que o futebol. O segundo, para esclarecer que, com a eventual excepção do Milan, as equipas italianas, mais ainda nos jogos fora de casa, não praticam a mesma modalidade que as outras. Jogam um desporto mutante, uma espécie de xadrez com bola, que se orienta por princípios e objectivos diferentes daquilo a que nos outros países se chama futebol.

Se, como neste caso, a equipa em questão atravessa enorme crise de confiança e longa seca de vitórias, os pontos em comum com o futebol tornam-se ainda menos. O Inter foi durante 90 minutos, na Luz, uma caricatura levada ao extremo da imagem de marca dos italianos: aborrecido, cinzento, defensivo, totalmente desligado da vontade de construir alguma coisa, mas, ao mesmo tempo, compacto, concentrado, ultra-rigoroso e sem sombra de pudor pela manifesta alergia à bola.

Assim, daqui para a frente, o Benfica é o único sujeito deste texto, destinado a justificar em que medida um empate a zero, em casa, pode ser recebido - como o foi - com sinais de satisfação e empolgamento por parte dos adeptos encarnados. Porque, diga-se desde já - e mesmo tendo em conta a grande percentagem de domínio consentido que a atitude do Inter implicou - a equipa de Camacho fez provavelmente, em especial na primeira parte, a exibição mais lúcida e consistente da temporada.

Construir a casa de trás para a frente

Face aos antecedentes de intranquilidade defensiva e à escassez de opções de ataque, será justo dizer que o Benfica assumiu como primeira meta a necessidade de não sofrer golos. Era uma opção pouco vulgar, mas inteiramente sensata, sendo certo que o facto de o Inter marcar - ainda para mais sem jogar futebol... - provavelmente sentenciaria a eliminatória cedo de mais. Construir a casa a partir de trás era o primeiro passo para que tudo o mais fosse possível. E cedo se percebeu que - também pela nula vontade do Inter em correr riscos, mas não só por isso - o quarteto escolhido estava, desta vez, à altura das exigências.

Faltava o resto: ser paciente na circulação de bola, não permitir saídas em contra-ataque ao adversário, e saber dosear a pressa e a velocidade para encontrar abertas necessárias na defesa ultra-reforçada dos italianos. Muito claramente, o Benfica conseguiu fazê-lo, quase do princípio ao fim, com excepção de uma quebra lá para a meia idade do jogo, entre os 60 e os 80 minutos, que as entradas de João pereira e Manuel Fernandes ajudaram a resolver. Mais sólida, consistente e madura do que até aqui, a equipa de Camacho cumpriu integralmente dois terços do plano de jogo.

O mérito maior para esse sucesso parcial vai direitinho para Petit, colossal na forma de ocupar os espaços, insaciável na capacidade de recuperar a bola. Jogando como médio mais recuado, o pitbull permitiu a Tiago libertar-se para uma posição mais adiantada, apoiando Zahovic na paciente elaboração do tricot de passes com que o Benfica começou, desde muito cedo, a tentar desfazer a muralha. O resto, estava a cargo das iniciativas de Simão - decisivo para a boa primeira parte, quando esteve bem apoiado por Armando - e na capacidade de luta de Sokota, que mesmo sem espaços para remate foi muito útil a ganhar a primeira bola e a esperar os apoios dos colegas.

Duas oportunidades «tinham» de chegar...

Mas era sabido, mesmo antes do jogo, que o Inter não iria consentir a avalanche de remates e ocasiões desperdiçadas, por exemplo, frente ao Rosenborg. Tudo somado, se o Benfica conseguisse duas-três ocasiões claras de golo, teria de saber aproveitar pelo menos uma. Foi isso que não aconteceu: os 90 minutos de domínio e auto-controlo traduziram-se em duas oportunidades muito claras (Armando, aos 15 minutos, Petit e Sokota, ao cair do pano), outra que não o foi tanto (um canto que Toldo não segurou e Ricardo Rocha não conseguiu finalizar, aos 39 m) e numa boa meia dúzia de quase-ocasiões que alguns centímetros a mais ou a menos impediram de levar até ao fim.

Por duas vezes em que a muralha mostrou brechas, Toldo respondeu com a classe dos melhores. A dupla defesa à bomba de Petit e à recarga de Sokota, aos 89 minutos, foi o momento-chave desta história sem final feliz e sem lição de moral. O guarda-redes italiano simplesmente impediu que o futebol saísse vitorioso no duelo com a tal modalidade estranha que só as equipas italianas sabem jogar.

E quando o Inter tiver de jogar?

Por tudo isto, fica a sensação de que, dando uma demonstração de estar finalmente perto de ser uma equipa dos pés à cabeça, o Benfica ficou esta quarta-feira a meio do caminho que tem de percorrer. Falta-lhe a parte mais difícil: saber ser tão italiano (leia-se avarento) no ataque como os italianos o são na defesa.

Nesse sentido, como é óbvio, o zero a zero não é um resultado muito animador para os 90 minutos que ainda estão por jogar. Mas há um dado que permite manter esperanças para São Siro, porventura mais do que antes desta noite. É que daqui a duas semanas o Inter vai ter de pôr o xadrez de lado e, nem que seja por um bocadinho, tentar jogar futebol. E, aí, com duas equipas a falar finalmente um idioma comum, pode ser que este Benfica, revitalizado pela demonstração de carácter, tenha argumentos para levar a discussão até ao fim.

Nuno Madureira