O pé esquerdo de Brahimi assinou a sentença. Cruel, porventura injusta: o Sporting perdeu no Dragão, ficou a oito pontos do FC Porto (nove, na prática) e comprometeu decisivamente a candidatura ao título nacional.

O Dragão sofreu, passou por provações nunca antes experimentadas às garras do leão esta época, mas sai do Clássico firme e teimosamente hirto na corrida pela recuperação do domínio nacional.

Já agora, os portistas podem agradecer a um tal de Iker Casillas: aos 86 minutos, uma mancha do outro mundo roubou o golo a Fredy Montero e os sonhos ao reino de Alvalade. Como é que este homem passou tantos meses no banco?

O Sporting pode apresentar reclamação aos deuses do futebol, na receção central. Falhou nesse instante por Montero, com Iker a ser San, e logo depois pelo menino Rafael Leão, protagonista imprevisto na noite da Invicta.

FC Porto-Sporting, 2-1: ficha e jogo ao minuto

O rapaz nascido em 1999, ano em que Casillas assumiu a baliza do Real Madrid (estamos velhos, o escriba e o guarda-redes), disparou para a VCI uma bola obrigada a ser golo. Faltou o sangue frio e a certeza que teve aos 45 minutos, em cima do intervalo.

Leão, lançado segundos antes para o lugar do lesionado Doumbia, adivinhou o passe cerebral de Bryan Ruiz, fugiu a Felipe e meteu a bola pelo meio das pernas de Casillas. Aos 18 anos, e em estreia absoluta num Clássico, o ponta-de-lança esteve no melhor primeiro e, mais tarde, no pior.

Não foi ele o único a estrear-se. Gonçalo Paciência jogou pela primeira vez a titular na Liga com a camisola do FC Porto. Foi fundamental na estratégia delineada por Sérgio Conceição (já lá vamos) e no segundo golo azul e branco. O avançado recebeu de Otávio na direita, bailou sobre Mathieu e cruzou rasteiro, com a bola a encontrar Brahimi e a primeira linha desta crónica.

Depois do 2-1, que se justificava por essa altura – minuto 50 –, o Sporting arriscou tudo. Os homens de Jesus perceberam o significado da derrota. Sentiram-se obrigados a arriscar, a tentar tudo, a fazer juras de amor eterno com o Olimpo da bola.

FC Porto-Sporting, 2-1: destaques dos dragões

Nesses 40 minutos, o FC Porto não geriu a bola como devia e expôs-se à radioatividade de Bruno Fernandes e companhia. Aguentou, sim, mas os sustos foram constantes. Mesmo nas transições ofensivas, ponto forte da equipa portista, as decisões foram quase sempre más e o Sporting, que podia ter ficado fora da discussão numa dessas jogadas, começou a perceber que podia ser sôfrego na frente e jogar no risco atrás.

Jesus Corona, lançado a meio do segundo tempo, foi o pior em campo. Fresco, teve ações absurdas e decisões horríveis: cruzou quando devia rematar, rematou quando devia cruzar… Muito mal.   

O mexicano não entrou no desenho inicial de Conceição e percebeu-se que está mal. Física e animicamente. O treinador portista apostou tudo nos duelos físicos – quase sempre ganhos pelos seus atletas – e na exploração do espaço nas costas leoninas.

FC Porto-Sporting, 2-1: destaques dos leões

Aqui, Gonçalo Paciência foi figura obrigatória. A forma como o avançado segura, roda e serve os colegas foi uma plataforma de segurança e qualidade. No primeiro tempo, por exemplo, isolou Marega que correu, correu, correu e atirou ao lado. Podia ter feito aí o 2-0 e evitar todo o sofrimento que se seguiu.

Notas finais: FC Porto melhor no primeiro tempo e a inaugurar o marcador num belo cabeceamento de Marcano – mais uma exibição gigante!; o Sporting a dar uma réplica que nunca dera nos três primeiros duelos entre as equipas e a queixar-se de um penálti sobre Doumbia no primeiro tempo (Soares Dias recorreu ao VAR e mandou o jogar, concordando com a impressão com que ficámos no estádio); os dragões a sofrerem como nunca na segunda metade e a perderem Marega por lesão; o Sporting a sentir o adeus ao título e a agarrar-se à vida como um náufrago em alto mar.

No pé esquerdo de Brahimi e na santidade de Casillas se escreveu a pena de morte do leão.

Pedro Jorge da Cunha / Estádio do Dragão, Porto