Há discussões que não levam a lado nenhum e outras que só se resolvem com um murro na mesa. Se for com um pontapé furioso a 40 metros da baliza, também pode ser. O importante é agarrar a razão e mostrar que o lado bom da Força está mais vezes com os audazes do que com os temerosos.

Alex Telles, herói e salvador do FC Porto numa noite de querelas insondáveis, faz parte dos futebolistas incapazes de se esconderem. É corajoso, é apaixonado e é dono e senhor de um remate que pede meças às famosas trivelas de Branco, compatriota e antecessor no cargo de lateral esquerdo nos anos 90.

Já que perguntam, sim senhor, foi Alex Telles a decidir o FC Porto-Portimonense. A três minutos dos 90, com os dragões a esmurrarem num muro amarelo que já era mais do que um posto de lamentações, a bola chegou ao pé esquerdo do brasileiro e só morreu nas redes da baliza algarvia.

FICHA DE JOGO DO FC PORTO-PORTIMONENSE

 

Momento importante, quiçá decisivo, nestas contas do título nacional. Após longas semanas a jejuar da liderança da Liga, o FC Porto ultrapassa à condição o Benfica e atira toda a pressão para o jogo de Barcelos, agendado para segunda-feira à noite.

Estas são as boas notícias na perspetiva do FC Porto. Tudo o resto, ou quase tudo, foi insuficiente.

Lembram-se da equipa apaixonada, arrebatadora, até feliz e sonhadora, que há um par de semanas derrotou o Benfica? Aquela equipa capaz dos gestos mais criativos e engenhosos, que gosta de surpreender e enviar um ramo de flores a quem ama? Lembram-se? Desapareceu durante 65 minutos.

Nesse período, o que se viu foi um conjunto de cara fechada e pesada, como se levasse 20 anos de um matrimónio aborrecido, assente em rotinas automatizadas e ineficazes. Deixou de ser um inventor entusiasmado com tudo o que cria para ser um barrigudo que se passeia em pijama pela casa. Um corpo sem mistério, sem encanto e, pior do que tudo, sem ponta de ilusão.

«Lembras-te quando éramos jovens, há 14 dias?». O FC Porto parecia tão cansado, tão sobrecarregado pela viagem e jogo na Alemanha, que aparentava não estar sequer disponível para pensar em liderar este campeonato. Pareceu-lhe mais fácil e simples a nostalgia dos dias de glória.

DESTAQUES DO JOGO: Alex Telles, o bombista com coração  

 

Mas como o carinho não se pede, conquista-se, a equipa sentiu o grito do banco – Conceição acertou ao lançar Zé Luís e, principalmente, Nakajima – e carregou com tudo o que tinha a partir dos tais 65/70 minutos.

A ofensiva explodiu no golo absolutamente decisivo, mas o filme podia ter sido negro para os portistas.

É verdade que no primeiro tempo houve três claras oportunidades de golo falhadas pelos da casa – Corona, Soares e Soares -, mas depois até ao intervalo só deu Portimonense e Jackson Martinez.

Falamos sobre o colombiano mais em pormenor nos destaques, mas ele merece este parágrafo em exclusivo. A mancar desde o início, num evidente desconforto, Jackson foi jogando bem, recebendo e tocando a bola, até falhar duas claríssimas oportunidades. Primeiro num cabeceamento atirado ao lado e depois num penálti disparado para as nuvens.

Claro que as almas doentes vão disparar sobre o Cha Cha Cha as acusações mais maldosas, esquecendo o percurso imaculado de um dos profissionais mais sérios a alguma vez jogar em Portugal. É esse o preço a pagar para viver e trabalhar num futebol onde a atmosfera de desconfiança é asfixiante.

Basta, porém, analisar com atenção o passado de Jackson e recordar que o colombiano desperdiçou cinco castigos máximos pelo FC Porto, além de um pontapé contra o Benfica num desempate por penáltis. Coisas da bola.

Sejamos sérios e claros: a noite foi de Alex Telles, não a queiram entregar a quem não merece.

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Jorge da Cunha / no Estádio do Dragão